Doutrina Monroe

Acordo militar aprofunda dependência do Paraguai em relação aos EUA, diz analista

Países assinaram na segunda (15) acordo que autoriza envio de tropas estadunidenses ao território latino

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O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (R), e o chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, trocam documentos no Departamento de Estado em Washington, DC, em 15 de dezembro de 2025.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (R), e o chanceler do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, trocam documentos no Departamento de Estado em Washington, DC, em 15 de dezembro de 2025. | Crédito: JIM WATSON / AFP

Durante o último ano, os Estados Unidos aumentaram significativamente — por diferentes vias — sua presença militar na América Latina e no Caribe. Definida como o “corolário Trump à doutrina Monroe”, a remilitarização continental promovida por Washington ficou explícita em sua nova Estratégia de Segurança Nacional.

“Após anos de abandono, os Estados Unidos reafirmarão e aplicarão a doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no hemisfério ocidental”, afirma o documento, sem recorrer a eufemismos diplomáticos.

Nesse contexto, um dos avanços mais recentes ocorreu com o Paraguai, país com o qual Washington acaba de assinar um acordo de cooperação militar. Conhecido como Acordo sobre o Status das Forças (SOFA, na sigla em inglês), o convênio foi assinado na segunda-feira (15) pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, e pelo chanceler paraguaio, Rubén Lezcano.

Assinado sem passar pelo Congresso paraguaio, o acordo permite — sob a suposta intenção de combater o “terrorismo transnacional e o narcotráfico” — o envio de tropas do Pentágono ao país e estabelece um marco legal para suas operações. Ao mesmo tempo, institui um regime de imunidade para o pessoal militar estadunidense, similar ao aplicado a funcionários diplomáticos.

Além disso, segundo informou o Departamento de Estado, o convênio prevê o treinamento das forças de segurança paraguaias por Washington, a incorporação de pessoal do Departamento de Segurança Nacional à embaixada americana em Assunção e um amplo intercâmbio de informações entre os dois países. Dessa forma, o Paraguai compromete-se a fornecer informações estratégicas aos Estados Unidos e a liderar operações contra organizações consideradas terroristas e cartéis de narcotráfico.

Dependência e segurança

A assinatura do acordo representa uma intensificação da relação de dependência do Paraguai em relação aos Estados Unidos, consolidada nos últimos anos tanto na cooperação militar quanto na econômica. É o que afirma o advogado e analista político paraguaio Leonardo Gómez, em entrevista ao Brasil de Fato, destacando que o “alinhamento do Paraguai com Washington tem vários componentes econômicos, militares e políticos”.

“O Paraguai é considerado um aliado estratégico dos Estados Unidos. Um aliado 100%”, chegou a dizer Donald Trump em uma carta enviada ao presidente Santiago Peña, enfatiza Gómez, ressaltando que, com este acordo, o Paraguai se torna um ator funcional dentro da nova estratégia de segurança americana.

Embora os interesses dos Estados Unidos no Paraguai sejam múltiplos, dois merecem atenção especial: o controle da hidrovia e da tríplice fronteira. “Os Estados Unidos falam em proteger contratantes do Estado, mas estamos falando de que o Paraguai possui um excedente de commodities energéticas, de energia limpa e renovável em grandes volumes devido ao excedente de Itaipu. Esses excedentes provavelmente existirão pelos próximos 10 anos”, explica.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que a cadeia de suprimentos na hidrovia pode afetar empresas de outras bandeiras, sob o olhar dos interesses americanos. “Grandes volumes de soja e outras commodities que seguem para a Ásia passam pela hidrovia e podem ser alvo de pressões por parte de forças que atuam na região ou no Paraguai. Além disso, estamos falando de empresas que transportam produtos do Mato Grosso e que posteriormente saem pelo rio Uruguai.”

Bases militares na tríplice fronteira

O analista explica que, embora a troca militar entre os dois países não seja novidade, o que muda com este tratado é a “discricionariedade” com que Washington pode atuar no Paraguai. A assinatura do acordo permite que “literalmente a institucionalidade paraguaia não possa intervir em operações provenientes dos Estados Unidos nem de seus contratantes em questões de segurança”, o que significa que a concepção de segurança americana se estende de forma discricionária, sem reconhecer a jurisdição paraguaia.

“Os Estados Unidos historicamente falaram em instalar uma base militar na tríplice fronteira, e isso gera alta sensibilidade e tensão com os países vizinhos”, aponta Gómez, acrescentando que o contexto parece propício para avançar nessa agenda. Com o governo de Javier Milei na Argentina, totalmente subordinado a Washington, a possibilidade de instalar uma base militar contaria apenas com a resistência do Itamaraty.

A Tríplice Fronteira — entre Paraguai, Brasil e Argentina, em Ciudad del Este, Foz do Iguaçu e Puerto Iguazú — é uma zona estratégica e de alta complexidade geopolítica. Trata-se de um polo logístico-chave na América do Sul, com pontes e rios (Paraná e Iguaçu) essenciais para o comércio em larga escala, o fluxo de pessoas e a produção de energia. Mas também, por suas “fronteiras difusas”, constitui um importante espaço de atuação para o crime organizado.

Nos últimos anos, a estratégia americana avançou por meio de acordos bilaterais que permitem a instalação de escritórios de agências como o FBI e a DEA “sem necessidade de um assento formal”, mas com liberdade para operar plenamente dentro do território paraguaio. Gómez explica que a tendência à “securitização das narrativas civis” é possível devido ao amplo desconhecimento sobre os marcos do direito internacional humanitário.

Ele destaca que, ao promover esse tipo de acordo que aprofunda as lógicas de dependência, os Estados Unidos buscam acelerar uma ruptura da ordem internacional. “Enquadradas na chamada Doutrina Monroe 2.0, reduz-se a capacidade e autonomia dos países da região de gerir recursos e propostas que possam desafiar a agenda americana ao mesmo tempo em que se complica a possibilidade de consolidar economias mais regionais na América Latina.”

Editado por: Nathallia Fonseca

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