Sem transparência

Honduras: entenda como candidato de Trump se proclamou presidente em meio a acusações de golpe

Proclamação de Nasry Asfura gera críticas, contestações e acusações de golpe eleitoral

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Uma tela de LCD exibe um retrato do candidato presidencial de Honduras, Nasry Asfura, do Partido Nacional, enquanto apoiadores celebram após o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) declará-lo vencedor da eleição presidencial em Tegucigalpa, em 24 de dezembro de 2025.
Uma tela de LCD exibe um retrato do candidato presidencial de Honduras, Nasry Asfura, do Partido Nacional, enquanto apoiadores celebram após o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) declará-lo vencedor da eleição presidencial em Tegucigalpa, em 24 de dezembro de 2025. | Crédito: (Foto de Orlando SIERRA / AFP)

Marcadas por graves denúncias de fraude, milhares de contestações sem solução e uma escancarada ingerência dos Estados Unidos, as recentes eleições gerais em Honduras se configuram como um dos processos eleitorais mais opacos da história do país. Vinte e quatro dias após a votação realizada em 30 de novembro, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) proclamou o candidato do Partido Nacional, apoiado por Donald Trump, Nasry Asfura, como o novo presidente do país centro-americano.

De forma inédita, a proclamação foi feita em 24 de dezembro por meio de um comunicado do CNE, sem transmissão em cadeia nacional de rádio e televisão, enquanto uma parte significativa da população ainda participava das celebrações da véspera de Natal.

O resultado foi aprovado pelas conselheiras Ana Paola Hall, representante do Partido Liberal, e Cossette López, representante do Partido Nacional, depois que a embaixada dos Estados Unidos em Honduras exigiu publicamente a divulgação do resultado final, advertindo que “quem quer que obstrua ou tente atrasar” a proclamação enfrentaria “consequências”.

Embora a normativa exija a assinatura dos três conselheiros do CNE, a proclamação não foi assinada pelo conselheiro do Partido Libertad y Refundación (Libre), Marlon Ochoa, que qualificou a decisão como um “golpe eleitoral”. No entanto, o documento foi formalizado com a assinatura do conselheiro suplente de Ochoa, Carlos Enrique Cardona Hernández — sobre quem pesam graves suspeitas de corrupção — que validou a resolução sem o consenso do partido que deveria representar.

A reação não se fez esperar e, imediatamente, a proclamação foi classificada pelo presidente do Poder Legislativo, Luis Redondo, líder do partido Libre, como um “golpe eleitoral” e uma “traição à pátria”. Por meio das redes sociais, Redondo emitiu uma mensagem dura na qual afirmou que o conselheiro suplente Carlos Cardona havia “confirmado não validar a fraude do Partido Nacional”, acompanhando a mensagem com uma imagem de fundo preto com a palavra “Traição”.

De acordo com os dados do CNE, a proclamação baseou-se na apuração de 19.154 atas de um total de 19.167, o que equivale a 99,93% do total. Segundo esses números, Asfura obteve 1.481.517 votos, correspondentes a 40,26%; Salvador Nasralla, do Partido Liberal, alcançou 1.455.169 votos, equivalentes a 39,54%; enquanto Rixi Moncada, candidata do Libre, somou 706.266 votos, ou seja, 19,19%.

O resultado anunciado pelo CNE marcou uma diferença de apenas 0,72% entre os candidatos do Partido Nacional e do Partido Liberal. A proclamação foi feita sem a revisão de milhares de atas eleitorais que tanto o Partido Libre quanto setores próximos a Salvador Nasralla, candidato do Partido Liberal, haviam solicitado para revisão por apresentarem sérias irregularidades, exigindo uma “recontagem completa e transparente”.

Tratava-se de atas nas quais apareciam mais votos do que o devido, onde a diferença em favor do Partido Nacional era completamente desproporcional em relação a outras atas e/ou nas quais os mecanismos de segurança biométrica não haviam sido respeitados.

Sem oferecer qualquer explicação, as conselheiras do CNE se negaram sistematicamente a realizar a recontagem das milhares de atas denunciadas por irregularidades. Estima-se que essas contenham aproximadamente dois milhões de votos que poderiam ter modificado substancialmente o resultado final. No entanto, o anúncio prematuro do CNE não permitiu a revisão desses votos.

Reações políticas e posicionamentos internacionais

Imediatamente após a proclamação como novo presidente, a embaixada dos Estados Unidos emitiu um comunicado parabenizando Nasry Asfura. Ao mesmo tempo, expressou seu reconhecimento às conselheiras Ana Paola Hall e Cossette López “por sua liderança e compromisso na proteção do processo eleitoral e pelo respeito à vontade do povo”.

