Após dezoito dias marcados por irregularidades e denúncias de fraude, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) iniciou, nesta quinta-feira (18), a contagem do chamado “escrutínio especial”, que pode ser determinante para o desfecho do atual processo eleitoral.
O escrutínio especial prevê a revisão de aproximadamente 2.773 atas eleitorais, o que representa 14,5% do total. Segundo dados do próprio CNE, essas atas apresentam diversas inconsistências e precisam ser revisadas. Estima-se que contenham mais de 580 mil votos que podem ser decisivos, considerando que a diferença entre Nasry Asfura, do Partido Nacional — candidato apoiado por Donald Trump —, e Salvador Nasralla, do Partido Liberal, é de apenas 40 mil votos.
O início do escrutínio, paralisado há quase uma semana, foi retomado após o Partido Nacional alcançar um acordo com a cúpula do Partido Liberal. O desacordo que mantinha o processo suspenso girava em torno do alcance da contagem especial.
Desde o início, o partido Libre exigiu uma recontagem completa e transparente de 100% dos votos, o que implicaria a revisão das 19.167 atas eleitorais, alegando que existem mais irregularidades do que aquelas reconhecidas oficialmente pelo CNE. Em contrapartida, as conselheiras Cossette López-Osorio, do Partido Liberal, e Ana Paola Hall, do Partido Nacional, defenderam a posição de limitar a revisão apenas às atas com inconsistências identificadas.
A situação se tornou ainda mais complexa devido às divisões internas dentro do Partido Liberal. Enquanto López-Osorio, junto a um setor relevante da liderança liberal, se recusou a aceitar a recontagem total dos votos, o candidato presidencial Salvador Nasralla e outros setores do partido continuaram exigindo a revisão completa do processo eleitoral.
Após a confirmação de que o CNE iniciaria o escrutínio especial, Nasralla concedeu uma coletiva de imprensa na qual afirmou que, além das 2.773 urnas em revisão, o Partido Liberal apresentou reclamações por inconsistências em outras 8.845 urnas, que contêm 1.841.048 votos, equivalentes a 47% do total emitido nas eleições de 30 de novembro. Segundo ele, nessas urnas houve manipulação de atas, e por isso exigiu uma recontagem “voto a voto”, demanda também compartilhada pelo partido LIBRE.

O CNE tem prazo até 30 de dezembro para anunciar oficialmente o vencedor. No entanto, para que a declaração seja válida, é necessário o consenso dos três conselheiros que integram o órgão: Ana Paola Hall, Cossette López-Osorio e Marlon Ochoa, do Libre. Caso esse acordo não seja alcançado, caberá ao Congresso Nacional anunciar o vencedor.
Nas últimas horas, diante da possibilidade de o Conselho Nacional Eleitoral não emitir uma declaração formal, a Comissão Permanente do Congresso Nacional adiantou que poderia convocar um escrutínio geral das eleições.
Em meio às tensões: um novo mandato militar
O já tenso início do escrutínio especial coincidiu com a passagem de comando da cúpula militar do país, realizada nesta quinta-feira, 18, no Campo Parada Marte, onde ocorreu a cerimônia de troca de autoridades e a aposentadoria de altos oficiais das Forças Armadas.
Roosevelt Hernández, que havia sido nomeado chefe do Estado-Maior Conjunto pela presidente Xiomara Castro em dezembro de 2023, transferiu o comando para Héctor Benjamín Valerio Ardón, na presença da mandatária e das principais autoridades do Estado.
Héctor Benjamín Valerio, especializado em inteligência e operações especiais, fez parte da Guarda de Honra durante o governo de Juan Orlando Hernández — condenado a 45 anos por crimes relacionados ao narcotráfico e recentemente absolvido por decisão de Trump — e é descrito como um homem de “confiança” do ex-presidente.
De maneira surpreendente, compareceram ao evento as filhas de Juan Orlando Hernández, que, desde a prisão do pai, mantinham um perfil discreto e evitavam participar de atos públicos.

