CONTRA A FOME

Declaração de Melo sobre distribuição de alimentos reabre debate sobre população em situação de rua

Comissão da Câmara Municipal de Porto Alegre deve realizar audiência pública para debater políticas públicas

No audio source provided.
"A fome não é estratégia de política pública, e negar alimento nunca foi, nem será, solução", afirma vereadora
“A fome não é estratégia de política pública, e negar alimento nunca foi, nem será, solução”, afirma vereadora | Crédito: Fabiana Reinholz

No final de 2025, durante um programa de rádio, o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo (MDB), afirmou que “colocar comida na rua da maneira que é colocada hoje estimula as pessoas a ficarem na rua”. Melo também declarou que pretende regrar a distribuição de alimentos por meio de um aplicativo que conectaria doadores, além de sugerir que prefeitos do interior não encaminhem à Capital pessoas sem condições financeiras de se manter.

As falas do prefeito repercutiram imediatamente na Câmara Municipal. A presidenta da Comissão de Defesa do Consumidor, Direitos Humanos e Segurança Urbana (CEDECONDH), vereadora Natasha Ferreira (PT), divulgou nota manifestando preocupação com a declaração de Melo.

“Quando o prefeito tenta transformar a solidariedade em problema, ele desvia o foco do que importa: Porto Alegre precisa de política pública. Ninguém está na rua porque recebe uma marmita e a fome não é instrumento de gestão. O que tira alguém da rua é moradia digna, cuidado em saúde, assistência social e oportunidade. E é isso que a CEDECONDH vai cobrar, com seriedade e com direitos humanos no centro”, afirmou a parlamentar ao Brasil de Fato RS.

Como primeira ação da Comissão em 2026, Ferreira anunciou que proporá uma audiência pública em fevereiro para debater a política municipal voltada à população em situação de rua. A ideia é ouvir especialistas, movimentos sociais, trabalhadores da assistência, voluntários, gestores públicos e, principalmente, pessoas em situação de rua. “Porto Alegre precisa enfrentar esse tema com seriedade, humanidade e compromisso com os direitos humanos”, destacou.

A vereadora também reforçou, em nota, que o direito à alimentação é constitucional e não pode ser utilizado como justificativa para restringir ações solidárias. “A afirmação de que a entrega de comida ‘estimula’ pessoas a ficarem em situação de rua ignora a realidade concreta da fome, da exclusão social e da violação sistemática de direitos. Ninguém escolhe viver na rua porque recebe uma marmita. A fome não é estratégia de política pública, e negar alimento nunca foi, nem será, solução”, afirmou.

Projeto de lei busca impor regras rígidas às iniciativas de doação de alimentos

Porto Alegre tem cerca de 7 mil pessoas em situação de rua
Porto Alegre tem cerca de 7 mil pessoas em situação de rua | Crédito: Jorge Leão

A discussão sobre a distribuição de refeições se intensificou após a apresentação do Projeto de Lei nº 403/24, protocolado em 11 de dezembro de 2024 pela vereadora Comandante Nádia (PP). A proposta estabelece novas regras para voluntários, entidades e organizações que entregam alimentos a pessoas em situação de rua e em vulnerabilidade social.

O texto determina que grupos devem informar previamente à prefeitura os locais, datas e horários das entregas, além de seguir normas consideradas rígidas de higiene e limpeza. Quem descumprir as exigências pode ser multado em 500 UFMs, cerca de R$ 2,9 mil, e até impedido de continuar atuando.

Na justificativa, Nádia afirma que o objetivo é “organizar” a distribuição e evitar contaminações e acúmulo de lixo em áreas públicas. O projeto também prevê ações educativas e obriga os grupos a limpar o local após as entregas. Pelas regras propostas, ONGs, entidades assistenciais e voluntários teriam de registrar-se junto ao órgão municipal competente; cadastrar previamente locais, dias e horários das entregas, restritos a pontos autorizados pelo município; e cumprir normas de segurança alimentar e cuidados no transporte das marmitas.

A apresentação do PL levou o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional Sustentável de Porto Alegre (Comsans/POA) a emitir moção contrária ao projeto. Segundo o colegiado, o PL cria entraves burocráticos e estabelece sobreposições de competências já regulamentadas por normas federais e estaduais, sem diálogo com o conselho, instância legal responsável por acompanhar e propor políticas públicas na área. Para o Comsans, isso fere princípios da gestão participativa previstos na Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan).

