O ano de 2025 escancarou os limites da política ambiental de Minas Gerais diante do avanço da emergência climática. Mesmo com uma redução pontual nos registros de incêndios e no desmatamento, em relação ao recorde negativo de 2024, o estado segue entre os líderes nacionais em queimadas, perda de vegetação nativa e aumento das temperaturas, com impactos diretos sobre o clima, a água e a qualidade de vida da população.
Para entender o que, de fato, mudou em intensidade e frequência dos eventos extremos, quais fragilidades estruturais persistem e como decisões políticas recentes influenciaram esse cenário, o Brasil de Fato MG ouviu Francisco de Assis da Silva Jr., diretor de políticas ambientais do Sindicato dos Servidores Públicos do Meio Ambiente no Estado de Minas Gerais (Sindsema), gestor ambiental da Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Gerais (Feam) e doutorando em saneamento, meio ambiente e recursos hídricos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Na entrevista, ele analisa os dados oficiais, critica a flexibilização do licenciamento ambiental promovida pelo governo de Romeu Zema (Novo), relaciona saneamento e crise climática e avalia o impacto da greve dos servidores e da Operação Rejeito como marcos de um ano decisivo para o meio ambiente em Minas.
Confira a entrevista completa:
Brasil de Fato MG – Minas Gerais registrou mais de 24,4 mil ocorrências de incêndios em vegetação entre janeiro e setembro de 2024, de acordo com dados do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG). O balanço parcial do Corpo de Bombeiros aponta também uma queda de 29% no total de incêndios em vegetação, com destaque para a menor incidência em Unidades de Conservação, em comparação com 2024. Em uma avaliação geral, em termos de mudanças climáticas e de chuva e incêndios, o que mudou em intensidade e frequência?
Francisco de Assis da Silva Jr – Minas Gerais ainda figura, apesar de ter tido uma redução, comparado a 2024, na questão do desmatamento e das queimadas, entre os líderes desses índices.
Isso aconteceu desde a mudança em relação à responsabilidade por gerir e fazer esse controle, que saiu do órgão ambiental, o Instituto Estadual de Florestas (IEF), e passou ao Corpo de Bombeiros. Eles têm muito know-how na parte urbana, mas na parte rural não têm.
Inclusive, isso foi fruto de uma comissão ambiental da Assembleia Legislativa de Minas para verificar esses índices, porque 2024 realmente foi um recorde infeliz; não tínhamos esse registro há mais de 20 anos na série histórica. Este ano houve uma redução, mas, ainda assim, os números são muito superiores à média dos últimos anos.
Com relação ao desmatamento, Minas Gerais continua liderando como o nono estado que mais desmata a Mata Atlântica e o Cerrado. O que parece é que vão desmatar até chegar ao ponto em que haja tão pouca vegetação que fique mais fácil controlar, como é feito em São Paulo, Espírito Santo e outros estados que, por já terem uma vegetação menor, facilitam o controle.
É um marco infeliz, porque nossas florestas não estão sendo protegidas. O que está ocorrendo é uma vegetação cada vez menor, facilitando o trabalho de um corpo de servidores que está reduzido.
Houve uma matéria bem importante do Brasil de Fato MG mostrando que Minas Gerais foi o terceiro estado que mais esquentou no Brasil, com uma média de cerca de 4,3 graus, principalmente na capital, Belo Horizonte. Isso é um recorde. Quando vemos o incremento em nível nacional de cerca de 1 grau, percebemos que Minas Gerais está esquentando quase quatro vezes mais. Isso é perceptível.
Do ponto de vista técnico, podemos dizer que o Estado não estava preparado para enfrentar os eventos climáticos extremos que vivemos em 2025?
Sim. É esperado que, como contrapartida dos empreendimentos, os proprietários que realizam supressão de vegetação façam um plantio proporcional à área desmatada, especialmente em áreas de ameaça. Mas isso não é feito.
Às vezes a proporção deveria ser maior. Por exemplo, desmatar 100 hectares e replantar 200 em outra localidade. Mas não há acompanhamento. Essas metas não entram em um programa que estimule os servidores, visto que esse não é o objetivo máximo do Estado. O objetivo hoje é analisar o desmatamento em tempo recorde e deferir processos de licenciamento de mineração. Essa parte de proteção realmente não é a política do Estado.
Outro ponto que influi diretamente na questão climática é o saneamento básico. Sabemos que a Copasa está sendo privatizada. Não é como se isso acontecesse pela primeira vez no mundo. Dentro do próprio Brasil, percebemos que, após a privatização, gera-se escassez hídrica em vários bairros e aumenta-se a tarifa. O acesso, que deveria seguir a Lei da Universalização da Água, fica restrito. Em um período de mudança climática e maior necessidade de uso da água, a privatização dessa empresa agrava ainda mais a situação.
Quando falamos de desmatamento e retrocessos ambientais, um dado da Semad mostrou que Minas Gerais reduziu em 25% o desmatamento na Mata Atlântica em maio de 2025. De acordo com levantamento do Instituto Estadual de Florestas (IEF), entre 2023 e 2024, a área desmatada foi reduzida de 10.030 para 7.451 hectares, queda de 25%.
