Nova tensão

Guerra da Ucrânia: nova crise nas negociações deixa paz mais distante

Moscou promete endurecer posição nas negociações após suposta tentativa de ataque ucraniano contra residência de Putin

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Imagens do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky
Imagens do presidente da Rússia, Vladimir Putin, e do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky | Crédito: Gavriil Grigorov / Nhac Nguyen / AFP

As negociações de paz sobre a guerra na Ucrânia voltaram a ficar estremecidas. Após avanços nas discussões, exatamente um dia após a reunião entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, quando o presidente dos EUA disse que os diálogos estavam em uma ‘fase final’, Moscou declarou na última segunda-feira (29) que a Ucrânia tentou realizar um ataque de drones contra a residência do líder russo, Vladimir Putin. Kiev negou as alegações, classificando-as como ‘mais uma mentira’ do Kremlin.

Inicialmente, o Ministério da Defesa russo relatou que as forças de defesa aérea do país abateram 91 drones ucranianos, 41 dos quais sobrevoavam a região de Novgorod, 49 a região de Bryansk e um a região de Smolensk. Não houve menção a alvos específicos. Em seguida, o chanceler russo, Serguei Lavrov, afirmou que a Ucrânia usou drones para atacar a residência do presidente russo, Vladimir Putin, em Valdai, na região de Novgorod. Na declaração do chanceler russo não foram apresentadas provas de que a residência do líder russo tivesse sido alvo das investidas de Kiev na região.

Posteriormente, o Chefe das Forças Antiaéreas da Rússia, Alexander Romanenko, publicou um mapa indicando detalhes do suposto plano ucraniano.

“Por volta das 19h20 do dia 28 de dezembro de 2025, unidades das tropas radiotécnicas das Forças Aeroespaciais detectaram um ataque aéreo utilizando veículos aéreos não tripulados do tipo aeronave, operando em altitudes extremamente baixas, a partir dos territórios das regiões de Sumy e Chernihiv, na Ucrânia”, afirmou o militar.

“A estrutura do ataque, o número de aeronaves de ataque mobilizadas e suas ações vindas do sul, sudoeste e oeste, diretamente em direção à residência do presidente russo na região de Novgorod, confirmam claramente que o ataque terrorista do regime de Kiev foi direcionado, cuidadosamente planejado e multifacetado”, acrescentou.

Para Zelensky, ‘uma farsa’

O presidente ucr’aniano, Volodymyr Zelensky, afirmou que Moscou pretende usar essas alegações como pretexto para atacar Kiev. Ele acrescentou que as acusações são “muito perigosas” e podem minar todas as conquistas nas negociações. Zelensky disse ainda que conta com o entendimento dos EUA sobre a sua versão dos fatos.

“Em relação ao ataque a Valdai, nossa equipe de comunicação, em contato com a equipe americana, analisou os detalhes e entendemos que se trata de uma farsa. E, claro, nossos parceiros sempre podem verificar, graças aos seus recursos técnicos, que foi uma farsa”, afirmou.

A principal consequência desta disputa de narrativas é que Moscou já anunciou que prepara uma retaliação e que vai endurecer a sua posição nas negociações sobre o fim do conflito. Na última terça-feira (30), o porta-voz da presidência da Rússia, Dmitry Peskov, declarou que a suposta tentativa de ataque das Forças Armadas da Ucrânia à residência do presidente Vladimir Putin fará com que Moscou endureça a sua posição nas perspectivas para as negociações de paz na Ucrânia.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fernando Brancoli, afirma que o caso revela a fragilidade do processo de paz.

“A Ucrânia acusa a Rússia de estar inventando este ataque, de que não faria sentido Kiev realizar uma movimentação bélica nesse sentido quando tem um acordo de paz sento costurado, inclusive com o Zelensky nos EUA há poucos dias. O argumento russo é que se trataria de uma movimentação ucraniana de demonstração de força, para demonstrar de alguma maneira que tem capacidade de atuar. Acho que isso se encaixa dentro de um debate mais amplo de o quão frágil a gente está dentro de uma discussão, de uma narrativa, para chegar a um acordo de paz”, afirma o analista.

As dificuldades para uma resolução, no entanto, vão além de acusações pontuais. As divergências entre Rússia e Ucrânia são mais profundas. Apesar de propostas mais concretas estarem em discussão, questões fundamentais como as garantias de segurança para a Ucrânia e o status dos territórios ocupados ainda estão sem perspectivas de acordo.

Ainda em outubro de 2022, a Rússia anunciou a anexação de quatro regiões do leste ucraniano – Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporozhye -, incorporando estes territórios formalmente na Constituição do país. No entanto, Moscou não possui controle pleno sobre estas regiões, exigindo, assim, a retirada das forças ucranianas das áreas que elas ainda ocupam como condição para o fim da guerra.

No último domingo (28), o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, se reuniram na Flórida. Eles discutiram um plano de paz de 20 pontos preparado por Kiev. Após a reunião, Trump pediu a aprovação acelerada do documento, alertando que, caso contrário, a Rússia continuaria seu avanço. A questão territorial sobre a região de Donbass permanece sem solução.

Já em relação à discussão sobre as garantias de segurança da Ucrânia, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou uma oferta para fornecer garantias de segurança de 15 anos, potencialmente prorrogáveis. No entanto, de acordo Fernando Brancoli, o mecanismo destas garantias de segurança ainda não estão claras.

“O grande ponto neste momento diz respeito às garantias de segurança. Trump tem afirmado que a Ucrânia pode contar com os EUA em um eventual acordo de paz para garantir que Kiev não volte a ser atacada por Moscou, não está muito certo ainda como isto vai ser feito, se Trump, por exemplo, poderia prometer que atacaria a Rússia no caso de um eventual ataque russo à Ucrânia, se vai mandar tropas, se continua o envio de material bélico, ninguém tem muita certeza de como esse processo vai ser feito”, afirma Fernando Brancoli.

Enquanto a Rússia exige a retirada total das tropas ucranianas do Donbass, Zelensky reconheceu a possibilidade de um referendo no país para definir a questão territorial, caso a Rússia concorde com um cessar-fogo de pelo menos 60 dias. Mas reforçou que um eventual recuo deveria ser mútuo.

De acordo com Zelenskyy, um cessar-fogo de 60 dias por parte da Rússia é o mínimo necessário para a realização de um referendo, cuja organização acarretaria “dificuldades políticas, logísticas e de segurança”. Moscou, por sua vez, rechaça a ideia de adotar um cessar-fogo sem que as “causas primárias” do conflito sejam resolvidas.

Em 14 de junho de 2024, o presidente russo declarou que se a Ucrânia retirar as suas tropas das regiões de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporozhye, anexadas pela Rússia durante a guerra, e recusar os planos de entrar na Otan, Moscou adotará “imediatamente um cessar-fogo” e iniciará negociações sobre a guerra da Ucrânia. Na ocasião, Kiev rejeitou a proposta. O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou em 19 de dezembro que Moscou está disposta a encerrar o conflito ucraniano pacificamente, mas sob as condições delimitadas pela Rússia em 2024.

“Na medida em que ao mesmo tempo que Zelensky e Putin argumentam que querem chegar a uma espécie de meio termo, as ofensivas continuam, os ataques permanecem, e a gente não tem muita certeza de que mesmo no final das contas cheguemos a um acordo minimamente factível para os dois lados para a Ucrânia e pra Rússia, se a médio prazo a gente conseguiria a algo que se mantivesse e seja funcional no final das contas”, analisa Brancoli.

Editado por: Luís Indriunas

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