“Ao desconsiderar o papel das cozinhas solidárias e dos espaços populares de alimentação, o PL propõe retrocessos que ameaçam a continuidade das ações comunitárias e solidárias, que têm sido decisivas na resposta a situações de emergência alimentar e desastres climáticos”, afirma a moção.

Substitutivo busca inverter lógica punitiva

Em resposta ao PL, a vereadora Natasha Ferreira apresentou um substitutivo que, segundo ela, corrige uma abordagem “equivocada” da proposta original, que tratava iniciativas solidárias como problema. O substitutivo desloca o foco da punição e do controle para o reconhecimento do interesse público das ações voluntárias de distribuição de alimentos. A versão apresentada busca garantir segurança jurídica, dignidade humana e liberdade para que ações solidárias continuem ocorrendo na cidade.

“A situação das pessoas em situação de rua é complexa e não tem sido resolvida ao longo dos últimos anos. Ela exige soluções estruturais, como políticas permanentes de moradia digna, programas de habitação e aluguel social, ampliação da rede de saúde mental e psicossocial, políticas de cuidado para pessoas com dependência química, fortalecimento da assistência social, geração de trabalho e renda e articulação entre os diferentes níveis de governo”, afirma a vereadora. Ferreira alerta que medidas isoladas ou discursos que responsabilizam quem vive na rua “apenas aprofundam a exclusão e não enfrentam as causas do problema”.

Ativistas e movimentos criticam falas e projeto que restringe doações

Após a enchente de 2024, o Cozinheiros do Bem tem distribuído cerca de 15 toneladas de alimentos por mês – Crédito: Arquivo Pessoal

As declarações do prefeito Sebastião Melo tambem repercutiram entre movimentos sociais, voluntários e entidades que atuam diretamente no enfrentamento à fome em Porto Alegre, assim como o PL º 403/24. Entre as críticas está a do coletivo Cozinheiros do Bem, que há dez anos atua em ações de solidariedade na Capital. Em entrevista ao SBT compartilhada com o Brasil de Fato, o ativista Julio Ritta explicou a dimensão do trabalho do grupo e rebateu a tese de que a entrega de marmitas manteria pessoas na rua.

“Cozinheiros do Bem é um coletivo independente, tendo entregue desde o início da fundação mais de 8 milhões de marmitas. Tocamos o maior abrigo da Capital durante a enchente. Auxiliamos mais de 90 comunidades durante a pandemia, mais de 36 cidades no interior do estado. São 10 anos de luta no combate à fome”, afirmou.

Segundo ele, após a enchente de 2024, o coletivo tem distribuído cerca de 15 toneladas de alimentos por mês, menos do que a demanda exige. “Porto Alegre é hoje uma cidade com mais de 7 mil pessoas em situação de rua, 700 em albergues, e a gente se depara com essa situação de acharem que seria ‘incentivar as pessoas’ entregar alimentos nas ruas, sendo que é o básico do básico do assistencialismo”, criticou.

Ritta classificou como “higienista” a lógica de restringir doações e defender que pessoas em situação de rua sejam enviadas de volta a cidades de origem. “Parece que ele [o prefeito] não lembra que veio de fora e passou dificuldade no início. A única maneira possível de ajudar no combate à fome não é abrir restaurantes para que as pessoas frequentem, porque muitas têm seus animais. Talvez linhas de ônibus, food trucks, como existem fora do Brasil, entregando alimentos em pontos variados e horários pré-agendados. Acho que cada pessoa tem o direito de pegar seu alimento e comer onde quiser.”

Para o ativista, proibir entregas nas ruas e querer que as pessoas retornem às suas cidades fere o direito constitucional de ir e vir. “A gente sabe que é necessário dar assistencialismo. O problema da alimentação é a base da base. Não adianta dizer que alguém vai ficar na rua por causa de um prato de comida. Se a pessoa não tem onde dormir, não tem cama, não tem oficina para ser inserida no mercado de trabalho, nem aluguel social… o mínimo seria um amparo real com acompanhamento psicológico”, destacou.

Ritta também reforçou que o debate sobre políticas públicas precisa ouvir quem vive a realidade das ruas. “Chega a ser repugnante falar de algo que deveria ser visto como base da sociedade: moradia, alimentação, saúde, educação, dignidade. Querer mandar de volta para a sociedade é raso demais.”

