Com a chegada do período de férias, uma opção boa, barata e acessível para aproveitar o tempo com qualidade é a leitura. Há quem goste mais de romance, poesia e crônica, mas também existem os que preferem biografias, livros científicos ou ensaios. Fantasias, suspenses e ficções também são possibilidades. Com opções para todos os gostos, professores de Minas Gerais acreditam que o importante mesmo é o mundo de possibilidades que a leitura proporciona.
Utopia autoritária
Lorn dos Anjos Rodrigues, educadora da Escola Estadual João dos Santos, em São João Del Rei (MG), indica uma obra que tem tudo a ver com o atual cenário político brasileiro, o livro Utopia autoritária brasileira: Como os militares ameaçam a democracia brasileira, do historiador Carlos Fico.
Neste ano, pela primeira vez, mesmo tendo um longo histórico de atentados à democracia, o Brasil condenou e prendeu um ex-presidente e militares de alta patente por tentativa de golpe. “O livro retrata como a história do Brasil foi marcada por golpes e tentativas de golpes, desde o nascimento da nossa República até os dias atuais”, explica Rodrigues.
Relações de raça e gênero
O professor de geografia Luan Ariel Sigaud, da Escola Estadual Gabriela Ribeiro Andrada, que fica em Barbacena (MG), aposta em uma indicação que trata sobre as relações raciais e de gênero, outro tema fundamental para compreender o Brasil.
A indicação dele é o livro recente e já um clássico da literatura Canção para ninar menino grande, de Conceição Evaristo, escritora belo-horizontina reconhecida em todo o mundo.
“A obra aborda um tema importante, tem uma prosa fácil e é de uma autora clássica. É simplesmente imperdível”, defende.
Sexualidade e identidade
Também explorando o tema da identidade, O Parque das Irmãs Magníficas, de Camila Sosa Villada, é a indicação da professora Aline Maia, atualmente licenciada para atividades sindicais, da Escola Municipal Coronel Camilo Gomes de Araújo, em Barbacena (MG). O livro retrata o cotidiano de travestis marginalizadas, em Córdoba, na Argentina, mostrando os desafios enfrentados, mas também a jornada em busca pelo pertencimento.
“É um livro, ao mesmo tempo, leve e intenso, que humaniza e nos sensibiliza para a realidade das pessoas travestis, além de ter um texto muito fluido e envolvente”, descreve Maia.
Poesias de Safo
A obra de Villada também foi indicada pelo professor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) Leonardo Nogueira. O docente do curso de Serviço Social sugere ainda a leitura do livro De uma a outra ilha, de Ana Martins Marques, renomada escritora belo-horizontina.
“É um longo poema sobre a Ilha de Lesbos, onde a autora coloca em diálogo cenas do presente marcado pela migração e fragmentos da poesia de Safo”, explica.
Literatura africana
Para quem quer conhecer a literatura produzida em nosso continente irmão, a África, a professora aposentada de Belo Horizonte Maria da Consolação indica quatro obras da escritora nigeriana Buchi Emecheta. Os livros No fundo do poço; Preço de noiva; Cidadã de segunda classe; e As alegrias da maternidade tratam sobre a realidade feminina nas sociedades africanas.
“São livros ótimos para conhecer uma autora africana maravilhosa e entender melhor a situação das mulheres. É uma coletânea linda de livros muito bons, que você lê em uma sentada”, propagandeia.
Internet e ansiedade
Mudando um pouco o tema e entrando em um assunto também muito presente na atualidade, outra sugestão de Consolação é o livro A geração ansiosa, de Jonathan Haidt, que analisa os impactos da introdução de smartphones e outros aparelhos eletrônicos entre crianças e jovens.
“Também é um livro muito bom. É uma reflexão sobre a alteração social que aconteceu entre a ‘infância do brincar’ e a ‘infância do celular’. Tem a ver com o nosso tempo presente e com as repercussões nas famílias, nas escolas e na sociedade como um todo”, explica a professora aposentada.
Gaza no Coração
Outro tema atual, mas que possui raízes profundas, é a situação do povo palestino, que ganhou destaque no último ano, após a intensificação do genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza.
Para conhecer melhor a história do território e as lutas da população palestina, a professora das escolas Municipal Wladimir de Paula Gomes e Estadual Cecília Meireles, em Belo Horizonte, Flávia Silvestre, indica o livro Gaza no Coração: História, resistência e solidariedade na Palestina, organizado por Rafael Domingos Oliveira.
“A história do povo palestino ainda não é de conhecimento de todos. Muito pelo contrário. Então, para que as pessoas conheçam a verdadeira história da Palestina e do seu povo, e não aquela inventada pelos sionistas, indico dedicar um tempo das férias a isso. O livro é uma coletânea de artigos, abrange diferentes temáticas sobre os palestinos, sua história, sua cultura e o terror imposto pelos sionistas”, explica.
Ficção e biografia
E para quem se interessa pelo gênero de memória e biografia, uma boa indicação, na avaliação de Maria Emília Caixeta de Castro Lima, professora aposentada da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é o livro A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero.
A obra aborda temas como perda e luto, a partir de um enredo que trata sobre a vida amorosa e o trabalho intelectual de Marie Curie, cientista pioneira nos estudos sobre radioatividade.
“É um livro primoroso na escrita. Entre a ficção e a literatura biográfica e autobiográfica, a autora transita com muita propriedade entre a vida amorosa e o trabalho de Marie Curie e a ideia pessoal de nunca mais poder ver o próprio companheiro. O título junto com o excerto da contracapa já me seduziram para a leitura. A falta do outro, sujeito dos nossos afetos e das miudezas e intimidades de nossa vida cotidiana, só poderia mesmo ser adjetivada de ridícula”, explica.
“É um texto que expressa delicadeza, amorosidade e estreito compromisso com os registros autobiográficos de madame Curie, mantendo a marca de texto literário ficcional. O leitor não precisa saber ciências, nem que o casal Marie e Pierre foram ganhadores do Prêmio Nobel de Física em 1903. Ao contrário do que muitos poderiam pensar, não se trata de um livro pesado e sofrido que narra perdas e lutos, mas da vida em si, com toda intensidade e a necessidade que temos de dar sentido àquilo que acontece com os outros e que também nos acontece”, finaliza a professora aposentada da UFMG.
