Entrevista

Suíça enfrenta a onda da extrema direita com Estado forte e direitos trabalhistas

O sindicalista e parlamentar Pierre-Yves Maillard explica os motivos do modelo suíço ser um contraponto à radicalização

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Pierre-Yves Maillard é um homem branco, careca e usa óculos. Ele está sentado em um bistrô em Rennes, interior da suiça, e apoia um dos cotovelos na mesa e segura o queixo com a mão direita. Com a outra, abre um livro
Pierre-Yves Maillard, um dos políticos mais relevantes da Suíça analisa o cenário político europeu | Crédito: Fania Rodrigues/Brasil de Fato

Um dos homens mais influentes da política suíça é um líder sindical de esquerda: Pierre-Yves Maillard, 57 anos, presidente da União Sindical Suíça (USS) e deputado federal pelo Partido Socialista. Ele foi declarado o homem do ano em 2024 pela imprensa suíça, por liderar e ganhar algumas batalhas eleitorais importantes contra partidos de extrema direita. A mais importante delas foi um referendo que decidiu pela aprovação popular de um 13º salário para os aposentados, inexistente no país até 2024.

Nesse contexto, é válido lembrar que segundo o modelo de democracia suíça, qualquer projeto de lei e mudanças na Constituição devem passar pelo voto popular depois de aprovados pelo Parlamento (com algumas exceções e nuances, dependendo do tema a ser votado).

Para analisar os diferentes cenários políticos na Suíça e na Europa, Maillard concedeu uma entrevista exclusiva ao Brasil de Fato. Ele também faz um balanço sobre os avanços e retrocessos dos direitos trabalhistas na Europa.

Sentados em um pequeno bistrô em frente à estação de trem da pequena cidade de Renens, no cantão (estado) de Vaud, no interior da Suíça, o deputado e sindicalista Pierre-Yves Maillard transita com naturalidade entre temas de política e economia, com a familiaridade e a simplicidade de quem recita uma antiga receita de bolo. Próximo do povo, Maillard é alguém que gosta de ver e ser visto. Enfim, um homem político, um líder carismático no sentido clássico do termo.

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Para o deputado, o avanço da extrema direita na maioria dos países europeus nas últimas eleições está diretamente ligado ao esgotamento do modelo econômico liberal e à crescente precarização das condições de vida dos trabalhadores assalariados. “A situação socioeconômica dos povos ao nosso redor passou por essa longa fase de liberalização de 30 anos, que degradou a situação do mundo do trabalho”.

Isso porque o processo de liberalização da Europa, depois da conformação da União Europeia, aumentou a pressão sobre os trabalhadores, pois houve um nivelamento salarial que reduziu o poder de compra da classe assalariada, ao mesmo tempo em que aumentou a carga de trabalho.

“As empresas de cada país reduziram os salários para se adaptarem à concorrência. A União Europeia tentou regular esse fenômeno com uma cláusula (que faz parte dos acordos econômicos da UE) que impunha o princípio da igualdade salarial para trabalho igual”, diz Maillard. A implementação dessa norma levou anos, no entanto o problema não foi resolvido. “A norma existe, mas é mal monitorada e raramente aplicada. Existem poucos mecanismos de controle realmente eficazes”, enfatiza.

Testa franzida, lábios tensos e mãos nervosas: as expressões faciais do deputado não escondem sua preocupação com o atual momento político da Europa. Segundo Maillard, a situação ganhou uma camada de complexidade depois da pandemia da Covid-19.

“A esses 30 anos de liberalização e pressão sobre os salários se soma uma tendência de Estados autoritários, severos e repressivos, que vimos crescer com a pandemia. Não podemos esquecer também que vivemos uma alta nos preços (de produtos, serviços e energia) e que quebramos os mecanismos de ajuste dos salários à inflação, resultando em uma brutal perda do poder de compra. Isso cria um efeito cumulativo de insatisfação da sociedade”. Em síntese, o crescimento da extrema direita na Europa está intimamente ligado à erosão dos direitos sociais e laborais.

Além disso, a guerra na Ucrânia, juntamente com a suspensão de algumas importações de gás russo, elevou os preços da energia na Europa. “Aqui temos a receita perfeita para a ascensão da extrema direita, que tem uma retórica antiestatal. Essa retórica alimentou todas as teorias da conspiração, todas as narrativas criando o sentimento de que o Estado é um inimigo, e assim por diante”.

Maillard destaca ainda como o ressentimento pregado pela extrema direita passa a ser um elemento de identificação para o eleitorado que está se radicalizando. “É uma extrema direita que se alimenta, em grande parte, do sofrimento social, onde, mesmo em países ricos da Europa, existem milhões de pessoas que não conseguem alimentar seus filhos três vezes ao dia enquanto trabalham o dia todo”, afirma o deputado.

Mas o panorama não é feito apenas de sombras. Podemos dizer que há fendas por onde a esperança se infiltra, e um dos polos de resistência é a Suíça, que, mesmo tendo governos liberais por longos anos, conseguiu manter serviços prioritários nas mãos do Estado e, com isso, garantir a qualidade e o controle de preços. “Não liberalizamos nosso setor energético. As pessoas ainda dependem de concessionárias públicas de eletricidade. O mesmo acontece com a água e com a calefação. A maior parte das principais redes de infraestrutura ainda é de propriedade pública e são controladas por empresas autônomas, mas de propriedade pública. Os preços são estáveis e temos uma grande rede de bancos públicos”, ressalta.

A maioria das empresas suíças recebe empréstimos de bancos públicos com garantia do Estado. “Os bancos cantonais garantem crédito a 85,5% das empresas suíças”. O resultado imediato é que a economia fica menos vulnerável à especulação financeira.

Outro campo de progresso da Suíça é na questão da proteção sindical dos trabalhadores. Mesmo sem um salário-mínimo estabelecido, o país conserva um dos mais altos salários do continente europeu. Isso acontece graças às convenções coletivas de trabalho (CCT), afirma o líder sindical. “A Suíça aumentou significativamente a cobertura de convenção coletiva. Hoje, cerca de 50% dos trabalhadores suíços estão em condições de trabalho negociadas por sindicatos. Há 20 anos, esse número era mais próximo de 33%”, destaca Maillard.

Portanto, a “fórmula suíça” para resistir à ascensão da extrema direita baseia-se numa combinação de fortes proteções sociais, democracia direta e mecanismos eficazes de controle e equilíbrio sindical.

Ao finalizar a entrevista o deputado afirma acreditar que o país resiste melhor à extrema direita porque reduz as causas sociais do ressentimento: insegurança laboral, perda do poder de compra e sentimento de impotência política.

Antes de se despedir, Pierre-Yves Maillard é interrompido por um cumprimento rápido, um aperto de mão, um sorriso trocado com alguém que passa. No pequeno bistrô de Renens, entre o vai-e-vem de trens e conversas cotidianas, o líder sindical escuta quem se aproxima.

É nesse equilíbrio entre ação política, proximidade popular e convicção ideológica que ele acredita que pode contribuir para uma resposta às angústias sociais que alimentam a extrema direita na Europa.

Editado por: Juliana Passos

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