Economia

‘Estamos reféns de uma meta de inflação’, diz economista sobre entrave ao crescimento com justiça social

Para Camila de Caso, política monetária restritiva herdada de governos passados perpetua a desigualdade

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Fachada do Ministério da Economia, Esplanda dos Ministérios, Brasília
Fachada do Ministério da Economia, Esplanda dos Ministérios, Brasília | Crédito: Leonardo Sá/Agência Senado

O ano de 2025 começou com a inflação dos alimentos acima da média, e a sensação de um custo de vida elevado dominava o cotidiano da população. No entanto, o governo teve algumas vitórias importantes ao longo do ano, como a isenção do IR para quem ganha até R$ 5 mil mensais e o menor nível de desemprego da série histórica, além de conseguir reverter parcialmente a escalada tarifária imposta por Donald Trump. A economista Camila de Caso fez uma avaliação ao BdF Entrevista, da Rádio Brasil de Fato, os principais desafios e conquistas do ano e os caminhos para 2026.

A economista destaca que a alta dos preços dos alimentos impactou a população de forma desigual, corroendo o poder de compra principalmente das famílias mais pobres. Ela explica que a resposta tradicional a esse cenário – o aumento dos juros – também se tornou um mecanismo de concentração de renda.

A taxa de juros Selic é, queiramos ou não, uma poderosa transferência de renda. Ela beneficia um grupo muito pequeno, que detém títulos da dívida pública, enquanto a maioria sente o peso do custo do crédito e da inflação. Esse movimento acaba por ampliar a desigualdade que já existia”, destaca.

Mesmo com a melhora dos indicadores no segundo semestre, Camila aponta um dilema central: a meta de inflação vigente – herdada de governos anteriores – exige uma política monetária estruturalmente restritiva. Para ela, essa é uma barreira ao crescimento com distribuição de renda.

“Estamos reféns de uma meta de inflação que foi sendo reduzida ao longo dos anos. Enquanto não mudarmos essa régua, ficaremos eternamente condenados a uma taxa de juros punitiva, que trava o investimento e o consumo da maioria dos brasileiros. É uma escolha de projeto de país”, explica.

Sobre os embates políticos, ela avalia que a derrubada do aumento do IOF simboliza a resistência de um Congresso que, historicamente, boicota medidas progressistas de arrecadação e prioriza a agenda de cortes de direitos.

O impacto da isenção do IR e o caminho para 2026

Para Caso, a aprovação da isenção do Imposto de Renda para ganhos de até R$ 5 mil é mais do que um alívio imediato; é uma política estruturante que estimula a economia a partir da base.

“Essa isenção não é apenas um dinheiro que fica no bolso. É a renda disponível que se transforma em consumo no comércio local, que gera caixa para pequenos negócios e que pode se traduzir em mais contratações. É um efeito virtuoso que começa nas famílias mais vulneráveis e se espalha pela economia real”, pontua.

Ao olhar para 2026, a economista enxerga um cenário de possibilidades abertas, mas condicionado à pressão social e ao jogo político. A expectativa de queda dos juros globais pode criar um vento favorável, mas o Congresso será o tabuleiro decisivo.

2026 é um ano eleitoral, e isso pode ser um paradoxo. Por um lado, o Congresso precisa se reeleger e pode tentar frear o caos. Por outro, a pressão por um projeto que priorize direitos sociais, e não apenas o ajuste fiscal, precisa vir das ruas. A economia já mostra que pode andar; falta a vontade política de levá-la para o caminho da justiça social”, avalia.

Dessa forma, 2025 termina com um mercado de trabalho aquecido e a inflação em trajetória de desaceleração, mas deixa claro que a batalha decisiva – entre um ajuste fiscal regressivo e um projeto de desenvolvimento com distribuição de renda – será travada no ano que vem, tanto no parlamento quanto nas ruas.

Para ouvir e assistir

O BdF Entrevista vai ao ar de segunda a sexta-feira, sempre às 21h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo. No YouTube do Brasil de Fato, o programa é veiculado às 19h.

Editado por: Luís Indriunas

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