Desde o golpe de Estado de 2009 contra o então presidente Manuel Zelaya, esposo da atual presidente Xiomara Castro, os militares têm exercido um papel extraordinário na política hondurenha. Desde então, e por mais de uma década, as Forças Armadas se consolidaram como um ator estratégico nos processos políticos e eleitorais do país.
Durante a cerimônia, a presidente Xiomara Castro afirmou que, mesmo “nessas circunstâncias difíceis”, manteve respeito à lei e à Constituição e que, para “manter a paz no país, considerando que os partidos tradicionais decidiram abandonar a tese do voto a voto”, anunciará que respeitará “o vencedor proclamado pelo Conselho Nacional Eleitoral”.
“Um voto de confiança”
Consultada pelo Brasil de Fato, Stephany Isabel Bueso Velásquez, chefe do gabinete da Subsecretaria de Política Exterior de Honduras, explicou que a passagem de comando militar estava prevista antes das eleições e que a decisão de Xiomara Castro foi não interferir, para que a sucessão fosse respeitada, seguindo a hierarquia militar correspondente.
“A presidente, em cumprimento à Constituição da República, dá o passo de comando às Forças Armadas, como está estabelecido na lei, oferecendo um voto de confiança para que as Forças Armadas — responsáveis por garantir a transparência de um processo eleitoral e também por supervisionar as mudanças de comando no nível executivo — façam tudo isso. Ou seja, é um voto de confiança que a presidente está dando”, afirmou.
Bueso Velásquez explicou que o general reformado Roosevelt Hernández passará agora a ser secretário de Defesa de Honduras. “Héctor Benjamín Valerio Ardón era quem devia assumir. Não foi uma escolha; ele devia assumir de acordo com a ordem da hierarquia militar. Nesse caso, a presidente decidiu não modificar essa sucessão natural”, destacou.
Entre outros motivos, Bueso Velásquez ressaltou que era “necessário” garantir que a transferência de comando fosse respeitada, já que, segundo a lei eleitoral hondurenha, durante o período eleitoral “as Forças Armadas e a Polícia passam a funcionar sob o comando da presidente do Conselho Nacional Eleitoral”.
“A urgência em fazer a troca de comandos é para que as Forças Armadas retornem ao comando do Executivo e nenhuma força militar ou policial fique sob controle do Conselho Nacional Eleitoral”, explicou.
Bueso Velásquez também apontou que, quando o ex-presidente Juan Orlando Hernández assumiu o cargo, “ele fez o oposto do que Xiomara está fazendo agora”, intervindo para que pessoas de sua confiança ocupassem cargos estratégicos dentro da estrutura militar. Dessa forma, segundo Velásquez, “ele conseguiu construir um aparato repressivo”, um aparato que ainda não foi desmantelado e que, de acordo com ela, é “crucial” na atual crise em Honduras.
“Quando Trump diz que apoia o candidato do Partido Nacional, o que se ativa é toda uma rede criminosa que realiza, em diferentes lugares, extorsões e ameaças para que as pessoas votem em Asfura”, acrescentou.
A preocupação com o que pode acontecer nas próximas horas parece constante. Desde o início do processo eleitoral, o governo de Xiomara Castro e o partido Libre denunciaram que estava ocorrendo fraude, exigindo uma contagem geral dos votos. No entanto, a constante negativa da maioria do CNE parece caminhar no sentido contrário.
Nesse cenário, Bueso Velásquez afirma que a única maneira de, em Honduras, não se fazer a contagem voto a voto é se “Salvador Nasralla desistir, porque o LIBRE já aceitou que perdeu. Mas se Salvador Nasralla, a quem o LIBRE está oferecendo apoio institucional nas instituições e nas ruas, não encontrar coragem suficiente para enfrentar essas pessoas, o mais provável é que a fraude se concretize e que nomeiem Nasry Asfura”.
