A ofensiva imperialista sobre a América Latina não é uma novidade trazida pela chegada de 2026, como bem sabemos. Faz parte de um projeto político de dominação, sustentado pelo sistema capitalista e que, nos últimos anos, mostra uma nova face. Em seus estados de crise, o capitalismo também se reorganiza através das guerras e isso é mais palpável a partir do modus operandi utilizado por Trump, que não tem medo de mostrar a face desse imperialismo cruel, violento e cada vez mais presente, especialmente na América Latina.
O financiamento e controle estratégico do genocídio na Palestina é parte central de tudo isso que, mesmo durante o cessar-fogo, segue com seus objetivos de tornar a região de Gaza sem identidade Palestina e capacidade de recuperação autônoma. Esse financiamento, só é possível com uma indústria bélica forte que depende de petróleo e isso, os EUA sabem bem, pois possuem mais de 800 bases militares espalhadas por todo o mundo e, pelo menos, 76 delas na América Latina e Caribe.
No último dia 3 de janeiro, presenciamos o sequestro ilegal do presidente da Venezuela Nicolás Maduro e de Cilia Flores como parte de uma série de medidas adotadas por Donald Trump para concretizar o que foi afirmado em pronunciamentos oficiais e na Estratégia de Segurança Nacional que retoma a Doutrina Monroe com nitidez e centralidade: a exploração da América Latina, seus minerais críticos e petróleo, mas não só isso.
O projeto político no qual Trump foi forjado e hoje é um dos principais agentes, tem, como objetivo central, destruir qualquer alternativa socialista pelo mundo. É parte central do espetáculo cruel do imperialismo estadunidense, minar os países que hoje ainda resistem frente a uma ordem econômica unipolar e frente a um projeto político que coloca o lucro acima da vida, como é o caso de Cuba, Colômbia e, como visto, a Venezuela, que traz, nos marcos da sua história e no povo do país, a revolução bolivariana, o chavismo e a esperança de um mundo outro. Para Trump, isso é inaceitável e é por isso que a Venezuela não lhe basta.
Embora a grande mídia construa e perpetue a narrativa dominante, sobre narcoterrorismo, ditadura, afirmando que a Venezuela precisa dessa intervenção para ser salva, o povo venezuelano, que cultiva dentro de si e de suas organizações a utopia revolucionária, assume um levante pelas ruas do país em defesa da sua soberania e exigindo a libertação de Maduro e Cilia Flores e isso não fica somente nas fronteiras da Venezuela, tivemos atos de rua em solidariedade internacional por todo o mundo, inclusive nos Estados Unidos.
Como em toda crise, guerra e ofensiva, as mulheres são as mais afetadas e agora não é diferente. Não à toa, diversas mobilizações auto-organizadas ocuparam as ruas da Venezuela, exigindo a libertação de Maduro e Cilia Flores, como resposta direta. Como parte disso, os movimentos sociais dos Estados Unidos também se juntam às mobilizações.
É importante destacar um elemento importante nesse processo: 70% da população dos Estados Unidos é contra os ataques dos EUA à Venezuela. É um número importante que demonstra que, mesmo aqueles apoiadores do atual governo estadunidense discordam do ato de guerra. A cada nova virada de conjuntura, as mulheres se fortalecem como as principais defensoras e constroem, diariamente, as alternativas populares e feministas para a transformação do mundo. No Brasil, não é diferente. Seremos nós a defender e preservar a nossa democracia e soberania nacional também nas eleições presidenciais de 2026, assim como fizemos para retirar Bolsonaro do poder.
É certo que não podemos esperar que a resistência do povo venezuelano e o chavismo, que tem caminhado de maneira presente na conjuntura do país, sejam retratados com honestidade pela grande mídia, afinal, é um terreno de hegemonia dos Estados Unidos e do sistema capitalista que mais irá servir para proteger e defender os interesses do imperialismo estadunidense, como uma ferramenta central nesse plano de dominação que não acaba nas fronteiras da Venezuela. Penso que isso é a chave para compreendermos o todo. Acreditar que Trump ataca a Venezuela somente pelo petróleo e isso basta, é um erro definitivo.
Após o ataque de Trump, que mobilizou uma grande operação militar, com intervenções aéreas e mais de 100 pessoas mortas, a grande mídia, guiada pelos interesses estadunidenses, tenta apresentar a narrativa de uma traição, colocando dúvidas sobre a unidade do chavismo no governo de Maduro. É essencial que não caiamos nesse jogo: essa foi a primeira vez que os Estados Unidos fizeram uma operação militar na América Latina de tamanha magnitude, planejada há muito tempo, com uso de muita inteligência, que chegou até a construir uma réplica da casa em que Nicolás Maduro e Cilia Flores viviam com segurança, para além das mortes que confirmam a resistência da segurança do presidente venezuelano e sua família. É certo que essa é mais uma tentativa de fragilizar a imagem do governo venezuelano para todo o mundo, mas não passa de uma narrativa politizada pela direita para ganhar espaço, assim como os elementos em torno das acusações de narcoterrorismo, atualmente desmentidas por Trump em um dos seus últimos pronunciamentos.
