Em 2025, a Venezuela viveu quatro meses que valem por um ano inteiro.
Em meados de agosto, os Estados Unidos anunciaram o envio dos primeiros navios militares para o mar do Caribe, próximo à costa venezuelana.
Desde então, a Venezuela enfrenta uma pressão militar sem precedentes na história recente da América do Sul, o que obrigou o governo de Nicolás Maduro a concentrar praticamente todos os seus esforços na defesa do território nacional.
No fim de dezembro, a escalada das hostilidades ganhou um novo capítulo após Donald Trump afirmar publicamente, no último dia 29, que os Estados Unidos teriam realizado um ataque terrestre contra a Venezuela. A declaração foi feita sem apresentação de provas. Autoridades em Caracas afirmaram que não houve incursão por terra em território nacional e denunciaram a declaração como uma tentativa de justificar uma eventual ampliação das agressões, aumentando o clima de tensão e instabilidade na região.
O vice-ministro de Políticas Antibloqueio da Venezuela, William Castillo, afirmou que o episódio “parece falso”, embora o governo estivesse investigando o caso. “Não há confirmação oficial desse suposto ataque por parte da Casa Branca ou do Departamento de Defesa, tampouco foram divulgados detalhes”, declarou.
Apesar da tensão política, o cotidiano da capital, Caracas, parece não ter sido profundamente afetado pela escalada militar que ronda o país.
Um dos principais sinais dessa aparente normalidade é o comércio, que, durante o período natalino, manteve um ritmo intenso e, em certa medida, caótico por tamanha procura.
“Não se deve ficar tão assustado. É preciso estar prevenido, mas não com medo. Temos que seguir a vida normalmente. Trabalhar e nos distrair a cada oportunidade que tivermos, aproveitar o tempo com a família”, disse, ao Brasil de Fato, o motorista Daniel Ruda.

Mas o que não faltam são motivos para preocupação.
Desde setembro, os Estados Unidos vêm realizando ataques aéreos contra embarcações no mar do Caribe e no Oceano Pacífico, sob o pretexto de combater o narcotráfico. Sem a abertura de qualquer processo judicial contra os alvos dos mísseis estadunidenses, as ações já deixaram mais de 100 mortos.
Além disso, Washington deslocou uma frota considerável — incluindo o maior porta-aviões do mundo — para a costa venezuelana, e Donald Trump não descartou ataques por terra.
Diante desse cenário, o governo venezuelano e a população civil se organizaram para possíveis ataques.
O bairro 23 de Janeiro, que abriga a comuna Panal 2021, concentra o núcleo duro do chavismo. A direção da comuna mantém a atenção em níveis altos, já que entende que pode ser alvo de um eventual ataque de Washington.
“Podemos ser alvo de um ataque e isso faz com que o nosso povo tome suas medidas. Esse é um povo que aprendeu, que se organizou e toma suas medidas de segurança, vigilância e inteligência popular para tentar estarmos preparados para qualquer tipo de ataque ou de violência a que sejamos submetidos”, diz Camilo Tamayo, uma das lideranças locais.
A Casa Branca concentra sua pressão militar, principalmente, sobre os espaços aéreo – e mais recentemente – marítimos da Venezuela.
Em novembro, a administração Trump anunciou o fechamento do espaço aéreo do país, alegando risco de segurança – o que é considerado por Caracas como um ataque à soberania venezuelana. Como consequência do alerta, todas as companhias estrangeiras que operam voos na Venezuela suspenderam seus itinerários ao país.
No mês seguinte, a pressão por mar se intensificou. Desde meados de dezembro, navios que transportam o petróleo venezuelano viraram alvo de um bloqueio marítimo anunciado pelo governo Trump, em uma medida que visa a asfixia da economia venezuelana.
Após o episódio, Rússia e China, os dois principais aliados de Carecas neste momento, rechaçaram a ação e subiram o tom contra os Estados Unidos.
Em uma reunião no conselho de Segurança da ONU, realizada na antevéspera do Natal, convocada a pedido da Venezuela, as duas nações saíram em defesa do governo Maduro.
O representante chinês no Conselho de Segurança da ONU, Sun Lei, afirmou que a pressão militar de Washington contra Caracas fere o direito internacional e coloca em risco a segurança de toda a América Latina.
“As ações dos Estados Unidos constituem uma grave violação da Carta da ONU e do direito internacional, ameaçando a paz e a segurança na América Latina e no Caribe”, afirmou Sun Lei.
Por sua vez, a Rússia alertou que as agressões à Venezuela não são pontuais e podem abrir o caminho para investidas contra outros países.
“Temos todos os motivos para acreditar que o que atualmente os EUA estão fazendo contra a Venezuela não é uma ação pontual. Trata-se de uma intervenção que pode se transformar em um modelo para futuras ações militares contra outros Estados latino-americanos”, disse Vassily Nebenzia, representante russo na ONU.
Mas o governo Maduro sabe que – ao menos até este momento – teria de lutar com suas próprias forças em uma eventual guerra contra a maior potência bélica do mundo e, por isso, aposta na mobilização popular como uma das frentes de defesa.
“Essa é uma mensagem ao governo dos Estados Unidos, que se acham os ditadores do mundo. Nicolás Maduro tem o respaldo do povo venezuelano, e estamos na rua para mostrar isso”, disse, ao Brasil de Fato, a manifestante Erina Calderón, em uma marcha realizada no início de dezembro.
Até mesmo setores da oposição – exceto aquele liderado por María Corina Machado – rechaçam as agressões de Washington e pregam unidade em torno de Nicolás Maduro.
Para o deputado pelo PSVU, o partido da base governista, Juan Eduardo Romero, as raízes históricas que remetem ao período anterior à constituição do Estado Venezuelano explicam o porquê da guerra psicológica de Washington não ter colocado a população contra o governo Maduro.
“Talvez a primeira resposta que possam dar seja: ‘Bom, mas é que essa é a pátria de Bolívar.’ Sim, é verdade. Esse é o primeiro elemento, mas, muito mais do que isso, é a carga caribenha que existe. Quando se observa o que foi o processo de penetração hispânica, chegaram aqui a partir de 1498 e só terminaram de nos derrotar em 1590, após quase 100 anos de resistência. Este é um povo que, em seu momento, derrotou os exércitos espanhóis que vinham de derrotar e expulsar o melhor exército do mundo, que era o exército de Napoleão.”
Como parte da estratégia de resistência, o governo de Nicolás Maduro tem intensificado os mecanismos de defesa a partir das comunas venezuelanas – que teriam um papel fundamental em uma eventual guerra de resistência.
A deputada do PSUV Blanca Eekhout, presidenta da Comissão de Comunas da Assembleia Nacional, entende que esse modelo organizativo é um dos pilares de sustentação do governo Maduro neste momento de intensa pressão dos Estados Unidos.
“É um povo governando, planejando, com consciência clara, e isso é determinante para defender a revolução. Eles assumem que o problema é Nicolás. Não, a revolução é sustentada pelo povo venezuelano, porque o povo exerce poder”, diz.
Não por acaso, o presidente Maduro chegou a anunciar como meta para 2026, o estabelecimento do “Governo de Transição Comunal ao Socialismo”.
“É uma radicalização do que havíamos concebido e que passou por várias etapas, mas que de alguma forma foi interrompida pela agressão imperial, que nos colocou numa fase de resistência. Agora passamos à ofensiva, e passamos à ofensiva a partir das premissas fundamentais da Revolução Bolivariana, sendo uma delas o poder popular”, afirma Eekhout.
Apesar do foco total no estabelecimento de diferentes tipos de estratégias defensivas, a Venezuela continua, em meio ao caos, a trilhar seu caminho de recuperação econômica.
Em outubro deste ano, o país registrou o 18º crescimento consecutivo de seu PIB. Além disso, de acordo com a Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, a Venezuela deve ter um crescimento de 6,5% em 2025, um dos índices mais altos de toda a região.
