ANÁLISE

Zema diz que Maduro destruiu a economia venezuelana; com ele, dívida de MG dobrou de tamanho

Posicionamento de Zema é lido por analista como alinhado ao discurso norte-americano e desconectado da realidade

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A fala ocorre em meio a uma grave escalada do conflito, marcada por uma ofensiva militar dos Estados Unidos
A fala ocorre em meio a uma grave escalada do conflito, marcada por uma ofensiva militar dos Estados Unidos | Crédito: Luiz Santana / ALMG

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), voltou a provocar reação negativa, ao se posicionar publicamente sobre a crise na Venezuela. Em declaração divulgada nas redes sociais, Zema afirmou esperar que “a queda de Nicolás Maduro” permita que o povo venezuelano “reencontre paz, estabilidade e o caminho do desenvolvimento”, atribuindo ao chavismo o isolamento do país, a destruição da economia e a expulsão de milhões de cidadãos. 

A fala ocorre em meio a uma grave escalada do conflito, marcada por uma ofensiva militar dos Estados Unidos e pelo sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da primeira-dama, Cilia Flores.

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No domingo (4), milhares de venezuelanos foram às ruas de Caracas em protestos pacíficos para exigir a libertação de Maduro e denunciar o ataque à soberania nacional. As manifestações, que começaram ainda no sábado (3) se espalharam por diferentes regiões da capital e foram acompanhadas por atos de solidariedade em diversos países, incluindo Estados Unidos, Reino Unido, Argentina, México, Chile, Brasil e Cuba. 

Os manifestantes rejeitam a intervenção estrangeira e apontam a ofensiva liderada por Washington como parte de uma política histórica de hostilidade contra a Venezuela.

Enquanto a mobilização popular denuncia a ingerência externa, o posicionamento de Zema foi lido por analista como alinhado ao discurso norte-americano e desconectado da realidade internacional, além de contraditório com a situação econômica de Minas Gerais.

Contradições entre o discurso internacional e a realidade mineira

Ao afirmar que o chavismo “destruiu a economia” venezuelana, Zema é acusado de ignorar fatores centrais da crise no país vizinho, especialmente o impacto das sanções impostas pelos Estados Unidos desde 2015. Para o economista Weslley Cantelmo, doutor pelo Cedeplar/UFMG, a fala do governador mineiro revela “desinformação ou má-fé”.

“Na medida em que ele afirma que o chavismo isolou a Venezuela do mundo e destruiu a economia, na verdade, de maneira premeditada ou não, ele esconde o fato de que os Estados Unidos impõem, pelo menos desde 2015, de maneira sistemática, um pacote superagressivo de sanções econômicas e políticas sobre o país”, explica. 

Segundo o economista, essas medidas incluíram bloqueios à estatal petrolífera PDVSA, restrições à comercialização de petróleo e à emissão de títulos da dívida venezuelana, criando artificialmente um cenário de colapso econômico e social.

A crítica ganha ainda mais peso quando confrontada com a gestão de Zema em Minas Gerais. Sob seu governo, a dívida do Estado com a União praticamente dobrou, saltando de R$ 88,7 bilhões em 2019 para R$ 177,5 bilhões em 2025. O período também foi marcado pelo aumento da sonegação fiscal e pela concessão de benefícios a grandes setores empresariais, como mineradoras e locadoras de veículos. 

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“Zema demonstra um mau-caratismo ligado à sua já notória falta de conhecimento ou erudição, que é típico das manifestações dele nas redes sociais. O que de fato empobreceu a Venezuela e levou a uma crise social e humanitária no país, antes de serem erros que podem, inclusive, ter ocorrido na gestão econômica, são resultados e expressões do bloqueio norte-americano”, afirma.

Para Cantelmo, esse é um modus operandi já conhecido dos Estados Unidos: aplicam sanções econômicas a fim de criar uma situação de caos e desestabilização política e social no país alvo. 

“No caso da Venezuela, levou a uma crise humanitária com refugiados sendo acolhidos em diversos países da América do Sul e do mundo, e a um fortalecimento da oposição em função dessa crise. Ainda assim, o regime chavista conseguiu manter um nível considerável de coesão social e de apoio político ao projeto da Revolução Bolivariana”, sinaliza. 

“Liberdade” sob controle estrangeiro

Outro ponto que gerou críticas foi a defesa feita por Zema de que a Venezuela deveria se “abrir novamente, com liberdade, responsabilidade, democracia e oportunidades”. 

Na avaliação do economista, o discurso de Zema se insere mais em uma estratégia política interna do que em uma análise consistente da realidade venezuelana. 

“Essa retórica anti-chavista agrada um público específico, alinhado ao bolsonarismo, que ele tenta conquistar para se projetar nacionalmente, seja como possível candidato ou como figura influente desse campo político”, afirma o especialista.

Fragilidade diplomática 

Para Cantelmo, o posicionamento de Zema sobre a Venezuela expõe também limites importantes de sua capacidade diplomática. 

“Primeiro que esse grupo do qual o Zema faz parte, assim como Bolsonaro e eu incluiria também o Tarcísio de Freitas, não tem preocupação alguma com a prática da diplomacia e com toda a tradição que o Brasil possui, simplesmente porque representam um grupo político que não tem um projeto para o país”, pondera. 

Para ele, o projeto que tais lideranças políticas defendem é, na verdade, um projeto  estrangeiro do qual são simplesmente apêndices, ou seja, pessoas que vão, enquanto grupo, ter ganhos em função da exploração estrangeira do país, atuando como uma espécie de intermediários. 

“Irão receber os seus ganhos políticos e econômicos em função do aprisionamento e da exploração do país. São, de fato, traidores. E todo traidor trai porque recebe alguma recompensa a partir da traição. Esse projeto estrangeiro é justamente o projeto norte-americano ao qual eles se alinham automaticamente”, critica. 

Nesse sentido, a fala de Zema, segundo Cantelmo, revela que o governador não tem preocupação com uma prática diplomática avançada ou sofisticada, uma vez que, para ele e para o seu grupo, basta um alinhamento automático, retórico e político, sem problematização das relações com os Estados Unidos. 

“É o exemplo do que já temos visto inclusive na Argentina, uma prática feita pelo Milei. É, de fato, um vassalo. Poderíamos até fazer uma alusão de que a forma política de atuação de Zema, Tarcísio de Freitas, Milei e Bolsonaro é uma forma medieval. Enquanto vassalos do reino maior, do representante maior do reino, eles se colocam como espécies de pretensos barões que vão participar da distribuição da riqueza concentrada nas mãos do rei, no caso, o império norte-americano”, finaliza.

Outro lado

O Brasil de Fato MG entrou em contato com o governo para posicionamento, mas não obteve respostas até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestações. 

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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