Mulheres vivas

Políticas públicas que reagem ao patriarcado são sufocadas de várias formas, comenta cientista política após onda de atos contra feminicídio

Para Mayra Goulart, extrema direita e subfinanciamento das políticas contribuem com aumento da violência de gênero

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Movimentos populares, artistas, parlamentares e autoridades do governo Lula ocuparam ruas de diversas capitais para denunciar violência contra mulheres neste fim de semana
Movimentos populares, artistas, parlamentares e autoridades do governo Lula ocuparam ruas de diversas capitais para denunciar violência contra mulheres neste fim de semana | Crédito: Rovena Rosa/Agência Brasil

A mobilização simultânea em dezenas de cidades do país contra o feminicídio e a misoginia é uma reação coletiva ao patriarcado, avalia a cientista política Mayra Goulart. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ela explica que “a violência contra a mulher, seja na sua forma mais exacerbada, que é o feminicídio, é um atributo constitutivo do patriarcado. O patriarcado reage quando é contestado”. Segundo a pesquisadora, essa reação opera em diferentes esferas e de formas específicas: violência doméstica, assédios e violência política de gênero e raça.

Goulart destaca que a violência é sempre interseccional e afeta mais intensamente mulheres que estão mais distantes do “núcleo patriarcal”. “Quanto mais aquele corpo é afastado do núcleo do patriarcado, que é o homem cis, branco, hétero e de classe alta, mais ele sofre a ação do patriarcado, essa reação violenta quando contestado”, afirma. Para ela, mulheres negras, pobres, trans e particularmente mulheres trans negras enfrentam um risco ainda maior.

Ao comentar a falta de políticas públicas efetivas, ela recorda o impacto do governo do ex-presidente preso Jair Bolsonaro (PL). “O Estado teve um interregno de pelo menos quatro anos dominado por uma presidência cujo um dos elementos centrais da sua ideologia é a defesa do patriarcado”, aponta. Segundo a professora, essa atuação estimulou práticas violentas no conjunto da sociedade e desestruturou políticas de proteção. “Essas políticas são subfinanciadas porque isso faz parte de uma estratégia de manutenção do patriarcado”, avalia.

A cientista política também criticou a negligência do atual governo de São Paulo, controlado pela extrema direita, com a gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos), diante de denúncias de subfinanciamento extremo da rede de acolhimento. “Políticas públicas conectadas à reação ao patriarcado são sufocadas de diferentes maneiras”, explica, apontando que valores conservadores funcionam como justificativa para abandono das vítimas. Para ela, o patriarcado “é uma violência de classe, de raça e de gênero”, o que faz de mulheres negras e pobres as principais vítimas.

Em ano pré-eleitoral, a professora defende que o tema permaneça no centro do debate. “A violência contra a mulher é muito silenciosa. Então, primeiro manter o tema à tona e dizer: ‘Denuncie, não é normal, não é comum’”, sugere. Goulart sustenta também que as candidaturas devem ser cobradas a apresentar propostas concretas já em 2026 e diz que é preciso “questionar todo ocupante do poder público que tem uma postura ambígua em relação a essa masculinidade, que é violenta por definição”.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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