JEQUITINHONHA

MPMG cobra R$ 50 milhões da mineradora Sigma por danos socioambientais 

População de Araçuaí vai às ruas após declarações da CEO da empresa

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O protesto popular é uma resposta contundente às declarações da executiva Ana Cabral que classificou a população local como "geração perdida" e utilizou a expressão "mulas de água" para se referir às crianças do Vale do Jequitinhonha
O protesto popular é uma resposta contundente às declarações da executiva Ana Cabral que classificou a população local como “geração perdida” e utilizou a expressão “mulas de água” para se referir às crianças do Vale do Jequitinhonha | Crédito: Katia Torres

Em Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha, o discurso de sustentabilidade da Sigma Lithium enfrenta contestação jurídica e social. Um dia após o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) ingressar com Ação Civil Pública (ACP) contra a mineradora, cobrando R$ 50 milhões por danos às comunidades, a população se mobiliza para uma marcha nesta sexta-feira (19).

O protesto popular é uma resposta contundente às declarações da executiva Ana Cabral que classificou a população local como “geração perdida” e utilizou a expressão “mulas de água” para se referir às crianças do Vale do Jequitinhonha. Tais falas, consideradas desumanizadoras e preconceituosas, geraram indignação e notas de repúdio de diversas lideranças e da comunidade em geral. 

A manifestação também exige retratação pública, compromisso de não repetição e respeito às comunidades.

Mito do “lítio verde”

A ação do MPMG, divulgada na quinta-feira (18), expõe uma realidade distinta daquela apresentada em conferências internacionais pela empresa. O inquérito civil apontou que as operações da Sigma Mineração na mina Grota do Cirilo causaram severos impactos na qualidade do ar, na saúde e no modo de vida das comunidades rurais de Piauí Poço Dantas, Ponte do Piauí e Santa Luzia em Itinga/MG.

Diante dos danos, a ação pede, em caráter liminar (efeito imediato), a oferta de reassentamento para os moradores, a construção de uma nova estrada de acesso, o custeio de programas de saúde e a contratação de auditoria independente para vigiar a qualidade do ar, além de assessoria técnica para apoio jurídico aos atingidos.

O processo também requer a suspensão de propagandas que apresentam a empresa como sustentável. O promotor Felipe Marques Salgado de Paiva classifica isso como greenwashing, destacando que é uma forma de “desinformação ambiental ” que facilita investimentos e autorizações, transferindo “os custos socioambientais para as comunidades locais.”

Entre os danos materiais e sociais listados, o MP cita rachaduras em 50% das casas vistoriadas e uma situação de “aprisionamento”, já que as famílias vivem cercadas por pilhas de rejeito e dependem de autorização da mineradora “para entrar ou sair de suas próprias casas, o que afastou visitas de parentes e rompeu laços comunitários históricos”.

Fim do “mito da seca”

A defesa comum das mineradoras é culpar o clima semiárido e a seca pelos problemas respiratórios. Para testar essa hipótese, nossa reportagem realizou um cruzamento de dados inédito utilizando Rio Pardo de Minas como cidade controle.

Rio Pardo é vizinha, sofre com a mesma seca e o mesmo clima, mas não possui mineração industrial a céu aberto. Se a culpa fosse do clima, os números deste município deveriam ter explodido igual aos de Araçuaí e Itinga. Não foi o que aconteceu.

Duas cidades, uma só mineradora

Para entender a dimensão do impacto, é preciso olhar para o mapa. A mina Grota do Cirilo não está isolada; ela opera na divisa, encravada entre os perímetros urbanos de Araçuaí e Itinga, às margens da BR-367. 

Geograficamente, as duas cidades formam uma única zona de mineração. A poeira das explosões, das pilhas de rejeito e o tráfego de caminhões atingem ambas simultaneamente.

Ao analisar a série histórica antes da chegada da Sigma (2010-2016), percebe-se que a região vivia uma estabilidade sanitária. Rio Pardo oscilava dentro de um padrão natural e a zona de Araçuaí/Itinga mantinha números controlados.

  A eEstabilidade Pré-Sigma (2010-2016) (Internações por Doenças Respiratórias)

    Fonte: DATASUS/SIH

Cronograma da doença

Tudo mudou quando o método de extração foi alterado. Até 2017, a mineração na região era predominantemente subterrânea (realizada pela CBL), o que gerava menor impacto na superfície. 

Com a chegada da Sigma e o início da lavra a céu aberto, a curva de adoecimento da população passou a imitar, com precisão assustadora, o cronograma de expansão da mina.

