Dez dias depois do bombardeio estadunidense contra a Venezuela, as comunas do país ganharam ainda mais protagonismo dentro do processo político chamado pelo chavismo de revolução bolivariana. Mesmo depois de um ataque que abalou a América Latina, os comuneros seguiram trabalhando dentro dos princípios que formaram a criação dessa nova estrutura social: produção de alimentos, mobilização popular e a preservação da ideologia que busca transformar o sistema político da Venezuela.
Com caráter de autogestão, as comunas são os espaços onde se desenvolvem algumas das principais ideias do ex-presidente Hugo Chávez para um projeto de país com uma democracia participativa e a atuação direta da população na resolução de questões da vida em sociedade.
Nos últimos anos, as comunas se tornaram o epicentro do chavismo na Venezuela e, depois dos ataques estadunidenses, se mostraram um elemento essencial da sociedade venezuelana. Primeiro pelo abastecimento dos mercados do país.
Desde o ataque contra Caracas, as comunas não recuaram e mantiveram a produção de alimentos. O governo venezuelano se orgulha de 97% dos alimentos produzidos no país serem nacionais. E uma parte importante desse montante é de responsabilidade das comunas, especialmente as rurais.
Ainda que não tenha dados precisos sobre a produção, as comunas venezuelanas cresceram desde a formalização desse processo em 2010 e passaram a receber investimentos e autonomia para plantar e colher diferentes alimentos. O café, por exemplo, é majoritariamente produzido em comunas. Milho, arroz, feijão, legumes e frutas também têm uma grande participação nas produções comunais.
A reserva moral e produtiva das comunas ficou ainda mais explícita depois dos ataques dos Estados Unidos. Anaís Márquez é porta-voz da comuna 5 de março e afirma que os bombardeios representaram um ataque à moral da Venezuela e que isso dificulta os trabalhos, mas que as comunas são parte importante da resistência venezuelana.
“Apesar do que aconteceu, os trabalhos nas comunas seguem. Estamos retomando as assembleias comunais e os trabalhos produtivos. Sem dúvida fomos atingidos moralmente e continuar trabalhando nesse contexto é mais difícil porque baixa o ânimo, temos que ver quais são as estratégicas para avançar, como se reorganiza no território a partir do que aconteceu. Tudo isso precisa ser debatido, mas a produção segue”, disse ao Brasil de Fato.
Segundo o governo, a Venezuela tem 5.336 comunas ativas que ocupam cerca de 90% do território povoado do país. Elas mudaram a estrutura produtiva do país porque, ainda que as grandes empresas ainda sejam responsáveis por uma parte significativa dos produtos venezuelanos, a orientação do governo passou a ser a agricultura familiar e os pequenos produtores.
Hernan Vargas é vice-reitor da Universidade das Comunas e afirma que as comunas reestruturaram a economia venezuelana e colocaram a organização coletiva no centro da formação de um modo de produção alternativo.
“É vital fortalecer essa estrutura como um traço chave desse momento e ter uma estrutura central de desenvolvimento produtivo. A produção aumentou no país e as comunas são centrais. O modo de produção comunal fortaleceu os mecanismos de distribuição, de autogestão, produção, o encadeamento produtivo e uma lógica de produção de valor de uso e não centrado no valor de troca do mercado, mas para garantir o que precisa o país”, afirmou ao Brasil de Fato.
As comunas foram institucionalizadas na lei orgânica das comunas, criada em 2010 durante o governo de Hugo Chávez. Nos últimos 14 anos, os comuneros viram mudanças bruscas na sociedade venezuelana, desde a tentativa de golpes de Estado, até a implementação de sanções dos Estados Unidos em 2015 contra a economia venezuelana, que minou a capacidade de investimentos do Estado sobre os diferentes setores.
Depois dos ataques dos Estados Unidos, os comuneros entendem que o papel das comunas na construção do Estado venezuelano ficou ainda mais evidente, especialmente como espaços de preservação do chavismo e de uma linha política que tenha o socialismo como pilar.
Anais afirma que uma das atribuições das comunas é também formar politicamente os comuneros, especialmente quem não está envolvido de maneira direta com a política nacional ou mesmo que fazem oposição ao chavismo.
“Nós estamos resistindo e construindo o Estado na Venezuela, mesmo sem o nosso presidente. As comunas são a resistência política para construir um novo Estado que tenha como finalidade o fim do capitalismo. Devemos seguir sendo a resistência política e ideológica para que o projeto de Venezuela não caia e sigamos gerando consciência e seguir formando nossas pessoas para entender o que significa o socialismo na Venezuela”, disse.
Nos últimos 14 anos, os comuneros viram mudanças bruscas na sociedade venezuelana, desde tentativas de golpes de Estado até a implementação de sanções dos Estados Unidos em 2015 contra a economia venezuelana, que minaram a capacidade de investimentos do Estado sobre os diferentes setores.
Os desafios enfrentados pelo governo venezuelano a partir do bloqueio também refletiram na relação das comunas com o processo político e econômico da Venezuela e esses espaços ganharam maior protagonismo político. Uma dessas formas de mudança foi a distribuição de renda.
Os comuneros passaram a participar diretamente da alocação de recursos para projetos no território a partir das consultas populares. Essa ferramenta aproximou a Venezuela do objetivo de Chávez de uma gestão do Estado feita de baixo para cima, e que a decisão dos conselhos comunais tivesse peso na decisão coletiva.
Vargas entende que esse processo estimulou a distribuição de riquezas no país a partir de uma “nova concepção de democracia” que tem a comuna como um eixo central de um novo sistema político.
Isso tudo se traduziu na mobilização popular em defesa de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, sequestrados pelos Estados Unidos no primeiro sábado do ano. As marchas dos comuneros também pedia o fim da interferência estadunidense na Venezuela e a defesa da soberania nacional
“Boa parte dos recursos petroleiros foi diretamente para as consultas. Toda a população vota e o que é escolhido se executa pela própria comuna. Tudo isso se traduziu em um nível de politização muito importante. As comunas são uma frente na luta em todos os âmbitos: tanto econômico, de segurança, mobilização política. O resultado disso são as mobilizações de ruas, em um dos momentos mais tensos da nossa história”, disse Vargas.