Qual sua avaliação sobre esse dado?
Via de regra, eles colocam a fonte oficial, só que há uma “maquiagem” nos dados. Se compararmos maio deste ano com maio do ano passado, pode ter havido uma redução, mas ainda assim é um número gigantesco. Por exemplo: se o ano passado desmatou mil hectares e este ano 750, ainda é um número grotesco e uma vergonha para o Estado, se colocado em termos de proporção.
É preciso olhar o acumulado e a série histórica. Vamos comparar o governo passado com este e ver o aumento. Por isso gosto de olhar a média ponderada. Logicamente, ações que reduzem o desmatamento são bem-vindas, mas o cenário está longe de ser positivo para o estado, pois, como eu disse, está diminuindo a quantidade de floresta, o que torna “mais fácil” preservar o pouco que resta.
Vocês, servidores do meio ambiente, saíram de uma das maiores greves da história da categoria. Vocês vinham denunciando que houve uma série de mudanças nas regras de licenciamento ambiental e nas estruturas dos órgãos que impactam a capacidade do Estado. De que maneira isso impactou os resultados climáticos de 2025?
Essa colocação é muito bem lembrada. Este ano houve uma mudança importante no Copam em relação ao nível de licenciamento, principalmente para produtores rurais realizarem plantio ou silvicultura de eucalipto.
Antes, até 200 hectares, que é uma área considerável, equivalente a 200 campos de futebol, não era necessário obter licença ambiental. Esse número cresceu para mil hectares, um aumento de cinco vezes, sem nenhum estudo ou consulta ao órgão. Lembrando que mais de 90% do desmatamento é realizado nessas propriedades rurais.
Hoje não é necessária uma análise profunda por equipe multidisciplinar para realizar essa supressão de vegetação ou ampliar a atividade em até mil hectares. E mil hectares não pertencem a pequenos produtores. Para ter uma fazenda com essa área útil de plantio, a pessoa precisa de pelo menos 1,2 mil hectares de propriedade. São terras que valem milhões.
Isso veio para beneficiar o lobby de quem vive de grilagem ou herança de terras. Para o pequeno, não houve benefício. Além disso, esse mesmo Copam que deliberou este aumento de última hora está com o mandato vencido desde o ano passado, e os conselheiros continuam votando.
Vale lembrar que, em 2022, houve uma renúncia coletiva de conselheiros da ala ambientalista por não concordarem com a forma como o Copam estava sendo montado. Eles não voltaram aos cargos.
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Este ano também houve uma ação importante que escancarou o que já denunciávamos. Nossa greve iniciou em setembro e, após 15 dias, veio a Operação Rejeito da Polícia Federal. Ela destacou a corrupção sistemática em alguns níveis, principalmente no primeiro escalão do órgão, ocupado por dirigentes indicados pelo governo.
Segundo aponta a PF, eles estavam comprometidos com mineradoras, recebendo mesadas para liberar licenças e autorizações de desmatamento ou diminuir áreas de unidades de conservação. Todo esse conjunto colabora para a piora da qualidade do ar, diminuição da captação de carbono e aumento do efeito estufa.
Além disso, menos de 5% dos servidores estão lotados na parte de recuperação florestal. 90% estão em atividades para liberar licenças, outorgas e desmatamentos. É o setor que tem mais serviço e uma remuneração que estimula analisar essas atividades em tempo cada vez menor.
Nossa equipe está reduzida e este governo nunca fez concurso. Estou há mais de 11 anos no cargo e nunca houve concurso para a área ambiental. Na greve, ficou claro que, enquanto os servidores efetivos paravam, continuavam saindo licenças.
Vimos que um grupo de contratados indicados pelo governo autorizava áreas de mais de 3 mil hectares de desmatamento, assinando sozinhos, sem análise jurídica ou com vistorias simplórias. Constatamos que isso acontece desde 2022. Na nossa visão, quem deve analisar e autorizar são os servidores efetivos, porque temos estabilidade para dizer “não” a um desmatamento irregular. Um indicado, se disser “não”, pode ser exonerado no dia seguinte.
A Operação Rejeito, na sua avaliação, seria o acontecimento mais emblemático no que diz respeito ao tema da emergência climática em Minas Gerais?
Sim, tanto a greve quanto a Operação Rejeito foram divisores de águas. Antes, em reuniões com dirigentes, falávamos sobre o desmonte ambiental e as regras do Copam, e eles negavam qualquer problema.
Hoje em dia, eles ficam envergonhados. Tentam tratar como caso isolado, mas é fácil ver que eram vários grupos de pessoas, inclusive em cargos abaixo do primeiro escalão, mas todos indicados pelo governo.
Havia áudios de WhatsApp cobrando pagamentos e alterações de normas. O governo disse que as normas envolvidas seriam revistas, mas até hoje nada mudou. A Operação Rejeito foi muito boa para dar visibilidade. Nós, do órgão, já sabíamos dos desmandos, embora não tivéssemos todos os dados de valores e pessoas. É importante ressaltar para a sociedade que não foram os servidores efetivos ou a base que participaram disso, mas sim o pessoal de cima, as indicações políticas.
