DIREITO

‘Poderia ser todos os dias’: Tarifa Zero aos domingos gera economia para famílias de BH

Proposta democratiza acesso à cultura, lazer e equipamentos públicos

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Atualmente, segundo a PBH, cerca de 190 mil pessoas utilizam ônibus aos domingos em Belo Horizonte.
Atualmente, segundo a PBH, cerca de 190 mil pessoas utilizam ônibus aos domingos em Belo Horizonte. | Crédito: Divulgação/PBH

Depois de uma luta aguerrida de movimentos populares e, sobretudo, do movimento Tarifa Zero BH, a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) implementou o projeto Catraca Livre, aos domingos e feriados, tornando as viagens de ônibus gratuitas nesses dias. Ainda que o desejo e a luta sejam para zerar a passagem todos dias, a medida, em vigor desde 14 de dezembro, já tem sido transformadora para a população.

Mesmo para quem o ônibus não era o principal meio de transporte, a medida veio a calhar como um facilitador e, em especial, como economia. A auxiliar de serviços gerais Aparecida Ribeiro de Andrade, por exemplo, trabalha a alguns quarteirões de sua casa. A ida e a volta, que antes eram obrigatoriamente feitas por meio de uma caminhada, agora são também possíveis com o transporte. 

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O filho dela, o micro-empreendedor Daniel Andrade, foi quem apareceu com a ideia e reforçou com a mãe a possibilidade. Ainda que seja um trajeto curto, afinal, é uma chance de ganhar mais tempo e fugir do sol, segundo ele. Mesmo que só um por um dia. 

O jovem, por outro lado, aproveita o domingo com passagem gratuita para fazer passeios culturais e sair com os amigos. O único obstáculo, segundo ele, tem sido o quadro de horários, que, neste dia da semana, sempre teve intervalos maiores. 

“Tenho notado que os ônibus demoram um pouco mais, o que que já era natural em dia de domingo, mas ainda tem alguns certos atrasos. Estão demorando bastante para passar, mas não estão tão lotados como nos dias de semana”, afirma. “Está sendo interessante essa proposta. Poderia ser todos os dias”, defende. 

Atualmente, segundo a PBH, cerca de 190 mil pessoas utilizam ônibus aos domingos em Belo Horizonte. Para girar pela catraca, os usuários passam o cartão BHBus, sem desconto do valor. Quem não possui o cartão, tem a catraca liberada pelo motorista.

Acesso à cultura

Quem também aproveita o transporte aos domingos para viver a cultura da cidade é a veterinária Gabriella Freitas, moradora do bairro Dom Cabral. 

“Até agora, eu fui passear, fui ver a decoração de Natal na Praça da Liberdade, fui encontrar com amigos e planejo ir para os ensaios de bloco de carnaval aos domingos também de ônibus. Inclusive, essa é uma das minhas sugestões: aproveitar os eventos culturais, que são muito fortes aqui na cidade. Feira hippie, museus, parques e os ensaios de blocos e os pré carnavais”, acrescenta. 

Desde a implementação da medida, Ribeiro conta que tem visto os ônibus com movimento razoável. 

“As pessoas estão saindo e pensando na real economia. No meu caso, uma economia de combustível, mas para as famílias, com esse dinheiro da passagem, eles conseguem fazer um lanche, conseguem se divertir mais. E nos ônibus as pessoas têm falado ‘olha, de graça, de graça’. As pessoas estão conscientes dos seus direitos”, afirma.

.O servidor público Hebert Alves acredita que o projeto Catraca Livre atende diretamente o direito de circulação. 

“Eu, por exemplo, consegui fazer mais programas culturais. Podendo circular livremente por diversos equipamentos, dispostos em várias regiões de BH. Por exemplo, eu saí domingo do centro de Belo Horizonte e fui até o Cine Santa Teresa para assistir um filme, que também fazia parte de uma programação gratuita”, lembra o belo-horizontino. 

O advogado Geraldo Rodrigues, que frequenta de forma assídua a Feira Hippie, evento cultural tradicional de BH, agora substitui o transporte por aplicativo pelo ônibus. 

“Às vezes, eu estou em casa, arrumando, vou sair. Eu olho no aplicativo, vejo que  o ônibus vai passar daqui a cinco minutos. Aí eu vou para o ponto. E o que eu senti é que realmente ajuda. Querendo ou não, a passagem de ida e volta é mais de R$ 10. Então, é uma economia. Se você sair todos os domingos em um mês, você economiza mais de R$ 40”, chama a atenção. 

Segundo ele, é nítida também a quantidade maior de famílias dentro dos ônibus agora com  passagem gratuita. 

“Imagine um casal com três filhos para sair, daria no mínimo R$ 50 de passagem. Agora, esse dinheiro pode ser gasto com lazer, com lanche, com uma pizza. Então, eu acho que isso favorece muito as famílias, principalmente as famílias de baixa renda”, salienta.

Tarifa Zero é direito

Em entrevista ao Brasil de Fato MG, Annie Oviedo, integrante do Movimento Tarifa Zero, destacou que a gratuidade aos domingos e feriados tem efeito surpreendente.

“A melhor coisa da Tarifa Zero aos domingos é que ela democratiza o acesso, especialmente a eventos de lazer e de cultura que já são gratuitos”, pontua. 

“Aos domingos é mais sobre isso do que sobre o acesso a outros direitos ou ao estudo, à saúde e ao próprio trabalho, o que, dentro de uma perspectiva do que que é a Tarifa zero, acho maravilhoso, porque o transporte não pode ser apenas um meio para levar as pessoas para o trabalho e para a escola”, lembra. 

Para Oviedo, a política de gratuidade vem de uma ideia de abundância, ou seja, ter ônibus para ir a qualquer lugar, desde um parque mais longínquo a um evento no centro.

“É ter uma liberdade de escolha e uma capacidade de conexão com espaço urbano que é inigualável. A Tarifa Zero aos domingos não é só sobre ir e vir. Ela é sobre estar. E o estar é político. Quem está em determinados lugares da cidade é um fato determinado politicamente”, afirmou. 

Relembre a luta

O sonho do “busão 0800” em Belo Horizonte era na verdade para que a tarifa fosse gratuita todos os dias, como mostraram diversas reportagens do Brasil de Fato MG.  Em uma votação realizada em outubro de 2025, no entanto, o Projeto de Lei 60/2025, que propunha a gratuidade no transporte coletivo da capital mineira, não conquistou os 28 votos necessários na Câmara Municipal para ser aprovado em primeiro turno. 

:: Com pressão de Álvaro Damião, Tarifa Zero é derrubada na Câmara de BH ::

O resultado representou, para movimentos populares, uma perda para a população da cidade e uma vitória da prefeitura e do prefeito Álvaro Damião (União), que desde o início se colocaram contrários à medida.

De autoria da vereadora Iza Lourença (Psol), o projeto chegou ao plenário com força: contava com a assinatura de 22 parlamentares, mas perdeu apoio em suas últimas semanas antes da tramitação, diante da pressão do Executivo e de entidades empresariais. 

O próprio prefeito classificou a proposta como “utopia”, afirmando que o modelo de financiamento – que previa a criação da Taxa de Transporte Público (TTP), paga por empresas com mais de nove funcionários – poderia provocar “fuga de CNPJs” para municípios da Região Metropolitana.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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