TEATRO E CORAGEM

Pelo olhar de Pagu, o palco se fez travessia

'Ele ensina que vida e morte não se opõem quando há legado: tornam-se passagem, continuidade'

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No palco, Cátia fez da voz de Pagu um gesto político direto: uma denúncia contra o patriarcado, a misoginia e o feminicídio
No palco, Cátia fez da voz de Pagu um gesto político direto: uma denúncia contra o patriarcado, a misoginia e o feminicídio | Crédito: Cristiano Adeli/Teatro Municipal de São Leopoldo

O início de tudo foi um sonho da atuadora quixotesca Cátia Cylene. Um chamado íntimo e insistente para trazer Patrícia Galvão ao palco não apenas como personagem histórica, mas como força viva. A partir dessa escolha, outras vieram: pessoas, corpos, modos de fazer. Nem todas as travessias se mantiveram como imaginadas. A ausência. O percurso precisou ser refeito. E foi justamente aí que o teatro, como arte, revelou sua vocação mais radical e generosa: seguir exige inventar novas formas.

Pagu sempre se expressou contra as opressões. Entre o sol e as grades das prisões, entre o visível e o invisível, entre a vida e a morte… sempre permitindo ir além. Conheceu o apagamento, mas nunca se deixou apagar. A atriz que a encarna atravessou, em sua vida particular, pesos que não cabem em palavras fáceis e, ainda assim, chegou à estreia com uma fala clara, exigente, sem concessões. No palco, Cátia fez da voz de Pagu um gesto político direto: uma denúncia contra o patriarcado, a misoginia e o feminicídio, não como outro discurso, mas como manifestação e presença em estado de urgência, onde dança e denúncia se tornam indissociáveis.

O nome da peça é também seu método. Pedir que Pagu empreste os olhos é aceitar ver mais do que o permitido, mais do que o confortável. É reconhecer que a arte não nos oferece respostas, mas instrumentos para ver além e seguir. O olhar de Pagu atravessa o tempo porque segue necessário. Ele ensina que vida e morte não se opõem quando há legado: tornam-se passagem, continuidade.

Esse gesto encontra eco na história do grupo Quixotescos, fundado por Cátia Cylene e Ari Meneghini, anos atrás, sob uma árvore, no quintal da casa da mãe. A imagem dialoga diretamente com Pagu naquele quintal onde algo acontece no poema, onde a vida insiste para além do outono e do inverno, atravessando as estações. Não por acaso, o grupo Quixotescos sempre foi utopia em movimento: arte de rua, arte em sala de aula, arte que enfrenta o mundo, arte que acredita e se movimenta mesmo quando parece deslocada. Estar agora no palco, com vida, neste crime sagrado de sermos divergentes, não apaga essa origem — revela a travessia. E nós a fizemos de mãos dadas.

Seguir sem Ari exigiu coragem e amor para que a ausência se transformasse em homenagem. Ali entrou Nico, amigo e parceiro de trajetória, sustentando com presença a continuidade possível.

Essa caminhada só se fez porque uma teia invisível se formou. Em cena e fora dela, Luana, Bruna e Luiza ampliaram os campos da criação, trazendo outras camadas de corpo, resposta e delicadeza. A trilha sonora original, criada pelo grupo vocal feminino Matricária, fez da voz um gesto coletivo: não acompanhamento da cena, mas presença, compondo um sustento imaterial.

Eu, Rita Poesia, escrevo este texto também de dentro do processo. Como alguém que ouviu o sonho ainda informe, que atravessou limites pessoais e coletivos e que participou da criação das imagens projetadas em cena. Escrevo como testemunha e parte, porque essa peça não se construiu sozinha: foi na atenção, na escuta e no estar junto, quando era preciso seguir sem ver o chão. Construção coletiva, como dito pela dramaturga, nossa Pagu, que foi trazendo o público para dentro do sonho.

O público sentiu. A estreia foi encontro. Para quem assistiu, ficou o empréstimo de um olhar que atravessa o tempo e nos ajuda a enxergar além… mesmo quando sonhar exige atravessar pesadelos.

Pagu, empresta teus olhos” nasce assim: como obra que ultrapassa limitações, perdas e pesos. Um gesto de amor e de revolução, afinado com tudo o que Pagu escreveu e viveu e com tudo o que ainda hoje insiste em nos convocar à coragem. E a seguir como ponte e partida.

*Rita Portella é artista e criadora dos vídeos projetados durante a peça “Pagu, empresta teus olhos”

**A opinião contida neste texto não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Marcelo Ferereira

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