Burocratização pode reduzir número de grupos que atuam na ponta

O PL nº 403/24 determina que voluntários, ONGs e entidades informem previamente locais e horários das entregas, façam registro no órgão municipal e cumpram uma série de normas de higiene e logística, sob pena de multa e restrições. Para Ritta, medidas como essa podem desestimular, ou até inviabilizar iniciativas populares.
“Quando o Cozinheiros do Bem começou, há 10 anos, não tinha projeto que entregasse comida. Hoje a gente traz dignidade: festa, corte de cabelo, acolhimento. Burocratizar a entrega de comida para quem tem fome é um absurdo, uma falta de humanidade e de bom senso gigantesco.”

Ele aponta ainda que grupos que dependem de doações não têm como se adequar à rigidez proposta. “Nós recebemos doações, então não tenho como dizer o dia e a hora que vou entregar comida. Essas pessoas têm fome constantemente. O que fazemos é enxugar gelo de certa forma.” O ativista defende que a solidariedade seja reconhecida como política pública complementar. “O alimento é uma ponte para entender as mazelas da sociedade. São pessoas em situação de rua, não é mendigo. É situação, não essência. Hoje estou deste lado da fila e amanhã posso estar do outro. Isso deveria gerar consciência.”

MTST: “Cozinhas solidárias cumprem função que a prefeitura não cumpre”

As Cozinhas Solidárias do MTST distribuem cerca de 10 mil marmitas por dia em todo o país – Crédito: Rafa Dotti

O coordenador do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Fernando Campos, também criticou a fala do prefeito e a proposta de Nádia. Ele defende que as cozinhas solidárias e as ações comunitárias de distribuição de alimentos fazem parte da realização do direito constitucional à alimentação.

“As cozinhas solidárias do MTST e as organizações que distribuem marmitas não são apenas iniciativas assistenciais. Elas cumprem funções que o Estado, em especial os Executivos municipais, não têm conseguido garantir de forma adequada, como é o caso da Prefeitura de Porto Alegre”, afirmou.

Campos explicou que a fome é um impedimento para qualquer política pública. “A fome não espera. Para muitas pessoas, população em situação de rua, trabalhadores de app, mães solo, idosos, a marmita é a única refeição do dia. E as cozinhas são porta de entrada para documentação, saúde e assistência social. Sem comida, não há vínculo possível.”

Segundo ele, as cozinhas solidárias do MTST distribuem cerca de 10 mil marmitas por dia em todo o país, sendo 1,7 mil refeições diárias em Porto Alegre, entre café, almoço e janta. O movimento opera em 51 de cozinhas em vários estados. O modelo inspirou o Programa Nacional de Cozinhas Solidárias (Lei 14.628/2023), integrando a política federal de combate à fome.

“Criminalização da solidariedade”

Para o MTST, tanto o discurso de Melo quanto o PL nº 403/24 se afastam do que determina a Constituição e as boas práticas de políticas públicas. “A ideia de que ‘comida na rua estimula a permanência na rua’ não tem base científica nem sociológica. O que mantém alguém na rua não é o alimento, é a ausência de políticas de moradia, trabalho e renda”, afirmou Campos.

Retirar comida, segundo ele, apenas agrava a vulnerabilidade. “Empurra as pessoas para a fome, para o lixo e para a violência.” O dirigente também critica o que chama de “criminalização da solidariedade”.

“A exigência de cadastro, horários rígidos, aplicativo e punições cria barreiras. Um grupo de moradores que distribui 20 marmitas pode ser multado? Isso gera medo e retração. O Estado, ao não garantir o direito, passa a controlar quem tenta garanti-lo.”

Campos considera ainda perigosa a tentativa de vincular assistência social a segurança pública. “Tratar fome como pré-crime estigmatiza a pobreza.” Conforme pontuou o coordenador, as cozinhas solidárias como as do MTST e as organizações que distribuem marmitas existem “porque a fome existe, o direito à alimentação está sendo violado e o Estado, especialmente no nível municipal, não está chegando onde deveria”.

“Organizar a cidade é importante. Mas nenhuma organização urbana pode vir antes do direito fundamental de não passar fome. A fome tem pressa. Não espera cadastro, aplicativo ou autorização. As cozinhas solidárias são redes comunitárias de cuidado, construídas por quem conhece a realidade do povo. Elas não substituem o Estado, elas denunciam sua ausência e mostram, na prática, que garantir alimentação saudável é possível, necessário e urgente.”

*Com informações do Sul21

Editado por: Marcelo Ferreira

|

Newsletter