Entre os dias nove e 12 de dezembro, a sede da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Recife, sediou um encontro que reuniu representantes de 138 cozinhas solidárias de todo o Brasil. Os equipamentos, que nascem a partir da solidariedade comunitária, se tornaram ferramentas importantes na contenção do avanço da fome durante a pandemia de Covid-19 e, desde 2023, foram incorporadas pelo Governo Federal às políticas públicas de combate à fome no Brasil. Os equipamentos populares firmaram uma rede e apresentaram suas demandas para o fortalecimento das iniciativas.
Ao longo dos quatro dias, as cerca de 350 pessoas vinculadas às cozinhas trocaram experiências e saberes. O encontro também serviu para aproximar os voluntários das cozinhas e políticas públicas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Cozinha Solidária, ambos do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). Participaram do evento a secretária Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Lílian Rahal, e a coordenadora do Programa Cozinha Solidária, Ana Carolina Souza.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao MDS, prevê para 2026 a distribuição de mais de 130 toneladas de proteínas para as cozinhas populares vinculadas ao programa federal. “O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU, mas a fome não saiu do Brasil. Ainda tem muita gente precisando de um prato de comida, desse apoio que as cozinhas garantem nos territórios”, afirma Paulo Mansan, em entrevista ao Brasil de Fato. Mansan é coordenador nacional do Mãos Solidárias, movimento que organiza mais de 300 cozinhas em todo o Brasil, sendo 42 em Pernambuco.
Mansan celebra a formação da rede. “É informal, mas é fundamental para articular essas pessoas e essas cozinhas, com uma grande representatividade que vai do Norte ao Sul do Brasil”, diz Mansan. Participaram do encontro cozinhas de 13 estados brasileiros: Pará, Maranhão, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. “Ficou registrado que as cozinhas têm papel fundamental na discussão política, na organização popular e na luta por direitos”, completa Paulette Cavalcanti, pesquisadora do Departamento de Saúde Coletiva da Fiocruz Pernambuco.
No mês de julho de 2025, o braço da ONU para alimentação e agricultura, a FAO, retirou o Brasil do Mapa da Fome, já que menos de 2,5% da população está em situação de insegurança alimentar grave, quando falta comida no dia a dia. Pelos cálculos do MDS, cerca de 3,6 milhões de brasileiros (1,7% da população) vivem nesta situação. O relatório Estado de Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo (Sofi 2025), da FAO, afirma que o custo de uma dieta saudável no Brasil é considerado alto, custando cerca de US$ 4,69 (dólares) por dia, superando os R$ 25 (reais) diários, patamar avaliado como elevado.
Paulo Mansan considera que o ainda novo programa federal Cozinha Solidária precisa ser consolidado enquanto política pública. “Tem que garantir orçamento. Este ano de 2025 foram R$ 40 milhões, mas para 2026 estão previstos R$ 30 milhões. E as cozinhas ainda precisam ser profissionalizadas e estruturadas. Queremos estruturar e ampliar essa rede”, afirma o coordenador do Mãos Solidárias, que deseja ver 5 mil equipamentos solidários do tipo em todo o Brasil. O MDS calcula que existam, hoje, 2,6 mil cozinhas.
Déborah Fonseca, da coordenação de ambiente, atenção e promoção da saúde da Fiocruz Pernambuco, avalia que “a parceria entre Fiocruz e comunidades representa um ganho estratégico para o futuro. A população é parte central no aperfeiçoamento dessa política”. O Encontro Nacional da Rede de Cozinhas Populares Solidárias foi realizado pela Fiocruz, pela Associação da Juventude Camponesa Nordestina Mãe Terra e pelo Mãos Solidárias, com patrocínio da Fundação Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Conab e Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
