tirando corpo fora

Líder do PL diz que dinheiro encontrado em sua casa era de venda de imóvel e fala em ‘perseguição’ contra Bolsonaro

Sóstenes confirmou que paga valor abaixo do mercado para aluguel de carros e disse não lembrar a data da venda do imóvel

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Sóstenes Cavalcante disse que operação foi realizada como "cortina de fumaça | Crédito: PL no Congresso
Sóstenes Cavalcante disse que operação foi realizada como “cortina de fumaça | Crédito: PL no Congresso

O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), disse nesta sexta-feira (19) que os R$ 430 mil em espécie encontrados em sua casa eram relativos à venda de um imóvel. Ele é alvo de uma investigação da Polícia Federal por desviar recursos de cotas parlamentares no aluguel de carros em Brasília. De acordo com o deputado, essas operações têm como alvo a direita brasileira e, especificamente, o grupo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

A declaração foi feita em uma coletiva de imprensa convocada pelo próprio congressista. Ele usou o jargão “não devo e não temo” para justificar a conversa com os jornalistas. Sóstenes confirmou que paga um valor abaixo do mercado para o aluguel de um Corolla e negou que use esse recurso para lavar dinheiro

Um dos objetivos da fala do deputado foi desviar a atenção das investigações. A todo momento Sóstenes citou a atuação de congressistas da esquerda e chegou a afirmar que era “curioso” que uma operação como essa acontecesse depois de denúncias contra o filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de pesquisas indicarem um “bom resultado” do senador Flávio Bolsonaro (PL) para a disputa presidencial.  

“Deputados da esquerda alugam carros por R$ 8 mil reais e eu não digo que é ilícito. Como eu gosto de gastar menos com aluguel de carro, eu faço contrato com essa empresa. Não tem nada de contrato ilícito e lavagem de dinheiro. Essa é mais uma investigação para constranger quem é de direita. Desafio o Lula a trazer o Lulinha e explicar como eu estou fazendo. Quem não deve não teme.

O deputado faz menção ao esquema de corrupção do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) que envolveria o filho de Lula.

Durante seu pronunciamento, Sóstenes também mostrou saber como funcionam os esquemas de corrupção. De acordo com ele, quem quer lavar dinheiro coloca “em outro lugar”.

“Dinheiro de corrupção não aparece lacrado, identificado e recolhido na sua residência. Quem quer viver de corrupção coloca em outro lugar”, disse.

O deputado não quis dizer para quem foi feita a venda desse imóvel e afirmou que o valor encontrado em sua casa era da venda total. Ele ainda disse que não lembra da data da compra e da venda e que seus advogados esclareceram tudo nos autos do processo. Sóstenes também afirmou que faria o depósito desse dinheiro, mas que estava na “correria de final de ano” e ainda não teve tempo. 

“O valor da minha residência é um recurso lícito da venda de um imóvel de minha propriedade. Este é mais um capítulo de perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Eu não devo, não temo e vou continuar com minha cabeça erguida. Se achavam que eu ia retroceder, bateram na porta errada. Vamos continuar nossa luta enfrentando a esquerda”, concluiu.

Na entrevista, o deputado disse também que imaginava estar hoje com o carro de outra locadora e tirou a responsabilidade de si sobre o aluguel dos veículos. “Não sou eu quem contrato os carros. A única recomendação era contratar barato. Eu desafio achar um Corolla para alugar no valor igual ao meu em Brasília.”.

A entrevista foi dada ao lado de uma das deputadas que cumpre a função de para-choque na extrema-direita brasileira: Bia Kicis (PL-DF). Vice-líder do PL na Câmara, a congressista também fez questão de pegar o microfone e dizer que essa era uma “cortina de fumaça” para esconder os casos de corrupção da esquerda. 

A investigação

Os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Carlos Jordy (PL-RJ) e outras 5 pessoas são alvo da operação Galho Fraco, que investiga um esquema de desvio de cota parlamentar, que são recursos usados para despesas correntes dos parlamentares, como aluguel de carro e alimentação.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou a quebra do sigilo bancário dos dois depois de a Polícia Federal identificar uma movimentação de R$ 11,5 milhões em créditos e R$ 11,5 milhões em débitos, especialmente nos anos de 2023 e 2024. Uma parte expressiva dessas transações não tem identificação de origem ou destino do dinheiro. Outros R$ 2,8 milhões foram enviados a pessoas “não identificadas”. 

Foram localizadas transações de R$ 214 mil pagos pelo deputado Carlos Jordy e R$ 192 mil pagos por Sóstenes.

A decisão de Dino usou a interceptação de mensagens enviadas por assessores para tratar do aluguel de carros em Brasília. De acordo com as investigações da PF, em janeiro de 2024, Itamar de Souza Santana, secretário do gabinete de Carlos Jordy, escreveu para a Harue Locação de Veículos falando em um pagamento “por fora”. A PF indica que a companhia emitia uma nota fiscal, recebia a transferência bancária e devolvia em espécie para Itamar.

Outro envolvido na fraude é Adailton Oliveira dos Santos, ex-assessor especial da liderança do PL. Em uma troca de mensagens, ele deixa clara a participação de Sóstenes Cavalcante no desvio. Entre 27 de fevereiro e 13 de março de 2024, Adailton sugere o valor de R$ 2.200 para os aluguéis e afirma que o líder do PL continuaria pagando “por fora”. O ex-assessor ainda deixa claro que falta receber uma “diferença” acordada entre a empresa e a equipe do parlamentar.

A suspeita da PF se dá não só pelos valores, mas pela frota de veículos usada pela Harue. A empresa tem apenas cinco carros registrados, o que não alcançaria o valor movimentado pelos deputados. A corporação afirma que há uma grande diferença entre o número de carros da Harue e das empresas usadas pelos deputados para se deslocar no Rio de Janeiro, que têm, ao menos, 20 carros.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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