O Carnaval de Olinda, uma das maiores festas populares do planeta, hoje abriga muitos sons e ritmos. Mas o carro-chefe do embalo pelas ladeiras permanece nas mãos de seu grande Patrimônio Imaterial da Humanidade: o frevo.
Atualmente, as agremiações, grandes responsáveis por colocar o ritmo nas ruas – e, consequentemente, ser uma espinha dorsal do festejo de Momo – enfrentam desafios de ordem urbanística, financeira e cultural para continuarem a fazer pulsar o coração rítmico do carnaval. Diante deles, recorreram a uma das eficientes estratégias para lutar por seus anseios: a organização coletiva.
Assim foi fundada a Associação das Agremiações de Frevo de Olinda (Afrevo), que começou suas atividades oficialmente no último mês de dezembro, lançando um manifesto após uma série de encontros e conversas de anos que culminaram na formação da organização.
“A história de Olinda e do Frevo se confundem. Mas nada disso se sustenta sem cuidado, organização e ação coletiva”, diz um trecho do manifesto. “Diante dos desafios do presente, torna-se urgente fortalecer institucionalmente as agremiações de frevo de Olinda, de reforçar sua representação coletiva e de ocupar, com legitimidade digna de sua força, os espaços de diálogo e decisão”, continua o texto, publicado nas redes da Afrevo.
Compõem a diretoria da associação agremiações incontornáveis para o carnaval olindense. Patrimônios Vivos de Pernambuco, como o Homem da Meia-Noite, Cariri Olindense, Vassourinhas, Pitombeira dos Quatro Cantos e Elefante de Olinda, ao lado de outras troças, clubes e blocos emblemáticos, tais quais Ceroula, Minhocão, John Travolta, Lenhadores, Boi da Macuca, O Menino da Tarde, Trinca de Ás, Tá Maluco e outras importantes agremiações, que vão se somando a cada dia na composição da Afrevo.

“A frase que nos representa é ‘o frevo pelo frevo’. Várias outras manifestações e envolvidos no carnaval e na cultura de Olinda têm associações, dos maracatus aos comerciantes ambulantes. Apesar de o frevo ser o carro-chefe da festa, não tínhamos uma representação coletiva, perdendo espaço e com o diálogo de nossos anseios enfraquecido”, afirma Sandro Valongueiro, presidente da associação e diretor-executivo do Minhocão de Olinda. “Somos um elo que envolve muita gente que trabalha na ponta, músicos, passistas, manipuladores de bonecos, aderecistas, então precisamos trabalhar coletivamente pela sobrevivência disso”, complementa Valongueiro.
A associação já começa a se movimentar em prol dessa representatividade e abertura de diálogo, realizando reuniões com o Poder Executivo do município e levando os pontos discutidos democraticamente nas assembleias, sempre com consenso de todas as agremiações envolvidas.
A Afrevo também espera poder participar da Comissão Permanente do Carnaval de Olinda, onde representantes do poder público e da sociedade civil debatem os caminhos do festejo.
Uma das pautas que a associação quer discutir com o poder público é o ordenamento urbano da cidade nos dias de carnaval. As agremiações realizam seus desfiles embaladas pela força física de seus músicos, que hoje precisam competir com paredões móveis que circulam pela ladeira, minando o som das orquestras e gerando transtornos de circulação. Soma-se a isso a necessidade de um disciplinamento estratégico do comércio informal e da presença de veículos no Sítio Histórico de Olinda.
Outra questão que a Afrevo quer debater mais a fundo se refere ao financiamento público das agremiações para tornar suas cadeias produtivas cada vez mais sustentáveis. O debate desse aspecto se refere tanto ao ajuste de valores, diante das responsabilidades que as agremiações carregam para fazer o carnaval acontecer, mas também aos prazos dos pagamentos.
Muitas agremiações encontram-se com valores a receber da Prefeitura ainda referentes ao carnaval passado, com a festa deste ano já batendo na porta. No final de 2025, a Câmara dos Vereadores de Olinda aprovou uma emenda à Lei do Carnaval que obriga a Prefeitura de Olinda a pagar os cachês do carnaval em até 45 dias após a festa.
“Não estamos inventando a roda, estamos falando de problemas há muito conhecidos por quem faz o Carnaval de Olinda. Queremos buscar um compromisso de engajamento na solução dessas questões”, afirma o presidente da Afrevo. “As ideias que trazemos não são individualistas sobre as agremiações, vão no caminho do melhor para o carnaval como um todo, assim como para a cultura e a renda da cidade”, conclui.