Em consonância com a declaração dos Estados Unidos, os governos de direita da região — Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, Panamá, Paraguai, Peru e República Dominicana — emitiram um comunicado conjunto parabenizando Asfura e expressando sua expectativa de “trabalhar conjuntamente nas questões que nos unem como países irmãos, em particular comércio, segurança, migração e fortalecimento da democracia na região”.

Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro, através das redes sociais, parabenizou Asfura, afirmando que sua vitória fortalecerá “o movimento da direita na América Latina”. Enquanto isso, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro declarou que “o povo hondurenho derrotou a candidatura de esquerda, apoiada pelo [ex-presidente de Honduras Manuel] Zelaya, e disse não ao socialismo, seguindo a tendência de direita na América Latina”.

Em contraste, Salvador Nasralla rejeitou formalmente a proclamação do CNE e afirmou, em coletiva de imprensa, que o resultado “não reflete a verdade completa do voto dos cidadãos (…) pela quarta vez consecutiva me negaram essa oportunidade, não é um capricho; não se deveria divulgar um resultado sem contar todos os votos”.

Posteriormente, Nasralla compartilhou nas redes sociais uma gravação em que se ouviria quem — presumivelmente — seria a conselheira Cossette López-Osorio conversando com um desconhecido, pedindo elevar uma propina de 3 milhões de lempiras (equivalente a cerca de 113.800 USD) para 7 milhões de lempiras (aproximadamente 265.500 USD). Na publicação, Nasralla acompanhou a gravação com a mensagem: “O dinheiro do Partido Nacional, violando a vontade de 8 milhões de hondurenhos. Este áudio é, após perícia nos Estados Unidos, absolutamente real”.

Por sua vez, a candidata do Partido Libre, Rixi Moncada, denunciou publicamente o que considerou uma grave ruptura da ordem democrática por meio de uma mensagem divulgada em suas redes sociais. Em seu pronunciamento, acusou o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de agir sob influências externas e afirmou que o processo eleitoral foi manipulado deliberadamente. Segundo ela, “em Honduras, o CNE, atendendo às instruções do império, assassinou nossa incipiente democracia”, e classificou a proclamação do “presidente eleito” como “uma fraude e uma imposição estrangeira”.

Proclamação em meio a contestações pendentes

A proclamação presidencial do candidato apoiado por Donald Trump, Nasry Asfura, foi realizada sem que mais de 10 mil contestações apresentadas pelos partidos Liberal e Libre, bem como pelo menos duas ações de nulidade relacionadas ao nível presidencial, tivessem sido resolvidas, lançando sérias dúvidas sobre sua legitimidade.

Na noite anterior à proclamação, as conselheiras Hall e López — de forma virtual, enquanto se acredita que estivessem em uma sede diplomática estrangeira — aprovaram um relatório que recomendava deixar de lado as contestações e pedidos de revisão apresentados pelo Partido Liberal e pelo Partido Libre. Com a adoção desse documento, o CNE ficou “habilitado” para emitir a proclamação oficial do vencedor do processo eleitoral.

Anteriormente, na quinta-feira, 18 de dezembro, o processo eleitoral havia entrado em uma fase de “apuramento especial”, na qual estava prevista a revisão de 2.773 atas eleitorais, equivalentes a 14,5% do total de votos — o que representava mais de 580 mil votos —, pois, segundo o próprio CNE, essas atas apresentavam “inconsistências”.

O cerne do debate centrou-se na questão de saber se outras atas também deveriam ser revisadas. Enquanto as conselheiras Cossette López-Osorio e Ana Paola Hall defenderam a posição de limitar a revisão apenas àquelas atas, o Partido Libre exigiu desde o início a recontagem completa de 100% das atas, argumentando que as irregularidades eram mais amplas do que as reconhecidas oficialmente. Por sua vez, o Partido Liberal apresentava divisões internas: enquanto seu candidato presidencial, Salvador Nasralla, reivindicava uma revisão “voto por voto” de todas as atas, setores da direção liberal apoiavam a posição de limitar o escrutínio apenas às atas propostas pelas conselheiras do CNE.

Nasralla afirma que, segundo suas contagens paralelas (não oficiais), sua candidatura havia obtido a maior quantidade de votos, uma análise compartilhada pelo Libre. Poucos dias após a realização das eleições, o ex-presidente Manuel “Mel” Zelaya, atual coordenador do Libre, declarou pelas redes sociais que, segundo o levantamento paralelo realizado por seu partido minuto a minuto, Salvador Nasralla estava à frente nas eleições presidenciais.

“Consultei nossa candidata Rixi Moncada para me fornecer essa informação, porque, segundo nosso próprio levantamento nacional de registros presidenciais, registro por registro, o vencedor da presidência é Salvador Alejandro César Nasralla Salum”, declarou Zelaya.

Editado por: Nathallia Fonseca

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