Escalada

Japão intensifica militarização de ilhas Ryukyu com bases próximas ao Estreito de Taiwan

Governo japonês constrói base para transferir operações militares dos EUA para ilha 2.500 km mais próxima da China

No audio source provided.
Pessoas protestam contra a presença de bases militares estadunidenses, em frente à base militar Campo Schwab do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em Nago, na ilha de Okinawa em 17 de junho de 2016.
Manifestantes contra a presença de bases militares estadunidenses, em frente à base militar Campo Schwab do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA em Nago, na ilha de Okinawa – 17 de junho de 2016. | Crédito: Toru Yamanaka | AFP

O Japão vem intensificando a construção de bases militares nas ilhas Ryukyu setentrionais, com destaque para a ilha de Mageshima, onde uma pista de aproximadamente 2 mil metros deve ser concluída até março de 2030 para treinamento de aeronaves estadunidenses embarcadas em porta-aviões. A informação foi divulgada pela CCTV Militar nesta terça-feira (3), citando fontes da própria Força de Autodefesa japonesa.

Segundo o relatório, as obras em Mageshima continuam sem parar, incluindo fins de semana e período noturno. Além da pista, a ilha receberá instalações para ancorar fragatas de grande porte, consolidando sua função como nó operacional no sistema denominado pelo Japão como “Grupo Fortaleza das Ilhas do Sudoeste”.

A base é resultado de acordo entre Washington e Tóquio firmado em 2023, que transferiu as operações de treinamento estadunidenses da ilha de Iwo Jima – que fica a 3.741 km da China continental – para Mageshima, a 2.500 km do território chinês. A mudança aproxima o Carrier Air Wing 5 da Marinha dos EUA (um grupo de esquadrões de aviões), de sua base permanente na Estação Aérea do Corpo de Fuzileiros Navais de Iwakuni, segundo análise do Global Defense Insight.

O Ministério da Defesa japonês constrói duas pistas na ilha: uma principal de 2.438 metros e outra transversal de 1.829 metros, além de depósito de munições, porto e instalações de armazenamento de combustível. A infraestrutura atenderá exercícios de pouso e decolagem de aeronaves F-35B e aviões embarcados estadunidenses.

Ilha de Mageshima – Charly W. Karl / Creative Commons
| Crédito: Prefeitura de Kagoshima

A base de Amami Ōshima, ao norte de Okinawa, e a de Mageshima, que controla o estratégico Estreito de Ōsumi, já estão operacionais e servem como pontos de apoio setentrionais da nova linha defensiva nipônica, que transforma o arquipélago Ryukyu em corredor militar voltado para o Estreito de Taiwan e o território chinês continental.

Ryukyu é o arquipélago que se estende do sul de Kyushu até as proximidades de Taiwan; Okinawa é apenas o seu grupo central, hoje uma prefeitura japonesa, e não engloba todo o antigo Reino de Ryukyu nem o restante das ilhas que compõem o arquipélago histórico.

Orçamento militar cresce por 13 anos consecutivos

O orçamento de defesa japonês registra crescimento pelo décimo terceiro ano seguido. Parte dos recursos financia o que o governo classifica como “resiliência de segurança”, incluindo desenvolvimento de “plasma universal”, elaboração de dispositivos legais para cenários de guerra – como tratamento de prisioneiros – e conversão de portos civis em instalações de uso dual (civil e militar).

Nos últimos anos, o militarismo japonês se intensificou. Em 2015, sob governo do primeiro-ministro Shinzo Abe, o país aprovou uma nova legislação que permite o exercício da “defesa coletiva”, rompendo décadas de restrições e recebendo críticas de juristas japoneses sobre a inconstitucionalidade da decisão. Posteriormente, substituiu os “Três Princípios sobre Exportação de Armas” pelos “Três Princípios sobre Transferência de Equipamentos e Tecnologia de Defesa”, flexibilizando drasticamente as restrições à exportação de armamentos, incluindo armas letais.

