Ataque à imprensa

Hugo Motta cancela reunião com jornalistas para explicar agressões da Polícia Legislativa na Câmara

Profissionais tiveram encontro com assessoria da presidência da Câmara que disse estar 'apurando' os acontecimentos

Deputado Glauber Braga é retirado à força pela Polícia Legislativo
Deputado Glauber Braga é retirado à força pela Polícia Legislativa | Crédito: Reprodução

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), cancelou uma reunião com jornalistas nesta quarta-feira (10) para explicar a agressão contra servidores e jornalistas na tarde de terça-feira (9) promovida pelo Departamento de Polícia Legislativa (Depol). Os profissionais cobraram esclarecimentos depois da atuação da segurança no salão verde da Casa Baixa.

O Comitê de Imprensa da Câmara agendou uma reunião com Motta. O presidente da Câmara aceitou a proposta, mas, inicialmente, pediu que fossem apenas cinco profissionais da imprensa no encontro das 15h30 desta quarta. Os jornalistas apresentaram uma contraproposta com uma lista de 13 jornalistas. O critério para a seleção foi a presença de jornalistas em postos de representação e jornalistas agredidos no acontecimento.

O encontro foi desmarcado e foi realizada apenas uma reunião com a assessoria de Motta. De acordo com a equipa do presidente, uma nova data e local para a reunião será marcada. O deputado ainda não deixou claro quando isso acontecerá. 

A direção do Comitê de Imprensa da Câmara entende que a reunião com a assessoria “não esgotou as dúvidas” sobre a atuação da Polícia Legislativa e que é necessária a publicação de esclarecimentos formais sobre a ação e sobre a suspensão da transmissão da TV Câmara durante os acontecimentos.

Os episódios começaram depois que o deputado Glauber Braga (Psol-RJ) ocupou a mesa diretora da Câmara dos Deputados em protesto contra a sua cassação. Ele disse que esperava o mesmo tratamento recebido pelos deputados bolsonaristas que interditaram o espaço em agosto contra a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Na ocasião, Motta negociou a saída deles depois de 48 horas.

No caso do congressista de esquerda, policias legislativos agrediram e retiraram Glauber à força. Neste momento, os jornalistas foram retirados do plenário e a transmissão da TV Câmara foi suspensa enquanto a sessão estava em andamento, algo inédito na história do Congresso. 

O deputado foi arrastado até a porta do plenário que dá saída para o salão verde, espaço de circulação de jornalistas, funcionários e deputados. No local, vários repórteres e cinegrafistas acompanhavam a retirada do deputado. A Polícia Legislativa ordenou que os jornalistas saíssem. Os profissionais continuaram no local para registrar a saída de Glauber até que policiais começaram a arrastar os deputados no meio dos jornalistas. Neste momento, vários trabalhadores foram empurrados e chutados pelos policiais. 

O Brasil de Fato conversou com profissionais da segurança e da comunicação da Casa. Os dois lados disseram que a determinação da atuação tanto da polícia, quanto da TV Câmara foi ordenada pela Mesa Diretora da Câmara, chefiada por Hugo Motta. 

Os jornalistas cobram a publicação de esclarecimentos formais pela Câmara sobre os acontecimentos: agressões físicas da Polícia Legislativa contra jornalistas, expulsão de jornalistas do plenário durante ocorrência de fatos de interesse público e suspensão do sinal da TV Câmara durante a sessão.

Além disso, o Comitê de Imprensa também pede a instauração de um procedimento de apuração formal sobre os fatos e a criação de um espaço de diálogo entre jornalistas agredidos e o presidente da Câmara para falar sobre o cerceamento da atividade jornalística. 

A assessoria de Motta disse durante o encontro com os profissionais que há uma determinação de “sindicância” para as apurações. Nesta quinta-feira, em nota, a equipe de Motta disse que havia interrompido a sessão depois que o deputado ocupou a mesa diretora, algo que está previsto na Ordem de Serviço número 5 de 2022. Por isso, a TV Câmara passou a transmitir a reunião da Comissão de Saúde.

Ainda de acordo com o texto, a Polícia Legislativa solicitou a retirada de assessores, servidores e profissionais de imprensa do plenário para “garantir a segurança dos presentes”, seguindo o Ato da Mesa 145 de 2020 e que a retirada de Glauber foi feita para “reestabelecimento da ordem”.

Já sobre a agressão aos jornalistas, Motta afirmou que não teve “intenção de limitar o exercício da atividade jornalística”.

“O presidente da Câmara, Hugo Motta, lamenta os transtornos causados aos profissionais de comunicação e reafirma que não houve intenção de limitar o exercício da atividade jornalística. As informações apresentadas pelos jornalistas serão incorporadas à apuração em andamento a fim de identificar eventuais excessos nas providências adotadas ao longo do processo de retomada dos trabalhos”, afirma o texto.

O texto termina afirmando considerar “inadequada” a ação de Glauber Braga.

A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) anunciou nesta quarta ter entrado com uma representação na Procuradoria Geral da República (PGR) contra Hugo Motta por crime de responsabilidade e uma outra representação na Comissão de Ética contra ele por quebra de decoro parlamentar e infração disciplinar.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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