Isso demonstra e reafirma a fragilidade hoje vivida pelo império e funciona como uma tentativa desesperada de reorganizar o seu poder e controle unipolar, especialmente dos países do sul global. O plano do império é acabar com as marcas e as chamas ainda vivas do socialismo popular revolucionário na América Latina e em todo o mundo, mas o povo da Venezuela responde à altura, com grandes mobilizações nas ruas em mais de 10 dias consecutivos, com as mulheres como protagonistas desse processo de defesa da democracia e soberania venezuelana, reafirmando a presença concreta da espada de Bolívar e a capacidade de organização popular que o país possui. Do mesmo modo, as mobilizações por todo o mundo reforçam a defesa dos nossos sonhos, da nossa soberania e da nossa autodeterminação.
Como parte disso, nos últimos anos, a China tem sido protagonista nas relações internacionais de fluxo econômico e outras dimensões, especialmente de tecnologia, a partir da pesquisa e produção de ciência, especialmente de países da América Latina. O fortalecimento da relação de países do Sul Global, com alternativas como o Brics, que tem sido peça chave para o processo de desdolarização da economia mundial, abrindo caminhos para utilizar as moedas locais, a construção de alternativas de sistema para transações internacionais sem domínio dos Estados Unidos, que utiliza dessas ferramentas para punir os países que não aceitam o imperialismo como algo natural, é tudo o que os Estados Unidos não aceitam.
Nesse sentido, nos últimos dias, o foco de Trump começa a ser, também, a Colômbia, que tem sido, a partir de Gustavo Petro, um parceiro fundamental de solidariedade internacional com a Venezuela e de enfrentamento ao imperialismo estadunidense. O presidente dos Estados Unidos, em seus últimos pronunciamentos, afirma que existem “outros amigos doentes” que precisam de sua ajuda para retomar a democracia, referindo-se à Colômbia. Esse é apenas mais um elemento que confirma a estratégia de dominação da América Latina, para além da Venezuela que deve enveredar, nos próximos meses, por outros países.
Nos últimos períodos, vimos isso se concretizar em algumas dimensões: hoje, a Argentina possui um governo parceiro do império estadunidense, disposto a suprimir a soberania nacional. As eleições do Chile enfrentaram grandes intervenções americanas que resultaram na eleição de um presidente de extrema direita. Isso nos acende um alerta para as eleições deste ano no Brasil.
É de interesse prioritário do império estadunidense que a extrema direita volte à presidência no próximo período, pois isso fragiliza a nossa democracia e soberania nacional, tornando o caminho aberto para as invasões dos Estados Unidos. É por isso, também, que a nossa luta diária precisa estar pautada no internacionalismo em defesa da América Latina, porque os poderosos andam na mesma direção por todo o mundo e nós não podemos estar dispersas e dispersos.
A partir dos últimos novos pronunciamentos de Donald Trump, é certo que a América Latina segue sendo o alvo central, mas a lente do imperialismo estadunidense se abre por todo o mundo, elegendo a Groenlândia e Irã como um dos seus inimigos para os próximos períodos. A busca pelo poder unipolar, minerais críticos, exploração dos nossos bens-comuns e controle das relações comerciais, como uma tentativa de isolar a China e enfraquecer a relação entre os países do Sul Global move a atual estratégia do império, sob domínio de Trump.
Dessa forma, a cada dia, mais uma peça do tabuleiro é mexida e avança sobre nossas vidas. Trump retirou os EUA de diversos organismos de pacto multilateral, especialmente de direitos humanos, combate às desigualdades e de controle da crise climática ligados à ONU. Embora saibamos da contradição e fragilidade dessas alternativas, é um sinal importante para compreendermos a magnitude dos próximos caminhos que o império estadunidense traçará.
É o momento crucial para retomarmos a unidade da esquerda no Brasil e na América Latina, para que possamos fortalecer a grande frente de luta anti-imperialista, com capacidade de realizar processos de mobilização e formação nos territórios, que já convoca uma agenda de luta em defesa da democracia, soberania e direito internacional. No dia 28 de janeiro, ocuparemos as ruas de todo o mundo, em cada território, em defesa da soberania dos povos, pela libertação de Nicolás Maduro e Cilia Flores, fortalecendo a luta anti-imperialista em todo o mundo. Somos nós, as(os) responsáveis pela defesa de Nuestra América e derrubada do sistema capitalista! Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!
*Estefane Maria é militante da Marcha Mundial das Mulheres
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
