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Lula pressiona acordo entre União Europeia e Mercosul: ‘Se disserem não, seremos duros com eles’

Presidente afirmou que, caso acordo não ocorra agora, não acontecerá mais no seu mandato

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Presidente Lula, durante reunião ministerial
Governo brasileiro confirmou o recebimento do convite, presidente Lula ainda não respondeu | Crédito: Ricardo Stuckert/PR

Durante reunião ministerial na Granja do Torto, nesta quarta-feira (17), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), comentou a possibilidade de a União Europeia retroceder na assinatura do acordo comercial com o Mercosul, prevista para o próximo sábado (20), na Cúpula de Líderes do bloco sul-americano em Foz do Iguaçu (PR). 

“Essa reunião do Mercosul era para ser no dia dois de dezembro. Eu mudei para o dia 20 porque a União Europeia pediu, [e disse] que ela só conseguiria aprovar o acordo com o Mercosul no dia 19. E eu agora estou sabendo que eles não vão conseguir aprovar. Está difícil porque a Itália e a França não querem fazer por problemas políticos internos”, explicou o presidente.

Lula disse ter sido firma na resposta à União Europeia: “se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”, disse. “Faz 26 anos que a gente espera esse acordo. O acordo é mais favorável para eles do que para nós. O [Emmanuel] Macron não quer fazer por causa dos agricultores deles. A Itália não quer fazer, não sei por qual motivo”.

O acordo, negociado por mais de duas décadas, impulsionaria vendas sul-americanas de commodities como açúcar, carne boina e aves à UE, que por sua vez teria facilitadas as exportações de produtos industrializados como máquinas, vinhos e automóveis. A votação decisiva na União Europeia deve ocorrer entre 16 e 19 de dezembro.

“O dado concreto é que nós do Brasil e nós do Mercosul trabalhamos muito para aceitar esse acordo e passar uma ideia neste momento. Há um presidente dos Estados Unidos querendo fragilizar o multilateralismo e fortalecer o unilateralismo. Nós queríamos fazer o acordo para mostrar ao mundo que uma população de 722 milhões de habitantes e um PIB de R$ 22 trilhões estavam fazendo um acordo para defender o multilateralismo”, declarou o presidente.

Lula acrescentou que, dessa forma, vai “para Foz do Iguaçu na expectativa de que eles digam sim e não digam não”, mas reforça que pretende ser duro caso a resposta seja negativa. “Porque nós cedemos a tudo que era possível a diplomacia ceder”, afirmou.

O acordo não é bem aceito pelos movimentos populares no Brasil. Em 2024, movimentos de luta no campo, articulados na Via Campesina, repudiaram o plano em um comunicado em que pediam a Lula que “escute o clamor dos povos do campo, águas e florestas e coloque fim às negociações em curso e dê espaço a construção de um projeto popular de desenvolvimento nacional para o Brasil”.

No manifesto, os movimentos destacam que o acordo “foi rechaçado há mais de 20 anos” e o texto atual, retomado em 2019, representa “o DNA bolsonarista na sua essência sem nenhum compromisso com o desenvolvimento do nosso país”.

Viagens internacionais em 2026

Na reunião ministerial, Lula também afirmou que em 2026 pretende fazer apenas uma viagem internacional, apontada pelo presidente como “estratégica” para o Brasil. 

“Eu quero fazer uma mega viagem à Índia com muitos empresários para discutir a questão da Saúde, para discutir a questão dos remédios, para discutir a questão da indústria da defesa, a questão espacial e para discutir outras coisas. Porque não tem sentido Brasil e Índia, 200 bilhões e 600 milhões de habitantes na soma dos dois, e a gente só ter R$ 12 bilhões de comércio exterior. Não é nada”, informou o presidente.

“Da Índia, vou para a Coreia do Sul fazer talvez a última viagem internacional. Porque eu não estou querendo ir nem ao G7, em junho, porque já estamos em franca campanha aqui no Brasil”, disse Lula, se referindo às eleições presidenciais do próximo ano.