Na cúpula EUA-Japão de 2023, Washington enfatizou sua estratégia de Dissuasão Integrada, que visa integrar as forças militares estadunidenses com as Forças de Autodefesa japonesas. A declaração conjunta dos presidentes citou a necessidade de “postura de força coletiva e capacidades de dissuasão para enfrentar ameaças novas e emergentes”. O secretário-chefe do gabinete japonês, Hirokazu Matsuno, declarou que os exercícios previstos em Mageshima permitirão que porta-aviões estadunidenses realizem atividades permanentes na região.

China rejeita militarização e alerta sobre quebra de ordem do pós-guerra

“Nos últimos anos, o Japão tem continuamente ‘afrouxado suas próprias restrições’ e expandido sua força militar”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, em 21 de novembro. “Se o Japão pretende retornar ao velho caminho do militarismo, abandonar seu compromisso com o desenvolvimento pacífico e minar a ordem internacional do pós-guerra, o povo chinês não aceitará, a comunidade internacional não permitirá, e isso terminará apenas em fracasso”.

O embaixador Fu Cong, representante permanente da China na ONU, enviou carta ao secretário-geral António Guterres no dia 1º de dezembro criticando declaração da primeira-ministra japonesa Takaichi Sanae, que afirmou em 7 de novembro na Dieta (o parlamento japonês), que “uma contingência em Taiwan poderia constituir crise existencial para o Japão”.

O uso da expressão “crise existencial” tem a ver com terminologia criada por Shinzo Abe em 2015. Uma caracterização desse tipo, sob a recente legislação, permitiria ao Japão fazer uma eventual intervenção militar japonesa no Estreito de Taiwan. Para Fu Cong, a declaração viola o princípio de Uma Só China e desafia a Declaração do Cairo e a Proclamação de Potsdam, documentos que definiram a ordem internacional após a Segunda Guerra Mundial.

Status histórico de Ryukyu permanece indefinido

As ilhas Ryukyu existiram como reino independente por longo período e mantiveram status de Estado tributário da China durante as dinastias Ming e Qing. O arquipélago foi anexado à força pelo Japão em 1879. Após a Segunda Guerra Mundial, a Proclamação de Potsdam definiu o escopo da soberania japonesa, que não incluía Ryukyu.

Em 1972, os Estados Unidos transferiram de forma unilateral os “direitos administrativos” de Ryukyu ao Japão, sem consentimento da população local nem participação de nações vitoriosas como a China. A questão do status legal do arquipélago nunca foi resolvida.

Atualmente, a região de Ryukyu – que representa apenas 0,6% do território japonês – abriga mais de 70% das bases militares estadunidenses no Japão. Com a incorporação de ilhas setentrionais como Amami Ōshima e Mageshima ao sistema de “Linha de Defesa do Sudoeste”, toda a cadeia de Ryukyu está sendo transformada em “porta-aviões inafundável” direcionado ao Estreito de Taiwan.

A posição estratégica de Mageshima, no nordeste das ilhas Ryukyu, permite controlar a passagem de navios da Marinha chinesa que buscam acesso ao Oceano Pacífico. Analistas militares estadunidenses descrevem a ilha como “porta-aviões inafundável” que, diferentemente de embarcações vulneráveis a mísseis, pode suportar mais munições e ser rapidamente reparada.

A militarização crescente tem gerado protestos entre moradores de Okinawa e ilhas adjacentes, que há anos denunciam poluição sonora, ambiental e crimes relacionados às bases. Nos últimos anos, surgiram vozes defendendo “independência do Japão e autodeterminação do futuro” da região.

O governo chinês defende a manutenção da paz e estabilidade regionais através de diálogo e cooperação, mas insiste que o Japão cumpra o espírito dos quatro documentos políticos entre China e Japão, retire suas declarações sobre Taiwan e cesse toda forma de expansão militar e contenção contra a China.

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter