MEMÓRIA E VERDADE

Memorial a Ernesto Geisel é desativado na Universidade de Caxias do Sul e devolvido à prefeitura de Bento Gonçalves

Pressão e ação do Ministério Público Federal obrigou a UCS a acabar com homenagem ao ex-ditador

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O general Ernesto Geisel foi presidente de Brasil entre 1974 e 1979
O general Ernesto Geisel foi presidente de Brasil entre 1974 e 1979 | Crédito: Arquivo Nacional/Divulgação

O Ministério Público Federal (MPF) ganhou a queda de braço e o memorial em homenagem ao ditador Ernesto Geisel, o quarto ditador militar do Brasil (1964-1985), depois de Castelo Branco, Costa e Silva e Garrastazú Médici, saiu das dependências da Universidade de Caxias do Sul (UCS) – estava na Biblioteca do campus de Bento Gonçalves. Inaugurado em 19 de novembro de 2025, o memorial foi desativado e devolvido à prefeitura da cidade diante de uma ação civil pública do MPF. Geisel governou o Brasil de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979.

Três dias depois da inauguração, o MPF entrou com uma recomendação para que o local fosse eliminado. Não foi atendido e decidiu entrar com uma ação civil pública na Justiça. O órgão considera que o memorial enaltecia um agente responsável por graves violações de direitos humanos, configurava uma violação direta aos direitos à memória e à verdade, além de afrontar a dignidade das vítimas do regime militar e os princípios democráticos que regem o país. E pediu que no local fosse construído um memorial para lembrar as vítimas da ditadura.

MPF lembrou a política de desaparecimentos políticos no governo Geisel, torturas e perseguições a cidadãos que contrariassem o regime, violações permanentes dos direitos humanos, “incompatível com o ordenamento jurídico brasileiro”. O órgão argumentou que Geisel é identificado no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) como um dos responsáveis por graves violações de direitos humanos.

Posição da UCS

Memorial é dedicado a Ernesto Geisel na Universidade de Caxias do Sul (RS), no campus de Bento Gonçalves
Memorial é dedicado a Ernesto Geisel na Universidade de Caxias do Sul (RS), no campus de Bento Gonçalves
| Crédito: Hélio Alexandre / Haos BG / Divulgação

A UCS, contrariada, explicou que o acervo do Memorial Ernesto Geisel era preservado pela comunidade de Bento Gonçalves e estava instalado na antiga residência do ex-presidente, chamada de Casa Geisel, desde 2019. Contudo, precisou ser realocado por conta da deterioração do local e instalado na biblioteca da universidade.

A temática do acervo, segundo alegou a UCS, não possui elogios, discursos celebrativos ou elementos de promoção ou culto à personalidade do ex-presidente. A figura de Ernesto Geisel aparece apenas como referência temporal e institucional da Presidência da República, nos limites para explicar o contexto histórico. Ao final, concordou com o MPF para evitar maiores críticas e polêmicas.

Bento Gonçalves

Agora, a assessoria da prefeitura de Bento informa apenas que o memorial está “armazenado” no município após a devolução. Em nota, o Executivo afirma que “é um material histórico, de um cidadão nascido em Bento Gonçalves, que se tornou presidente do Brasil“.

Jair Bolsonaro (PL) recebeu 55.971 votos no segundo turno em 2022 em Bento Gonçalves, o equivalente a 75,80% do total da cidade. Já Lula (PT) foi a escolha de 24,20% dos eleitores e recebeu 17.873 votos.

A expografia na biblioteca da UCS foi coordenada pela historiadora e produtora cultural Angela Marini, e tinha como foco o desenvolvimento dos programas científicos empreendidos na gestão de 1975 em diante como o Programa Pró Álcool, de Desenvolvimento dos Cerrados (incentivando a agricultura naquela região) e o Programa Nuclear.

Para abranger o recorte histórico, foi criado painel com textos, fotografias, documentos sobre os programas, além de curiosidades sobre o presidente Geisel, como cartas, passaportes, tendo sido o primeiro chefe de Estado a fazer viagem diplomática ao Japão.

A realização era uma parceria entre a Fundação Educacional da Região dos Vinhedos (Fervi), Campus Universitário da Região dos Vinhedos (Carvi/UCS) e Fundação Katsuzo Yamamoto.

A prefeitura lembra que Ernesto Geisel foi o 29º presidente do Brasil, era filho de imigrantes luteranos alemães – pai prussiano e mãe bávara (Alemanha), estudou no Colégio Martin Luther de Estrela e no Colégio Militar de Porto Alegre. Ele nasceu em 3 de agosto de 1907 em Bento Gonçalves, mas segundo pesquisadores há controvérsias e alguns dizem que foi em 1908. Teve dois filhos: Orlando, que faleceu precocemente aos 16 anos em um acidente de trem, e Amália Lucy, que faleceu em 2022.

A sua formação foi na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (1941–1943), era do partido Aliança Renovadora Nacional (Arena). Militar de formação ortodoxa rígida e temperamento autoritário e autoconfiante, Ernesto Geisel protagonizou a distensão da ditadura.

O ditador queria esse abrandamento de forma ‘lenta, gradual e segura’, como proclamava. Mas suas decisões políticas foram sempre radicais, de extrema dureza contra as resistências à esquerda e à direita. Ele cassou mandatos parlamentares, pôs o Congresso em recesso, impôs uma reforma do Poder Judiciário, interveio em Assembleias e Câmaras e assistiu ao ‘desaparecimento’ de pelo menos metade da cúpula do Partido Comunista, ao mesmo tempo em que destituiu chefes militares envolvidos na tortura de civis.

Resumo sobre governo Geisel

•             O governo Geisel teve início em 1974 e durou até 1979, no contexto de Ditadura Militar no Brasil.

•             O principal objetivo do governo Geisel era promover uma abertura política lenta e controlada, mantendo o regime militar no poder.

•             Também buscava estimular o crescimento econômico por meio de investimentos estatais e diminuir a dependência comercial do Brasil em relação aos Estados Unidos.

•             O governo Geisel promoveu o II Plano Nacional de Desenvolvimento, implementou a distensão com controle militar e expandiu o ensino técnico.

•             Geisel enfrentou crise econômica e crescente oposição ao seu governo.

•             Em 1978, o governo Geisel revogou o AI-5.

•             Foi no governo Geisel que se iniciou o processo de abertura política que culminaria na redemocratização do Brasil.

•             Seu governo ficou também marcado pela morte do jornalista Vladimir Herzog no DOI-Codi de São Paulo.

•             Em seu primeiro ano no cargo, permitiu a propaganda política da oposição e aboliu a censura prévia à imprensa, mas não dava entrevistas.

•             Em 1978, enfrentou a primeira greve, dos metalúrgicos do ABC Paulista, liderada por Luiz Inácio Lula da Silva.

•             Em 15 de março de 1979, entregou o cargo para João Baptista Figueiredo. Ainda foi o presidente da Norquisa-Nordeste e do Conselho de Administração da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene).

•             Morreu em 12 de setembro de 1996 no Rio de Janeiro, vítima de câncer, após uma longa batalha contra a doença. Seu falecimento foi marcado por honras militares, refletindo seu papel de chefe de Estado, mas sua família optou por cerimônias mais discretas.

Editado por: Katia Marko

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