Comunicação efetiva

O presidente cobrou dos ministros que elaborem processos de comunicação efetiva, que permita ao povo apreender as informações sobre os feitos deste governo. 

“A comunicação tem a responsabilidade de cada companheiro. Eu não quero neste final de ano ser grosseiro com ninguém, mas é preciso que a gente não confunda poluição visual com comunicação. Não adianta a gente querer colocar 80 coisas num único pedaço de papel que olham e não entendem. É preciso não ficar embaralhando 800 coisas numa página só, imaginando que as pessoas vão entender alguma coisa. As pessoas terminam não entendendo nada. Então, como também é uma coisa profissional. Eu queria pedir para os ministros, quando tiver que fazer alguma coisa, converse com quem conhece para não querer colocar o mandato inteiro numa única folha de papel que as pessoas terminam não compreendendo”, ressaltou o presidente.

“Outros que são ministérios mais sofisticados, ministérios mais de conhecimento jurídico, às vezes fazem um documento que ninguém vai conseguir ler”, criticou.

Relação com o Congresso 

Na fala de encerramento da reunião ministerial, Lula disse ser amigo dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). No entanto, afirmou que é preciso “limpar as arestas”.

“Na hora que surge uma divergência, é importante a gente lembrar que a gente precisa conversar mais, precisamos aparar as arestas. E eu estou disposto a fazer isso porque nós somos gratos por tudo que foi aprovado até agora”, disse o presidente.

“Eu não conheço na história um governo que conseguiu num congresso adverso, como nós pegamos desse congresso, aprovar metade do que nós aprovamos. Portanto, é a vitória do multilateralismo, é a vitória da negociação, é a vitória da paciência, é a vitória da conversa”, completou, agregando que o governo vai se empenhar para a aprovação do fim da escala de trabalho 6 por 1. 

Venezuela 

Em sua alocução, o presidente Lula se referiu às agressões e ameaças militares dos Estados Unidos contra a Venezuela, e reafirmou que seu governo está à disposição para mediar as negociações entre os dois países. 

“Eu estou preocupado com a América Latina. Estou preocupado com as atitudes do presidente com relação à América Latina, com as ameaças. Estou preocupado. Nós vamos ter que ficar muito atentos”, declarou Lula.

“Eu valorizo muito a democracia e é por isso que eu disse ao Trump: ‘Se você tiver interesse de conversar com a Venezuela corretamente, nós temos como contribuir’. Agora é fácil ter vontade de conversar, é fácil ter paciência. E é assim que o Brasil tem se posicionado em todos esses atritos que têm acontecido no mundo e por isso nós ganhamos respeitabilidade”, disse o presidente.

Combate ao feminicídio

Nas últimas falas públicas, Lula tem insistido em fortalecer, no âmbito do governo, o combate ao feminicídio. 

“Eu quero nessa reunião ministerial dizer para vocês que a gente sempre achou que a luta contra a violência contra a mulher era da mulher. E eu me convenci pela brutalidade da violência que eu vi esses dias, pela conversa com a minha mulher, que essa luta é para nós homens. Porque não é a mulher que é agressora, ela é vítima da agressão”, disse o presidente, chamando todos os ministros à responsabilidade. 

“A política da mulher não é o Ministério da Mulher. A política da mulher é do nosso governo, de todo o governo”, seguiu o presidente. “Nós temos que falar porque nós precisamos transformar esse assunto no assunto da sociedade brasileira e não no assunto das mulheres que são vítimas. (…) Para que a gente transforme isso numa causa nacional. Eu acho que se a gente criar uma indignação, nós que somos homens, que não batemos nas nossas mulheres, que não violentamos ninguém, nós temos que ter a responsabilidade de educar aqueles que não são como nós”, afirmou.

Editado por: Nathallia Fonseca

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