Retrospectiva

2025 na Venezuela: ameaças dos EUA, apoio de Rússia e China e quatro meses que valeram um ano

Na mira da maior potência bélica do mundo, governo Maduro concentrou esforços na defesa do território

No audio source provided.
Apoiadores do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, agitam uma bandeira venezuelana durante um ato em defesa da paz em Caracas
Apoiadores do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, agitam uma bandeira venezuelana durante um ato em defesa da paz em Caracas | Crédito: Juan Barreto / AFP

Em 2025, a Venezuela viveu quatro meses que valem por um ano inteiro. 

Em meados de agosto, os Estados Unidos anunciaram o envio dos primeiros navios militares para o mar do Caribe, próximo à costa venezuelana. 

Desde então, a Venezuela enfrenta uma pressão militar sem precedentes na história recente da América do Sul, o que obrigou o governo de Nicolás Maduro a concentrar praticamente todos os seus esforços na defesa do território nacional.

No fim de dezembro, a escalada das hostilidades ganhou um novo capítulo após Donald Trump afirmar publicamente, no último dia 29, que os Estados Unidos teriam realizado um ataque terrestre contra a Venezuela. A declaração foi feita sem apresentação de provas. Autoridades em Caracas afirmaram que não houve incursão por terra em território nacional e denunciaram a declaração como uma tentativa de justificar uma eventual ampliação das agressões, aumentando o clima de tensão e instabilidade na região.

O vice-ministro de Políticas Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, afirmou que o episódio “parece falso”, embora o governo estivesse investigando o caso. “Não há confirmação oficial desse suposto ataque por parte da Casa Branca ou do Departamento de Defesa, tampouco foram divulgados detalhes”, declarou.

Apesar da tensão política, o cotidiano da capital, Caracas, parece não ter sido profundamente afetado pela escalada militar que ronda o país. 

Um dos principais sinais dessa aparente normalidade é o comércio, que, durante o período natalino, manteve um ritmo intenso e, em certa medida, caótico por tamanha procura. 

“Não se deve ficar tão assustado. É preciso estar prevenido, mas não com medo. Temos que seguir a vida normalmente. Trabalhar e nos distrair a cada oportunidade que tivermos, aproveitar o tempo com a família”, disse, ao Brasil de Fato, o motorista Daniel Ruda. 

Pessoas caminham pelo mercado de La Hoyada, em Caracas, no dia 23 de dezembro de 2025. Federico Parra / AFP

Mas o que não faltam são motivos para preocupação. 

Desde setembro, os Estados Unidos vêm realizando ataques aéreos contra embarcações no mar do Caribe e no Oceano Pacífico, sob o pretexto de combater o narcotráfico. Sem a abertura de qualquer processo judicial contra os alvos dos mísseis estadunidenses, as ações já deixaram mais de 100 mortos.

Além disso, Washington deslocou uma frota considerável — incluindo o maior porta-aviões do mundo — para a costa venezuelana, e Donald Trump não descartou ataques por terra

Diante desse cenário, o governo venezuelano e a população civil se organizaram para possíveis ataques.

O bairro 23 de Janeiro, que abriga a comuna Panal 2021, concentra o núcleo duro do chavismo. A direção da comuna mantém a atenção em níveis altos, já que entende que pode ser alvo de um eventual ataque de Washington.

“Podemos ser alvo de um ataque e isso faz com que o nosso povo tome suas medidas. Esse é um povo que aprendeu, que se organizou e toma suas medidas de segurança, vigilância e inteligência popular para tentar estarmos preparados para qualquer tipo de ataque ou de violência a que sejamos submetidos”, diz Camilo Tamayo, uma das lideranças locais. 

A Casa Branca concentra sua pressão militar, principalmente, sobre os espaços aéreo – e mais recentemente – marítimos da Venezuela. 

Em novembro, a administração Trump anunciou o fechamento do espaço aéreo do país, alegando risco de segurança – o que é considerado por Caracas como um ataque à soberania venezuelana. Como consequência do alerta, todas as companhias estrangeiras que operam voos na Venezuela suspenderam seus itinerários ao país.

No mês seguinte, a pressão por mar se intensificou. Desde meados de dezembro, navios que transportam o petróleo venezuelano viraram alvo de um bloqueio marítimo anunciado pelo governo Trump, em uma medida que visa a asfixia da economia venezuelana. 

