Após dez dias das eleições gerais em Honduras, os resultados oficiais ainda não foram divulgados, em meio a sérias denúncias de irregularidades e de fraude eleitoral. Depois de quase 60 horas de interrupção e sem qualquer atualização, o sistema de transmissão de dados do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) voltou a ser suspenso, justamente quando se esperava avançar para a fase final da apuração.
A queda do sistema ocorreu com 99,40% das atas processadas, somando-se a uma longa lista de supostas “falhas” que têm marcado a transmissão dos resultados e alimentado um clima de fortes suspeitas de fraude.
De acordo com os últimos dados preliminares disponíveis, a diferença entre os dois principais candidatos era pequena, sendo 40,52% (1.298.835 votos) para Nasry “Tito” Asfura, do Partido Nacional, candidato apoiado por Trump; e 39,20% (1.256.428 votos) para Salvador Nasralla, do Partido Liberal. Em terceiro lugar aparece Rixi Moncada, do Libertad y Refundación (Libre), com 19,29% (618.448 votos).
No entanto, os resultados definitivos ainda estão longe de serem confirmados. Segundo o próprio CNE, 17% das atas apresentam inconsistências, o que implica que 2.773 delas deverão passar por revisão em uma apuração especial que começará nesta quinta-feira (11). Em meio ao clima político cada vez mais tenso, o órgão eleitoral tem como prazo limite o dia 30 de dezembro para declarar o vencedor.
Risco de retorno do “narcoestado”
Em entrevista ao Brasil de Fato, o jornalista e analista político residente em Honduras, Ezequiel Sánchez, detalha o contexto de denúncias de fraude que têm marcado a contagem dos votos e a crise política do país. Segundo ele, a constante aparição do Partido Nacional como vencedor no sistema de transmissão de dados evidencia graves irregularidades.
“O Libre garante que, segundo a contagem de suas atas, o Partido Liberal tem uma quantidade maior de votos do que o Partido Nacional. De certa forma, isso é uma forma de reconhecer uma derrota — em eleições que não foram limpas e estiveram marcadas pela interferência dos Estados Unidos —, mas também é uma maneira de denunciar que o Partido Nacional está roubando as eleições”, explica Sánchez.
O analista lembra que as denúncias se estendem às lideranças políticas. A presidente Xiomara Castro assegurou que o governo ofereceu “todas as garantias para que o processo democrático fosse realizado”, mas denunciou o que definiu como “um processo marcado por ameaças, coerção, manipulação do TREP [sistema de transmissão de votos] e adulteração da vontade popular”, classificando-o como “um golpe eleitoral em andamento”. Nesse sentido, anunciou que solicitará a anulação das eleições perante organismos internacionais.
Quase simultaneamente, o ex-presidente Manuel “Mel” Zelaya, atual coordenador do Libre, também exigiu a nulidade do pleito e definiu o processo como “terrorismo eleitoral”. Por meio de uma mensagem divulgada nas redes sociais, afirmou que, segundo a contagem paralela realizada pelo Libre “ata por ata”, Salvador Nasralla teria vantagem na eleição presidencial.
“Consultei nossa candidata Rixi Moncada para fornecer essa informação, porque, segundo nossa própria contagem nacional das atas presidenciais, ata por ata, quem vence a presidência é Salvador Alejandro César Nasralla Salum”, declarou Zelaya, antes de reforçar que “o Libre será sempre garantia de defesa da verdade e da vontade soberana do povo hondurenho”.
Além das reiteradas e prolongadas quedas do sistema de transmissão de dados, o Libre denuncia que foram apresentadas ao CNE atas que não cumpriam os requisitos de segurança e continham “mais votos do que o devido”.
Sánchez destaca que, em cada intervenção pública, o Libre exige que as eleições sejam declaradas nulas, reforçando que, segundo suas próprias atas, o Partido Liberal mantém vantagem sobre o Partido Nacional — algo que o próprio Partido Liberal também denunciou.
“O Partido Nacional é o partido dos narcos em Honduras”, sustenta Sánchez, alertando que uma vitória de “Tito” Asfura — apoiado por Trump — significaria o retorno desse setor ao poder executivo e ao controle do narcotráfico. Em sua opinião, o recente perdão concedido por Trump a Juan Orlando Hernández — que cumpria pena de 45 anos de prisão após ser considerado culpado por crimes relacionados ao narcotráfico e tráfico de armas — insere-se nesse contexto.
Sánchez afirma que o Libre está consciente das “graves consequências” que teria para o país se o Partido Nacional conseguisse impor suas manobras fraudulentas:
“Uma vitória do Partido Nacional reinstalaria o narcoestado. Um retorno de Juan Orlando Hernández seria marcado por sede de vingança, o que implicaria forte perseguição a tudo que seja de esquerda e a quem denuncie o narcotráfico.”
O analista lembra que, apesar das profundas diferenças entre as duas forças políticas, a denúncia ao “narcoestado” tem sido, por longo tempo, um ponto de concordância entre o Libre e o Partido Liberal. Isso permitiu alianças táticas nas eleições de 2017 — quando o Partido Nacional impôs fraude após a queda do sistema de transmissão de dados por mais de 24 horas, revertendo a tendência favorável a Nasralla e concedendo surpreendentemente a vitória a Juan Orlando Hernández — e nas de 2021, quando Xiomara Castro conseguiu se impor à “narcoditadura” de Hernández.
Sánchez considera “provável” que, apesar das denúncias de fraude que o próprio Partido Liberal vem realizando, parte de sua cúpula esteja negociando com o Partido Nacional. “Por isso não vimos tanta mobilização liberal, apesar de que deveriam ser eles a se mobilizar mais contra o roubo eleitoral. Porque, em teoria, são eles os vencedores”, afirma.
Em sua opinião, a confirmação pelo Libre de que, em suas atas, Nasralla tem vantagem sobre “Tito” Asfura é uma forma de intervir nessas negociações. “Mel joga a bola para os liberais verem como reagem”, observa.
Os Estados Unidos tiveram papel chave na estabilização do processo político hondurenho após o golpe de Estado de 2009. O rápido reconhecimento das supostas vitórias do Partido Nacional permitiu sustentar a governabilidade desse setor.
Após realizar uma intensa campanha a favor de “Tito” Asfura e apesar das denúncias de irregularidades e fraudes, o governo Trump afirma que não há “evidências críveis” de manipulação eleitoral.
Sobre a posição que Washington adotará agora, Sánchez considera que dependerá da postura do Partido Nacional. “Se o Partido Nacional aceitar a derrota, é provável que os Estados Unidos não tenham outra escolha senão aceitá-la. Além disso, o vínculo entre os dois países é gigantesco”, conclui.
