REPERCUSSÃO

Da América Latina à Ásia, países e estadistas condenam os ataques dos EUA contra a Venezuela, mas Europa fala em ‘cautela’

Rússia, Irã, México e China são alguns dos países que repudiaram ação militar

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Imagens noturnas de Caracas após os ataques deste sábado(03)
Imagens noturnas de Caracas após os ataques deste sábado(03) | Crédito: Federico PARRA / AFP

Os governos da China, Cuba, Colômbia, Rússia e Irã condenaram os ataques dos Estados Unidos à Venezuela, neste sábado (03). As manifestações ressaltam preocupações com a escalada do conflito e reforçam a necessidade de uma solução pacífica e multilateral para a crise venezuelana.

A China se pronunciou por meio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores e afirmou o país está chocado com os ataques contra a Venezuela. O governo Chinês condenou a veementemente “o uso flagrante da força pelos EUA contra um Estado soberano e o ataque ao seu presidente.” Os chineses cobraram que os EUA respeitem as normas internacionais.

“A China se opõe firmemente a isso. Exortamos os EUA a respeitarem o direito internacional e os propósitos e princípios da Carta da ONU, e a cessarem as violações da soberania e da segurança de outros países.”, apontou.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que “os pretextos dados para justificar tais ações são insustentáveis”. Moscou afirmou que a hostilidade triunfou sobre os negócios e defendeu que a América Latina seja uma área de paz.

Em nota na rede social X, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel afirmou que a “zona de paz da América Latina” foi “brutalmente assaltada”. O cubano classificou o ataque dos EUA como “terrorismo de Estado” e avaliou que as ações deste sábado(03) demandam “uma reação da comunidade internacional”.

Até a líder da extrema direita francesa, Marine Le Pen, também condenou os ataques. Ela publicou um texto na rede social X defendendo a soberania nacional da Venezuela. Mesmo fazendo algumas ressalvas sobre o presidente Maduro, Le Pen afirmou que “há uma razão fundamental para se opor à mudança de regime que os Estados Unidos acabaram de promover na Venezuela. A soberania dos Estados jamais é negociável, independentemente de seu tamanho, poder ou continente.”

Le Pen concluiu a nota afirmando que concordar com a ação dos EUA seria uma forma de aceitar a submissão dos franceses no futuro.

“Renunciar a esse princípio hoje, para a Venezuela, para qualquer Estado, seria equivalente a aceitar nossa própria servidão amanhã[…]Diante dessa situação, tudo o que podemos fazer é esperar que o povo venezuelano tenha voz o mais breve possível.”

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, também se manifestou sobre os ataques. Em texto publicado no X, o governo da Colômbia manifestou preocupação com relatos de explosões e movimentação aérea atípica na Venezuela, alertando para o risco de escalada das tensões na região.

Em nota oficial, Bogotá reafirmou seu compromisso com a soberania dos Estados e com a solução pacífica de conflitos, rejeitando qualquer ação militar unilateral. “O Governo colombiano rejeita qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar em risco a população civil.”

O país também anunciou medidas preventivas para proteger a população civil e garantir a estabilidade na fronteira colombo-venezuelana, além de manter abertos os canais diplomáticos e defender a apuração objetiva dos fatos em instâncias regionais e multilaterais, em nome da paz e da segurança na América Latina.

O presidente do Chile, Gabriel Boric, afirmou que seu governo condena as ações militares dos EUA em território venezuelano e fez um apelo por uma saída pacífica para a grave crise que afeta o país. Segundo Boric, o Chile reafirma seu compromisso com os princípios fundamentais do direito internacional, como a proibição do uso da força, a não intervenção, a solução pacífica de controvérsias e o respeito à integridade territorial dos Estados, defendendo que a situação seja resolvida por meio do diálogo e do multilateralismo, e não pela violência ou ingerência externa.

O governo do México condenou de forma enfática os ataques militares realizados pelos Estados Unidos contra alvos em território da Venezuela. Em comunicado divulgado neste sábado pela Secretaria de Relações Exteriores, a chancelaria mexicana classificou as ações como unilaterais e afirmou que elas representam uma violação flagrante do artigo 2º da Carta das Nações Unidas, que proíbe o uso da força nas relações internacionais.

