Em entrevista concedida neste sábado (3) durante edição especial do programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o historiador Valério Arcary afirmou que o bombardeio dos Estados Unidos contra a Venezuela representa uma ruptura profunda no equilíbrio político da região e um ponto de inflexão para toda a América do Sul. Para ele, a escalada “muda tudo na América do Sul de hoje para amanhã”, subvertendo completamente a ordem regional.
“Sejamos lúcidos: tudo está subvertido”, alertou, ao classificar como “uma derrota histórica dramática para toda a América Latina” a possível transformação da Venezuela em um protetorado estadunidense.
O historiador também advertiu para as consequências regionais de uma eventual ocupação direta. “É dramático imaginar que o primeiro país independente possa se transformar num protetorado, num Estado dominado diretamente por Washington, como tentaram fazer no Afeganistão e no Iraque, e fracassaram”, afirmou.
Arcary analisou que esse episódio não afeta apenas a Venezuela, isoladamente, mas tem consequências diretas para os países vizinhos, especialmente o Brasil. Ele destacou que, apesar de ser o maior país da região em território, população e capacidade produtiva, o Brasil permanece estruturalmente dependente.
“O Brasil é o maior da região, pela dimensão territorial, pela população de mais de 205 milhões de habitantes, pela capacidade de produção de riqueza e pela autoridade que exerce diante das nações vizinhas. E, no entanto, é um país dependente”, afirmou.
Em nota, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela. Em declaração oficial, Lula afirmou que os bombardeios “ultrapassam uma linha inaceitável” e representam uma “afronta gravíssima à soberania” do país vizinho.
“Esses atos representam um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”, declarou o presidente. Lula também afirmou que o uso da força, em violação ao direito internacional, é o caminho para “um mundo de violência, caos e instabilidade”.
Por fim, Arcary avaliou que, neste momento, as forças progressistas no Brasil devem deixar de lado os debates sobre os erros e acertos do governo Maduro e concentrar sua energia na defesa da soberania dos países da América Latina.
“O que está em causa não é o julgamento que cada um de nós faz sobre os acertos e erros do governo Maduro. O que está em causa é o destino da nossa região, o nosso destino”, declarou. Ele alertou para o risco de a América Latina aceitar passivamente a consolidação de um enclave estadunidense no continente. “A questão é saber se vamos conviver com um enclave dos Estados Unidos na nossa região. É isso que está em jogo”, concluiu.
O que aconteceu?
Os Estados Unidos atacaram a Venezuela na madrugada deste sábado (3). O país vizinho ao Brasil emitiu um comunicado oficial rejeitando “a grave agressão militar perpetrada” pelos EUA “contra o território e a população venezuelana”. Os ataques, que começaram a ser registrados às 2h50, afetaram “localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira”.
A vice-presidenta da Venezuela, Delcy Rodríguez, também afirmou que o paradeiro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores é desconhecido. “Exigimos uma prova de vida imediata do presidente Nicolás Maduro e da primeira combatente Cilia Flores”, disse Rodríguez, em um áudio exibido pela TV estatal.
Mais cedo, o presidente estadunidense Donald Trump informou a captura de Maduro em uma rede social. “Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea”, escreveu.
Em outro momento, Trump publicou nas redes sociais uma suposta foto do presidente venezuelano preso, com os olhos vendados e usando abafador. Não há confirmação da veracidade da imagem.
O governo venezuelano afirmou, em nota, que “tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacionais, especificamente na América Latina e no Caribe, e coloca em sério risco a vida de milhões de pessoas”. De acordo com as autoridades, a ofensiva teria como objetivo a apropriação de recursos estratégicos do país.
“O objetivo deste ataque não é outro senão confiscar os recursos estratégicos da Venezuela, especialmente o seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política da Nação”, diz o texto.
