Fraude Eleitoral

Em Honduras, Rixi Moncada pede ‘unidade do povo’ e denuncia intimidação dos EUA

Moncada denuncia “fraude do bipartidarismo” após resultados preliminares, acusa ingerência e pede recontagem de votos

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Rixi Moncada em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 1º de dezembro.
Rixi Moncada em coletiva de imprensa nesta segunda-feira, 1º de dezembro. | Crédito: (Foto: redes sociais Rixi Moncada)

“As eleições não estão perdidas. O bipartidarismo nos impôs sua trama eleitoral, seguindo a armadilha revelada nos 26 áudios, ao adulterar o sistema de transmissão de resultados (TREP) e a biometria”, afirmou nesta segunda-feira (1º) a candidata governista Rixi Moncada, em suas primeiras declarações oficiais após as eleições gerais de domingo.

No fim da tarde, cerca de uma centena de militantes começou a se reunir na sede central do Partido Liberdade e Refundação (Libre). As horas de espera foram preenchidas por cantos e palavras de ordem, num ritual que buscava aliviar a incerteza e a tensão. “Isso, pelo menos, nos dá uma certeza. Sabíamos que isso ia acontecer, esperávamos, mas foram muitas horas de apreensão”, confessou, com certo alívio, um senhor que havia permanecido o dia inteiro na sede partidária, em conversa com o Brasil de Fato.

Anunciada no próprio domingo, a coletiva de imprensa foi adiada repetidas vezes — em meio a um silêncio tenso — ao longo de toda a segunda-feira. Finalmente, começou às 21h20 (hora local), quando já haviam se passado 24 horas desde que o CNE divulgara os primeiros dados do sistema de Transmissão Preliminar de Resultados Eleitorais (TREP).

Entre aplausos e gritos de “¡a la calle!” dos presentes, Moncada lembrou que o Libtr é um partido forjado nas ruas, na luta contra o golpe de Estado. “O Libre é um partido de batalha, nascido nas ruas, cujo mito de origem é a consulta popular da quarta urna e a resistência heroica contra o golpe de Estado e as fraudes de 2009, 2013 e 2017”, destacou.

Em consonância com as reiteradas denúncias de tentativa de fraude por parte da oposição, que o Libre vem fazendo desde antes das eleições, Rixi afirmou que, segundo as análises técnicas de sua equipe, eles “constataram algumas áreas evidentes da armadilha em curso, cuja responsabilidade recai sobre o bipartidarismo”.

Segundo a denúncia, a suposta fraude teria sido cometida por meio da “eliminação da validação das atas pelos leitores biométricos”, medida aprovada no Conselho Nacional Eleitoral na noite anterior à votação. Dessa forma, tanto o Partido Nacional quanto o Partido Liberal teriam apresentado atas que não cumpriam todos os requisitos de segurança, nas quais haveria “mais votos do que deveria”. Por esse motivo, o Libre pedirá a recontagem de todas as atas.

“Essas atas que mostramos aqui fazem parte do processo de revisão técnica que está sendo realizado, e o que elas revelam é que há mais votos do que deveria. Há casos extremos em que a ata apresenta até 100 votos a mais do que o possível. Vamos exigir, neste período de 30 dias do escrutínio final, que essas atas sejam revisadas, e vamos usar todos os recursos legais, porque não temos nenhuma dúvida sobre o percentual de inflação de votos do bipartidarismo”, concluiu.

‘Declaro que manterei minha posição: não me rendo

Durante a coletiva, além de denunciar o que classificou como uma “armadilha” do bipartidarismo — em referência ao Partido Nacional e ao Partido Liberal —, Moncada voltou a acusar uma “ingerência estrangeira imperial direta”. Ela lembrou que, poucas horas antes das eleições, Trump pediu votos para Nasry “Tito” Asfura, candidato do Partido Nacional, e declarou que, caso ele vencesse, concederia perdão ao ex-presidente Juan Orlando Hernández (JOH), um dos principais dirigentes do partido, condenado por um tribunal de Nova York por crimes de narcotráfico.

“Em um ato sem precedentes na nossa história, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump me condena e me ameaça por minha participação, reconhecendo-me como a principal opositora”, afirmou Moncada, classificando a atitude do republicano como uma forma de “coação”, caso o voto popular a favoreça.