Após o episódio, Rússia e China, os dois principais aliados de Carecas neste momento, rechaçaram a ação e subiram o tom contra os Estados Unidos. 

Em uma reunião no conselho de Segurança da ONU, realizada na antevéspera do Natal, convocada a pedido da Venezuela, as duas nações saíram em defesa do governo Maduro. 

O representante chinês no Conselho de Segurança da ONU, Sun Lei, afirmou que a pressão militar de Washington contra Caracas fere o direito internacional e coloca em risco a segurança de toda a América Latina. 

“As ações dos Estados Unidos constituem uma grave violação da Carta da ONU e do direito internacional, ameaçando a paz e a segurança na América Latina e no Caribe”, afirmou Sun Lei.

Por sua vez, a Rússia alertou que as agressões à Venezuela não são pontuais e podem abrir o caminho para investidas contra outros países.

“Temos todos os motivos para acreditar que o que atualmente os EUA estão fazendo contra a Venezuela não é uma ação pontual. Trata-se de uma intervenção que pode se transformar em um modelo para futuras ações militares contra outros Estados latino-americanos”, disse Vassily Nebenzia, representante russo na ONU. 

Mas o governo Maduro sabe que – ao menos até este momento – teria de lutar com suas próprias forças em uma eventual guerra contra a maior potência bélica do mundo e, por isso, aposta na mobilização popular como uma das frentes de defesa.

“Essa é uma mensagem ao governo dos Estados Unidos, que se acham os ditadores do mundo. Nicolás Maduro tem o respaldo do povo venezuelano, e estamos na rua para mostrar isso”, disse, ao Brasil de Fato, a manifestante Erina Calderón, em uma marcha realizada no início de dezembro

Até mesmo setores da oposição – exceto aquele liderado por María Corina Machado – rechaçam as agressões de Washington e pregam unidade em torno de Nicolás Maduro. 

Para o deputado pelo PSVU, o partido da base governista, Juan Eduardo Romero, as raízes históricas que remetem ao período anterior à constituição do Estado Venezuelano explicam o porquê da guerra psicológica de Washington não ter colocado a população contra o governo Maduro. 

“Talvez a primeira resposta que possam dar seja: ‘Bom, mas é que essa é a pátria de Bolívar.’ Sim, é verdade. Esse é o primeiro elemento, mas, muito mais do que isso, é a carga caribenha que existe. Quando se observa o que foi o processo de penetração hispânica, chegaram aqui a partir de 1498 e só terminaram de nos derrotar em 1590, após quase 100 anos de resistência. Este é um povo que, em seu momento, derrotou os exércitos espanhóis que vinham de derrotar e expulsar o melhor exército do mundo, que era o exército de Napoleão.”

Como parte da estratégia de resistência, o governo de Nicolás Maduro tem intensificado os mecanismos de defesa a partir das comunas venezuelanas – que teriam um papel fundamental em uma eventual guerra de resistência. 

A deputada do PSUV Blanca Eekhout, presidenta da Comissão de Comunas da Assembleia Nacional, entende que esse modelo organizativo é um dos pilares de sustentação do governo Maduro neste momento de intensa pressão dos Estados Unidos. 

“É um povo governando, planejando, com consciência clara, e isso é determinante para defender a revolução. Eles assumem que o problema é Nicolás. Não, a revolução é sustentada pelo povo venezuelano, porque o povo exerce poder”, diz.

Não por acaso, o presidente Maduro chegou a anunciar como meta para 2026, o estabelecimento do “Governo de Transição Comunal ao Socialismo”

“É uma radicalização do que havíamos concebido e que passou por várias etapas, mas que de alguma forma foi interrompida pela agressão imperial, que nos colocou numa fase de resistência. Agora passamos à ofensiva, e passamos à ofensiva a partir das premissas fundamentais da Revolução Bolivariana, sendo uma delas o poder popular”, afirma Eekhout.

Apesar do foco total no estabelecimento de diferentes tipos de estratégias defensivas, a Venezuela continua, em meio ao caos, a trilhar seu caminho de recuperação econômica. 

Em outubro deste ano, o país registrou o 18º crescimento consecutivo de seu PIB. Além disso, de acordo com a Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Venezuela deve ter um crescimento de 6,5% em 2025, um dos índices mais altos de toda a região. 

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter