O ano de 2025 foi marcado por intensas disputas no cenário político brasileiro, com embates constantes entre os poderes e um Congresso de perfil cada vez mais conservador, o que impacta diretamente a agenda do governo federal.
“Um dos marcos importantes de 2025 é que o Congresso, e principalmente a Câmara dos Deputados, está orientado pelos partidos do centrão e pela figura de Hugo Motta (Republicanos-PB) como presidente, além de também ser orientado pelo deputado Arthur Lira (PP-AL), que atuou como um conselheiro no sentido de desgastar o governo federal”, contextualiza o cientista político Paulo Roberto de Souza.
Diante desse contexto, a relação entre o governo Lula e o Congresso demonstra os desafios para 2026. Essas tensões, que já sinalizam a pré-campanha eleitoral, entraram no centro do debate. Ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o especialista explica que as candidaturas da extrema direita e da oposição — como a possível candidatura do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) — têm a intenção de aumentar ainda mais o poder dessas forças no Legislativo, uma vez que o poder do centrão na Câmara dos Deputados está se consolidando desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT) em 2016.
“Inevitavelmente, tudo o que acontece a partir de janeiro, com o fim do recesso, terá cálculos muito mais preocupados com as eleições — presidenciais, legislativas e para governos. Em nível nacional, as presidenciais e legislativas são centrais. A tendência, na minha leitura, é que essa pressão do centrão tenda a diminuir paulatinamente”, avalia.
Por exemplo, em relação ao PL da Dosimetria, Souza aponta que a propensão por parte do presidente da república é vetar o projeto.
“Se a lei voltar ao Congresso e for então encaminhada ao STF, minha leitura é que o próprio Legislativo, ao derrubar os vetos, já fará algumas alterações. Estará pensando no calendário eleitoral e muito preocupado com as pressões e a exposição pública, que representam um custo político inevitável para o centrão”, acrescenta.
O cientista político lembra que o centrão é um grupo de partidos políticos conservadores que surgiu na Assembleia Nacional Constituinte, como herdeiros da antiga Arena, que era o partido da ditadura militar. “Sendo uma legenda mais conservadora e alinhada, obviamente, com a direita”.
“O segundo ponto é que esses partidos, apesar de ser de direita, eles têm muita preocupação com fazer parte do governo, independente de qual for e quais os termos forem como. Por exemplo, atualmente, é tamanha o poder deles, que participam do governo, mas também sentem muito à vontade para fazer pressão e muitas vezes votar contra esse governo no qual eles fazem parte”, destaca.
A partir desse cenário, o analista observa uma fragmentação no centrão, considerando diversos contextos, tanto regionais como de alinhamento à presidência da república ou com a oposição e isso, então, “mostra mais ou menos um cenário de como esse centrão vai se comportar nas eleições presidenciais”.
“Em decorrência dos números cada vez mais positivos que o governo vem conquistando, tanto economicamente, como socialmente e nas pesquisas de opinião, a tendência é que, apesar de rachado, em torno do apoio e oposição ao governo, isso tende a aumentar”, explica. E acrescenta: “Porque ninguém quer chegar ao risco de um possível governo Lula 4 sem capacidade de negociação, porque quem apoia tem maior capacidade de negociação e obviamente maior prioridade para que as suas demandas sejam atendidas”.
Avanço do centrão no Legislativo em 2026
Atualmente, o Congresso Nacional é considerado um dos mais retrógrados, como se vê nas pautas que apresenta. Além do PL da Dosimetria, também houve, por exemplo, o PL da Devastação, um projeto legislativo polêmico que visa alterar as normas de licenciamento ambiental no Brasil, permitindo a obtenção de licenças mais rápidas e automáticas para diversos empreendimentos, enfraquecendo a análise técnica e a fiscalização ambiental.
Para a nova legislatura que se inicia no próximo ano, o cientista político vê uma expectativa de mudança. Dada a fragilidade da extrema direita após a prisão de Jair Bolsonaro e suas disputas internas, a tendência é de avanço da representação do centrão no campo legislativo.
“Essa grande representação será tanto no Senado quanto, principalmente, na Câmara dos Deputados”, diz. “Porque os principais partidos do centrão atualmente têm concentrados nas suas mãos pouco mais de 5 mil prefeituras brasileiras. O que lhes concede um apoio e capacidade de organização para lançar novas candidaturas. Isso mostra uma tendência dessas legendas de tornar-se o maior fundo eleitoral”, pontua.
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