Seu Santo, morador de Poço Dantas, resume a diferença técnica com a sabedoria de quem vive no território. “A CBL trabalha há 30 anos. Você não escuta uma explosão, poeira não dá, porque a mina é subterrânea, afirma.

Os dados confirmam. A reportagem identificou quatro marcos temporais que traçam uma relação direta entre a operação da Sigma e o colapso da saúde pública:

O efeito tesoura de 2023

O ano de 2023 é a chave para entender a ACP do Ministério Público. Naquele ano, a região Médio Jequitinhonha teve um respiro: a cidade controle, Rio Pardo, viu suas internações caírem 19%.

No entanto, em Araçuaí e Itinga, os números continuaram subindo. Isso mostra que, em 2023, a região estava mais saudável, exceto onde havia poeira de minério. Foi exatamente este ano citado pelo MP por violação dos limites de material particulado em 100% dos sensores monitorados.

Já em 2024, com a operação em capacidade máxima, a soma das duas cidades atingiu 681 internações — um aumento de 93% em relação ao período pré-operação.

Os dados do SIM/DATASUS confirmam a escalada na letalidade na zona da mina, com um aumento de 87,5% nos óbitos entre 2017 e 2024 (de 40 para 75). Note a divergência em 2023: enquanto Rio Pardo registra queda (12 óbitos), a soma Araçuaí + Itinga sobe para 67, isolando o impacto da mineração.

    Escalada de Óbitos: Zona da Mina vs. Cidade Controle

    Fonte: DATASUS/SIM

Não precisava ser assim

A tragédia ambiental em Araçuaí não é uma consequência inevitável da extração de lítio, mas sim de uma escolha técnica. A diferença fundamental é o método. Enquanto a Companhia Brasileira de Lítio (CBL) utiliza lavra subterrânea (túneis), a Sigma optou pela lavra a céu aberto. Essa escolha reduz custos operacionais, mas gera crateras gigantescas e nuvens de poeira incontroláveis.

Essa priorização do lucro em detrimento da segurança foi confirmada por quem conhece as entranhas da operação: o próprio fundador da Sigma, Calvyn Gardner. Segundo reportagem do Observatório da Mineração, o ex-executivo denunciou à Agência Nacional de Mineração (ANM) que a empresa opera de forma “imprudente”.

Denúncia interna e colapso da fiscalização

Laudos apresentados por Gardner apontam que a Sigma não segue o plano de lavra aprovado, criando paredes de cavas instáveis e priorizando “lucros de curto prazo”. A ANM confirmou que o plano atual da empresa foi considerado “insatisfatório”, com 23 exigências técnicas pendentes.

O cenário torna-se aterrorizante com a revelação de que a própria ANM admitiu não ter recursos para fiscalizações presenciais em 2025. Somado a isso, a recente “Operação Rejeito” da Polícia Federal desmantelou um esquema de corrupção envolvendo diretores da agência e servidores ambientais, implodindo a credibilidade dos órgãos que deveriam proteger a população.

Alerta Vermelho: o risco Atlas na Chapada do Lagoão

O desastre comprovado na operação da Sigma acende um alerta máximo para o novo projeto que se desenha no horizonte: a instalação da Atlas Lithium na Chapada do Lagoão.

Se a Sigma, operando sob holofotes globais, causou danos de R$ 50 milhões e dobrou as internações, o que esperar da Atlas instalando-se em uma área de recarga hídrica vital, num ano em que a fiscalização admite estar falida?

Marcha pelo Respeito

É neste contexto de abandono estatal e colapso na saúde que a indignação popular  que acontece a Marcha pelo Respeito ao Vale do Jequitinhonha, nesta sexta-feira (19), em Araçuaí.

O ato é uma resposta direta às declarações da CEO Ana Cabral na COP 30, onde teria se referido à população como “mulas d’água” e “geração perdida”. Unificando movimentos sociais como Cáritas, Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV) dentre outros, a marcha fará uma parada simbólica em frente ao Ministério Público.

Além da indenização milionária, o MP exige a contratação de uma Assessoria Técnica Independente (ATI), paga pela mineradora mas escolhida pelo povo, para que as comunidades tenham seus próprios engenheiros e advogados.

Para quem respira o ar de Araçuaí e Itinga, a cor da mineração não é verde. É cinza. E a marcha de hoje não é apenas um protesto contra ofensas; é um escudo humano para impedir que a Chapada do Lagoão tenha o mesmo destino das comunidades da Grota do Cirilo.

Outro lado

O Brasil de Fato enviou os questionamentos para a empresa Sigma que ainda não se posicionou, o espaço segue aberto para publicação das respostas da empresa. 

Editado por: Elis Almeida

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