O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino publicou nesta sexta-feira (19) a decisão de quebrar o sigilo bancário dos deputados Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, e Carlos Jordy (PL-RJ) de dezembro de 2018 a dezembro de 2024. Na decisão, o magistrado cita mensagens entre assessores e uma empresa de aluguel de carro falando em um pagamento “por fora” para a companhia.
Os dois são acusados de desviar cota parlamentar, que são recursos usados para despesas correntes dos parlamentares, como aluguel de carro e alimentação. Para determinar a quebra do sigilo bancário, o STF usou as investigações da Polícia Federal que deram origem à operação desta sexta, chamada de Galho Fraco.
De acordo com as investigações da PF, em janeiro de 2024, Itamar de Souza Santana, secretário do gabinete de Carlos Jordy, escreveu para a Harue Locação de Veículos falando em um pagamento “por fora”. A PF indica que a companhia emitia uma nota fiscal, recebia a transferência bancária e devolvia em espécie para Itamar.
“Ele está de férias… mandei para ele pagar umas coisas… disse que ia pagar na semana, não sei o quê, aí fica difícil. Segunda-feira o deputado vai vir segunda, aí eu vou ver com ele pra pagar o outro por fora, tá bom? Na segunda-feira, tá? E segunda-feira tá todo mundo aqui, eu vou ver com ele, tá bom?”, dizia uma das mensagens.
Outro envolvido na fraude é Adailton Oliveira dos Santos, ex-assessor especial da liderança do PL. Em uma troca de mensagens, ele deixa clara a participação de Sóstenes Cavalcante no desvio. Entre 27 de fevereiro e 13 de março de 2024, Adailton sugere o valor de R$ 2.200 para os aluguéis e afirma que o líder do PL continuaria pagando “por fora”. O ex-assessor ainda deixa claro que falta receber uma “diferença” acordada entre a empresa e a equipe do parlamentar.
No total, a PF identificou uma movimentação de R$ 11,5 milhões em créditos e R$ 11,5 milhões em débitos, especialmente nos anos de 2023 e 2024. Uma parte expressiva dessas transações não tem identificação de origem ou destino do dinheiro. Outros R$ 2,8 milhões foram enviados a pessoas “não identificadas”.
Foram localizadas transações de R$ 214 mil pagos pelo deputado Carlos Jordy e R$ 192 mil pagos por Sóstenes.
A suspeita da PF se dá não só pelos valores, mas pela frota de veículos usada pela Harue. A empresa tem apenas 5 carros registrados, o que não alcançaria o valor movimentado pelos deputados. A corporação afirma que há uma grande diferença entre o número de carros da Harue e das empresas usadas pelos deputados para se deslocar no Rio de Janeiro, que têm, ao menos, 20 carros.
A Harue também mudou seu nome empresarial para Alfa Auto Car Locação e o nome fantasia para Mobile Alfa Rent Car, mas manteve o endereço de operações em Brasília. A PF fez uma diligência ao local e constatou que a empresa não funciona mais no endereço onde está registrada. Com isso, a corporação concluiu que houve uma “dissolução irregular” e que a companhia atuava como empresa de fachada nessa operação.
Tudo isso levou às operações da PF com mandados de busca e apreensão no endereço de 7 alvos no Distrito Federal e Rio de Janeiro. Na casa de Sóstenes, os agentes encontraram cerca de R$ 400 mil em espécie.
A operação Galho Fraco acontece na esteira da operação Rent a Car, que investigava lavagem de dinheiro e a atuação de organizações criminosas no aluguel de carros e a relação com assessores parlamentares. Em dezembro de 2024, a PF chegou a pedir para incluir os congressistas nas operações, mas a Procuradoria-Geral da República (PGR) não via elementos suficientes para incluir Sóstenes e Jordy nas investigações.