“Declaro que manterei minha posição: não me rendo”, disse ela, arrancando aplausos e gritos de “¡Rixi presidenta!”. “Estarei sempre ao lado do povo, com meus valores firmes na defesa da minha pátria livre e nos princípios da não ingerência, da soberania popular, da independência e da autodeterminação dos povos.”

Diante das intimidações de Washington, ela garantiu que sua proposta de “democratização da economia e defesa dos bens comuns” permanece firme, referindo-se à intenção de promover uma reforma tributária progressiva para enfrentar “a impunidade dos vinte e cinco grupos econômicos e das dez famílias que nos oprimem com seus monopólios”. Acrescentou que, por esse motivo, o presidente Trump a chama de “comunista”, classificando a acusação como um “expediente gasto da Guerra Fria”.

“Convidou toda a nossa militância, os setores sociais, a juventude, as mulheres e os homens patriotas a continuar nossa luta pacificamente, unidos, firmes na resistência, porque o presente e o futuro de Honduras não se escrevem com imposições externas, mas sim com a vontade soberana do nosso povo. Hoje iniciamos uma nova etapa, com mais força, com mais organização e com a certeza de que queremos uma pátria livre, soberana e independente.”

Tensões internas e debates

Apesar dos cantos e do apoio à candidata Rixi Moncada, tensões e acusações cruzadas também marcaram presença na sede do Partido Liberdade e Refundação (Libre). Minutos antes do início da coletiva, um grupo de militantes se aglomerou na porta ao som de “¡Fuera mapache!”.

“‘Mapache’ é como chamamos os políticos que vivem mudando de posição, seguindo práticas oportunistas da política tradicional”, explicou um militante do Libre, enquanto empurrões e gritos de “¡traidor!” chamavam a atenção dentro da sede.

O pequeno incidente começou com a chegada de dois deputados das chapas do Libre, acusados por um grupo de militantes de serem “liberais”. “Há muita revolta com uma parte da direção, que muitos militantes de base consideram não representar o espírito do partido”, afirmou outra militante.

Diante dos primeiros resultados do dia, com o passar das horas, avaliações críticas e acusações cruzadas começaram a se multiplicar nas redes sociais, entre militantes inconformados com a atuação de algumas figuras das listas. “Nosso partido foi construído nas ruas, lutando contra o golpismo, e não vamos permitir que façam fraude de novo, mas também não podemos nos calar diante das traições”, refletia um grupo de senhoras que expressava sua insatisfação com o que consideram “grupos oportunistas” dentro do partido.

Contagem irregular e resultados preliminares

No momento da coletiva, apenas 57% das urnas tinham sido apuradas. Sem qualquer explicação oficial por parte do CNE, e após várias interrupções, a contagem foi paralisada por volta das 15h (horário de Tegucigalpa), aumentando ainda mais o já tenso clima de incerteza.

Até então, os resultados preliminares apontavam um “empate técnico” entre os candidatos do bipartidarismo tradicional. Nesse cenário, Nasry “Tito” Asfura, candidato do Partido Nacional e publicamente apoiado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, somava 749.022 votos (39,92%), enquanto Salvador Nasralla registrava 39,89%, com 748.507 votos — diferença de apenas 515 sufrágios. Em terceiro lugar estava a candidata governista, Rixi Moncada, representante do Libre, com 359.584 votos (19,16%).

Diante dessas irregularidades, já no fim da tarde, Trump voltou a se pronunciar sobre as eleições hondurenhas. “Parece que Honduras está tentando alterar os resultados de suas eleições presidenciais. Se fizerem isso, vai estourar um escândalo!”, declarou nas redes sociais, acrescentando que “a recontagem mostrou uma disputa acirrada entre Tito Asfura e Salvador Nasralla, com Asfura mantendo uma estreita vantagem de 500 votos”.

Durante a coletiva de Rixi Moncada, um militante do Libre ironizou, ao ser questionado pelo Brasil de Fato: “Eleições são época de queda de energia, internet fora do ar e paralisação das contagens do CNE”, numa referência aos turbulentos processos eleitorais do país, marcados por fortes denúncias de fraude desde o golpe de Estado de 2009.

Editado por: Nathallia Fonseca

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