Amparado em seus princípios históricos de política externa e em sua tradição pacifista, o México rejeitou qualquer tipo de intervenção armada e fez um apelo urgente pelo respeito ao direito internacional e pela cessação imediata de atos de agressão contra o governo e o povo venezuelanos.

O Irã, aliado estratégico do governo venezuelano, também condenou os ataques. O governo iraniano classificou o ataque como uma “violação flagrante da soberania nacional e da integridade territorial” da Venezuela. Teerã pediu que o Conselho de Segurança das Nações Unidas atue imediatamente para interromper o que chamou de “agressão ilegal” dos Estados Unidos.

União Europeia

Por outro lado, outros organismos reagiram com cautela e evitaram condenar explicitamente os ataques. A alta representante da União Europeia para Relações Exteriores, Kaja Kallas, reiterou que o bloco considera que Nicolás Maduro carece de legitimidade e defende uma transição pacífica no país, destacando que, em qualquer circunstância, os princípios do direito internacional e da Carta da ONU devem ser respeitados.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, endossou a posição, afirmando que a UE está ao lado do povo venezuelano e apoia uma transição pacífica e democrática, com respeito às normas internacionais.

O governo espanhol se colocou para mediar as relações entre os EUA e a Venezuela. Além disso, pautou a moderação e uma diminuição da agressividade contra Caracas.

Em texto publicado neste sábado, o Conselho Editorial do The New York Times, veículo de comunicação que ecoa as temperaturas políticas de Washington, discordou dos ataques comandados pelo presidente Trump, mesmo se colocando contra o governo Maduro, na Venezuela. O texto do jornal diz que estas investidas não promovem o resultado esperado e listou uma série de intervenções anteriores que foram desastrosas.

“Se há uma lição fundamental a ser aprendida com a política externa americana no último século, é que tentar derrubar até mesmo o regime mais deplorável pode piorar ainda mais a situação.”

Reação dos movimentos populares

Movimentos populares da América Latina reagiram com dureza aos ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela na madrugada de 3 de janeiro, classificando a ofensiva como uma grave agressão à soberania do país.

Em nota, a ALBA Movimentos afirmou que os bombardeios a alvos civis e militares em Caracas e em outros estados venezuelanos violam a Carta das Nações Unidas e representam uma ameaça direta à paz e à estabilidade da região, denunciando que a ação teria como objetivo o controle de recursos estratégicos, como petróleo e ouro, dentro de uma lógica colonial de intervenção e mudança de regime.

Na mesma linha, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) avaliou que os ataques são o ponto culminante de uma longa sequência de agressões do imperialismo à Venezuela, expressou solidariedade ao povo venezuelano e acusou o governo de Donald Trump de promover atos de guerra para tentar derrotar a Revolução Bolivariana, por meio de embargos, boicotes e uma escalada militar recente, incluindo a mobilização de navios, aeronaves e fuzileiros navais dos EUA.

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também repudiou os ataques, por meio de nota, publicada neste sábado. No texto, a organização sindical brasileira expressa que “tais acontecimentos não representam apenas um ataque a uma nação soberana, mas uma afronta direta à estabilidade democrática de toda a nossa região e aos princípios fundamentais do Direito Internacional.”

A CUT também expressou solidariedade à classe trabalhadora venezuelana. Segundo a entidade, os trabalhadores são sempre os mais afetados “por bloqueios, sanções e intervenções militares que desestabilizam a economia, destroem postos de trabalho e precarizam a vida.”

A central sindical também defendeu a autodeterminação, a soberania dos povos e os direitos humanos.

“Não aceitaremos que a força se sobreponha ao diálogo e que a soberania de um povo irmão seja atropelada. A luta por democracia, paz e justiça social é internacional e indivisível.”, finalizou.

O Partido Socialismo e Liberdade (Psol) condenou os ataques contra a Venezuela e defendeu o governo de Nicolás Maduro. Na nota, o partido fez um histórico das hostilidades contra Caracas e conclamou a sociedade para a construção de uma estratégia em defesa da unidade política na América Latina

“É urgente encerrar os ataques à Venezuela. Exigimos informações sobre a situação de Maduro e Cilia, além da sua libertação! Mais do que nunca, é necessário construir uma estratégia de integração latino americana para resistir à ofensiva imperialista norte-americana.”

Editado por: Luís Indriunas

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