Plano de educação

Novo PNE tem avanços tímidos e retrocessos inaceitáveis após ceder a pressões da extrema direita, avalia professor da USP

Daniel Cara também teme que continue faltando financiamento para colocar em prática Plano Nacional de Educação

No audio source provided.
Plano Nacional de Educação (PNE) define diretrizes, metas e estratégias para a política educacional brasileira no próximo decênio
Plano Nacional de Educação (PNE) define diretrizes, metas e estratégias para a política educacional brasileira no próximo decênio | Crédito: Mariana Leal/MEC

O texto do novo Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado na Câmara nesta quarta-feira (10) e agora em análise no Senado, representa um conjunto de retrocessos e abre brechas para aprofundar desigualdades, analisou o professor Daniel Cara, da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele afirmou que o documento “não traz grandes novidades em relação ao plano anterior, que não foi cumprido” e que, além de tímido, cedeu a “pressões de setores ultrarreacionários e ultraliberais”.

Segundo Cara, o único avanço real é a criação de um fundo de infraestrutura escolar baseado no custo aluno-qualidade (CAQ). Fora isso, ele avaliou que o PNE não estrutura de forma consistente o financiamento da educação superior, aprofunda a privatização da educação profissional e mantém metas frágeis. Ele também criticou a decisão de orientar toda a educação básica a avaliações externas internacionais. “Esse é um erro porque fere a soberania brasileira”, disse. Para o especialista, tais métricas “são descontextualizadas” e incapazes de explicar a realidade de cada escola.

O professor considera especialmente grave a retirada explícita dos termos “identidade de gênero” e “orientação sexual” do plano, substituídos por referências genéricas a direitos humanos. “É um recado de não reconhecimento de parte da população brasileira, e eu considero isso completamente inaceitável”, apontou.

Cara lembrou que estudantes trans são expulsos da escola ainda na infância e adolescência e retornam somente na vida adulta, muitas vezes pela Educação de Jovens e Adultos (EJA). Para ele, invisibilizar essa população seria reforçar desigualdades já consolidadas.

Para além do conteúdo, o pesquisador teme que o essencial continue faltando: financiamento. “A minha impressão é que a questão fundamental não vai ser realizada, que é o investimento público na educação pública, que deveria ser na ordem de 10% do PIB [Produto Interno Bruto]”, indicou. Ele acredita que o novo PNE corre o risco de repetir o destino do anterior: boas diretrizes formais, sem viabilidade material. “É importante ter um plano. Mas, sem recursos, ele não vai se cumprir”, pontuou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Maria Teresa Cruz

|

Newsletter