Imperialista

Especialistas apontam padrão histórico em ataque dos EUA e sequestro de Maduro na Venezuela

Analistas afirmam que ofensiva contra o governo venezuelano repete lógica de intervenções na América Latina

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O presidente dos Estados Unidos Donald Trump
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump | Crédito: Brendan Smialowski/AFP

O sequestro do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e os ataques dos Estados Unidos ao país se inserem em um padrão histórico de atuação estadunidense na América Latina, segundo o especialista em comunicação política Amauri Chamorro. 

Em entrevista ao Brasil de Fato, Chamorro afirmou que a operação atual remete a episódios anteriores de intervenções diretas na região, como a prisão do então presidente do Panamá, também em 3 de janeiro, em 1990, conduzida por forças dos Estados Unidos.

“Não sabemos se há uma coincidência nessa operação, nessa mesma data, ou se realmente foi proposital para gerar mais um fato comunicacional que aumenta essa narrativa dos Estados Unidos de mostrar que são capazes de qualquer coisa, e que o Brasil, a Venezuela, a Colômbia, o México, a Argentina, qualquer país da América Latina ou qualquer país do Caribe estará subordinado às suas decisões”, afirma Chamorro. 

Na sua avaliação, há uma normalização do uso da força como instrumento de política externa, em um cenário de imposição de uma ordem baseada no poder militar.

O especialista cita intervenções e ações diretas em países como México, Chile, Equador, Panamá, República Dominicana, Nicarágua, Guatemala e Honduras, além de episódios fora da América Latina, como na África e no Oriente Médio. 

“Sempre foi assim, desde que os Estados Unidos nasceram como país, quando roubaram mais da metade do território mexicano. Os Estados Unidos não tinham saída para o Pacífico. Em 1870, os Estados Unidos roubaram todo o norte do México. Ou seja, metade do território dos Estados Unidos era território mexicano que foi roubado em 1870. A partir daquele momento, os Estados Unidos começaram a invadir e a ter presença e controle na América Latina e no Caribe para seu benefício próprio”, explica Chamorro.

Para o especialista, a diferença entre as intervenções citadas e o ataque direto de hoje contra a Venezuela está na velocidade de circulação das informações, impulsionada pelas redes sociais, o que torna os conflitos mais visíveis, sem que isso represente uma mudança substantiva na lógica das intervenções.

“Hoje cai um míssil, alguém vai filmar a queda do míssil ou o incêndio sobre o prédio, e imediatamente vai estar no Instagram. Então, a velocidade com que acompanhamos os fatos é o que mudou e dá a impressão de que é maior. Porém, isso sempre aconteceu”, diz. 

Para Gilberto Maringoni, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC e coordenador do Grupo de Estudos da América Latina e Caribe, o ineditismo repousa na ação direta dos Estados Unidos contra um país da América Latina.

“É um dia dramático, é um dia de uma brutalidade extrema dos Estados Unidos, algo inédito na América do Sul, que os Estados Unidos nunca invadiram, nunca bombardearam, nem atacaram diretamente um país aqui da parte sul do continente”, explicou. 

“Na América do Sul, os Estados Unidos sempre se articularam com setores internos, com setores golpistas, com setores que vão assediando as Forças Armadas, a extrema direita política e a Igreja Católica para fazer brotar de dentro, para simular que brota de dentro, um intento ou uma ruptura institucional”, diz o professor ao citar os golpes militares ocorridos no Brasil em 1964, no Chile em 1973 e na Argentina em 1976.

O que aconteceu

Os Estados Unidos atacaram a Venezuela na madrugada deste sábado (3). O país vizinho ao Brasil emitiu um comunicado oficial em que condena “a grave agressão militar perpetrada” pelos EUA “contra o território e a população venezuelana”. Os ataques, que começaram a ser registrados às 2h50, afetaram “localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e dos estados de Miranda, Aragua e La Guaira”.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodriguez, também afirmou que o paradeiro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores é desconhecido e exigiu uma “prova de vida”. Na tarde deste sábado, uma suposta imagem de Maduro preso foi divulgada por Donald Trump na rede social Truth Social.

Mais cedo, o presidente estadunidense Donald Trump informou a captura de Maduro em uma rede social. “Os Estados Unidos da América realizaram com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e seu líder, o presidente Nicolás Maduro, capturado, juntamente com sua esposa, e retirado do país por via aérea”, escreveu.

O governo venezuelano afirmou, em nota, que “tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacionais, especificamente na América Latina e no Caribe, e coloca em sério risco a vida de milhões de pessoas”. De acordo com o comunicado oficial, a ofensiva teria como objetivo a apropriação de recursos estratégicos do país.

“O objetivo deste ataque não é outro senão confiscar os recursos estratégicos da Venezuela, especialmente o seu petróleo e minerais, tentando quebrar pela força a independência política da Nação”, diz o texto.

Editado por: Geisa Marques

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