ANO DE DIFICULDADES

Universidades federais gaúchas perdem R$ 44,1 milhões para pesquisas, serviços básicos e até no seu funcionamento

Cortes do Congresso afetam também restaurantes universitários e alunos em vulnerabilidade socioeconômica

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Reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora Márcia Barbosa
Reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, professora Márcia Barbosa | Crédito: Foto : Marcelo Oliveira / ALRS

O Congresso aprovou um corte médio de 7% no orçamento das universidades federais brasileiras. No total, as instituições vão perder R$ 488 milhões, o que vai gerar cortes em todas as áreas, do ensino às pesquisas, da segurança aos serviços básicos, da tecnologia aos terceirizados, da energia e telefonia aos restaurantes universitários. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) previa receber R$ 200,5 milhões e terá um corte de R$ 14,5 milhões, um percentual de 7,24%.

A reitora Márcia Barbosa, em áudio para o Brasil de Fato, desabafou contra os cortes. “É uma decisão difícil de se tomar sobre o que se vai cortar, mas teremos que cortar se esta situação persistir. No ano passado tivemos cortes de R$ 8,5 milhões, mas o Ministério da Educação cobriu este dinheiro com recursos de suas fontes.”

Para a reitora, esta decisão do Congresso vai contra as políticas públicas. “Ao mesmo tempo que cortam desta área importante, aumentam de R$ 50 bi para R$ 60 bi as emendas parlamentares para eles realizarem obras em suas bases. São 20% de aumento para questões individuais dos deputados. O ano de 2026 é eleitoral e eles se dão mais dinheiro para atender as suas pequenas comunidades. Não é uma coisa para atender políticas públicas. Vamos ter que lutar muito para superar os problemas e mudar este caos que nos colocaram.”

A coordenadora-geral da Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) – (Assufrgs), Maristela Piedade, diz que a situação vai piorar os serviços que as universidades prestam. “A redução orçamentária, infelizmente, mostra um total descompromisso com a universidade pública e com os institutos federais que constroem o desenvolvimento do país e sua independência científica e tecnológica.”

“Situação de miséria”

Maristela Piedade acha que a medida coloca as universidades em situação de miséria. “Ela acaba por manter as universidades e institutos federais mendigando emendas parlamentares, em um balcão de negócios constrangedor e na dependência da correlação de forças do Congresso Nacional, o que é mais temerário ainda em ano eleitoral. Nessa condição de precariedade fica em risco a própria sobrevivência institucional.”
Piedade lembra que nesse cenário é muito difícil planejar algo a longo prazo. “Ciência e educação têm que ter orçamento estável e previsível e isso vai continuar a ser defendido por técnicas e técnicos-administrativos especializados.”

“Nós, técnicas e técnicos-administrativos em Educação defendemos uma universidade pública, gratuita, de qualidade, socialmente referenciada, democrática e que tenha orçamento para planejar a longo prazo”, garante.

Universidades gaúchas

As universidades federais gaúchas sofrerão um total de cortes de R$ 44,1 milhões no orçamento de 2026, a se confirmar a Lei orçamentária anual (LOA) aprovada pelo Congresso no dia 19 e que irá para sanção ou veto do presidente Lula.

Os cortes para as instituições representam em torno de 7% do enviado pelo Executivo ao Congresso no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA).

Esses cortes atingem verbas destinadas a despesas não obrigatórias, como contas de luz e água, bolsas acadêmicas, insumos de pesquisa e compra de equipamentos, chamadas também de despesas discricionárias.

Também sofrerão reduções as demais universidades federais no Rio Grande do Sul: UFpel (Pelotas), Furg (Rio Grande), UFSM (Santa Maria), UFCSPA (Porto Alegre) e Unipampa (Bagé). Os percentuais variam de 6,6% (Unipampa) e 7,24% (Ufrgs).

O Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) sofrerá corte de 7,21% (R$ 85 milhões), conforme o reitor Júlio Heck. O valor total que será destinado para as universidades e institutos federais no próximo ano — de R$ 6,43 bilhões — representa 0,099% do total do orçamento geral de R$ 2026, de R$ 6,5 trilhões, ou seja, menos de 1%, segundo pesquisa realizada pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

UFPel : Orçado: R$ 95,5 milhões, corte de R$ 6,4 milhões, percentual de 6,80%.
Furg: Orçado: R$ 77,1 milhões, corte de R$ 6,4 milhões, percentual de 6,80%.
UFSM: Orçado: R$ 155,5 milhões, corte de R$ 11,1 milhões e percentual de 7,19%.
UFCSPA: Orçado: R$ 40,2 milhões, corte de R$ 2,7 milhões e percentual de R$ 6,83.
Unipampa: Orçado: R$ 62,8 milhões, corte de R$ 4,1 milhões percentual de R$ 6,67%.

Andifes

A Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) também está revoltada com a situação. A entidade publicou uma nota manifestando “profunda preocupação” com os cortes no orçamento das universidades federais feitos pelo Congresso durante a tramitação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2026.

A entidade pede a recomposição imediata dos valores, “sob pena de comprometer o funcionamento regular das universidades e limitar o papel estratégico dessas instituições no desenvolvimento científico, social e econômico do país”. O valor total originalmente orçado para as universidades federais brasileiras no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026, antes dos cortes, era de R$ 6,89 bilhões em recursos discricionários.

De acordo com cálculos feitos pela própria Andifes, o orçamento originalmente previsto no PLOA 2026 para as 69 universidades federais acabou sendo cortado em 7,05%, o que significa uma redução de R$ 488 milhões.
“Esses cortes incidiram de forma desigual entre as universidades e atingiram todas as ações orçamentárias essenciais ao funcionamento da rede federal de ensino superior”, diz a nota publicada pela associação.

A Andifes argumenta ainda que os cortes, de aproximadamente R$ 100 milhões, na área de assistência estudantil, comprometem diretamente a implementação da nova Política Nacional de Assistência Estudantil (PNAES), instituída pela Lei nº 14.914/2024, “colocando em risco avanços recentes na democratização do acesso e da permanência no ensino superior público”.

“Os cortes aprovados agravam um quadro já crítico. Caso não haja recomposição, o orçamento das universidades federais em 2026 ficará nominalmente inferior ao orçamento executado em 2025, desconsiderando os impactos inflacionários e os reajustes obrigatórios de contratos, especialmente aqueles relacionados à mão de obra”, complementa o texto.

De acordo com a Andifes, cortes semelhantes também vão impactar o orçamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ).

“Estamos em um cenário de comprometimento do pleno desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa e extensão nas Universidades Federais, de ameaça à sustentabilidade administrativa dessas instituições e à permanência dos estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica”, reafirma a entidade.

Editado por: Marcela Brandes

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