O futebol feminino do Fortaleza Esporte Clube deu orgulho à sua torcida em 2025. A equipe conquistou o tão sonhado acesso à Série A1 do Campeonato Brasileiro, foi campeã cearense, campeã da primeira edição da Copa Maria Bonita e disputou a Copa do Brasil Feminina. Mais do que títulos, o dado mais simbólico da temporada é este: o time encerrou o ano invicto. Uma campanha histórica, rara no futebol nacional, que evidencia consistência esportiva e excelência no trabalho desenvolvido.
A base feminina também apresentou avanços expressivos. As equipes Sub-17 e Sub-20 participaram dos Campeonatos Brasileiros de suas categorias, demonstrando evolução técnica e competitiva. O time Sub-17 foi bicampeão cearense diante do principal rival estadual, consolidando o Fortaleza como referência regional na formação de atletas.
O reconhecimento nacional veio por meio das convocações para as seleções brasileiras de base. Cinco atletas do Fortaleza foram chamadas para as seleções Sub-15, Sub-17 e Sub-20 em 2025, indicador objetivo da qualidade do projeto. A atacante Greise, formada no clube desde os 12 anos, foi convocada para a Seleção Brasileira Sub-15 — conquistando o título da Conmebol Liga Evolução — e para a Seleção Sub-17. A atacante Ravenna disputou o Sul-Americano Sub-17, participou da campanha que garantiu o Brasil no Mundial da categoria e, posteriormente, foi chamada para a Seleção Sub-20. A atacante Tainá integrou a Seleção Sub-20; a zagueira Maria Eduarda foi convocada para a Seleção Sub-17; e a meia Érika vestiu a camisa da Seleção Sub-20.
Com esse conjunto de resultados, é possível afirmar que 2025 representou a melhor temporada da história do futebol feminino do Fortaleza. Mais do que conquistas pontuais, houve clara elevação de patamar do time profissional e das categorias de base no cenário nacional. Esse desempenho foi construído por meio do esforço coletivo de atletas, famílias, comissões técnicas e profissionais administrativos, com compromisso, planejamento e responsabilidade institucional.
Além do impacto esportivo interno, a trajetória do futebol feminino do Fortaleza foi decisiva para o fortalecimento da modalidade no estado do Ceará, especialmente a partir de 2022 e 2023, contribuindo para a elevação do nível competitivo das competições organizadas pela Federação Cearense de Futebol (FCF). O clube tornou-se um polo de desenvolvimento do futebol feminino no estado, com reflexos diretos na formação de atletas.
É justamente diante desse contexto que se impõe uma crítica firme e necessária. A decisão de encerrar o futebol feminino do Fortaleza interrompe e descarta uma construção institucional coletiva que levou anos para ser consolidada. A justificativa de “readequação orçamentária”, após o rebaixamento do time masculino, revela ausência de visão estratégica e de compromisso com um projeto esportivo de longo prazo.
Levantamentos indicam que o investimento no futebol feminino representa, em média, entre 1% e 2% do orçamento anual dos clubes brasileiros. Esse percentual não resolve desequilíbrios financeiros estruturais, mas o encerramento do projeto destrói um ativo esportivo, institucional e humano já consolidado.
O futebol feminino vive um ciclo global de crescimento acelerado. Em 2024, as receitas dos principais clubes femininos ultrapassaram € 100 milhões de euros, com crescimento de 35% em relação ao ano anterior. A Copa do Mundo Feminina de 2023 gerou impacto econômico global de US$ 1,9 bilhão de dólares, e a FIFA projeta US$ 1 bilhão em receitas para o Mundial de 2027, que será sediado no Brasil. O número de mulheres e meninas praticando futebol organizado cresceu 24% entre 2019 e 2023, e a meta é atingir 60 milhões de jogadoras até 2027.
No Brasil, o interesse pelo futebol feminino aumentou 34% nos últimos cinco anos. A audiência do Brasileirão Feminino cresceu 41%, e mais de 73% da população avalia positivamente a Seleção Feminina. O país responde por quase 16% das transferências internacionais de jogadoras, sendo o segundo maior exportador de talento do mundo. O Fortaleza já faz parte dessa cadeia global, ao formar atletas convocadas para seleções nacionais de base.
Encerrar o futebol feminino às vésperas da Copa do Mundo de 2027 significa abrir mão de visibilidade, patrocínios, retorno esportivo e protagonismo institucional. Enquanto o mundo investe no futebol feminino como futuro, tratá-lo como custo é um retrocesso.
As perdas dessa decisão não aparecem no balanço financeiro: perda de credibilidade como clube formador, quebra de confiança com atletas e famílias, enfraquecimento do futebol feminino no estado e destruição de uma cultura esportiva construída ao longo de anos. Reconstruir custa mais caro do que manter.
Um clube que se assume como formador não escolhe gênero, escolhe continuidade, responsabilidade social e visão de futuro. Diante dos dados, dos resultados esportivos e do cenário global, torcemos para que essa decisão seja revista. Em 2025, o Fortaleza feminino venceu. Agora, é hora de lutar para não retroceder.
* Eduardo Machado é Sociólogo e Professor da Unilab e Lívia Osterne é Engenheira Civil formada pela UFC.
** Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
:: Clique aqui para receber notícias do Brasil de Fato Ceará no seu Whatsapp ::
