Vai manter?

Candidatura de Flávio Bolsonaro pode se sustentar, mas mostra fragilidades, dizem analistas

Senador chegou a dizer que candidatura 'tinha um preço', mas voltou atrás e agora cresce nas pesquisas

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Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) anunciou que será candidato à presidência em 2026 | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP
Senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é pré-candidato à presidência da República em 2026 | Crédito: Pablo Porciuncula/AFP

A candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à presidência começou a ganhar tração nas pesquisas eleitorais. Nesta semana, a pesquisa de intenção de voto Genial/Quaest apontou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera, mas que o filho mais velho do ex-mandatário se consolidou em segundo lugar em todos os cenários apresentados.

Em um primeiro momento, muitos analistas acreditavam que a candidatura de Flávio nasceu enterrada. E o “01” da família Bolsonaro deu motivos para isso. No dia seguinte que anunciou ter sido escolhido por seu pai como o candidato da extrema direita, ele afirmou que sua candidatura “tinha um preço”.

Quarenta dias depois, esse cenário parece ter mudado e, assim que a pesquisa foi publicada, o congressista disse que a sua candidatura “não tem mais volta”. E um ponto é fundamental nessa disputa: o nome de Flávio se mostrou melhor sem a concorrência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Com o chefe do Executivo paulista, Lula aparece com 36% e Flávio 23% e Tarcísio com 9%. Sem ele, Flávio sobe para 26%.

Há, no entanto, uma disputa pela candidatura de Tarcísio, especialmente partidos do Centrão. Lideranças dessas siglas já manifestaram o desejo de que o governador de SP seja o nome forte da direita. Ele mesmo tem dado poucas demonstrações públicas de apoio a Flávio, mesmo com o esforço de aproximação feito pelo senador. 

Faltando nove meses para o pleito, analistas entendem que ainda é cedo para entender quem dará mais trabalho a Lula na reeleição. A professora de Ciência Política e presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Eleitorais, Mara Telles, afirma que o mercado financeiro é um dos principais agentes nessa disputa e tem em Tarcísio o favorito. Mas, de acordo com ela, esse grupo já abraçou Bolsonaro antes e Flávio é ainda mais palatável. 

“O mercado financeiro tem o seu candidato: Tarcísio, que faz parte do bolsonarismo. Eu acho que Flávio vai aguardar as pesquisas e a candidatura deve se sustentar. Ele representa o núcleo raiz do bolsonarismo, o núcleo mais radicalizado e vai depender do apoio do centrão também. Sustentar para mim não significa que ela será a principal, mas que deve levar adiante para manter o nome Bolsonaro em evidência”, afirmou ao Brasil de Fato

O histórico de Flávio em eleições majoritárias, no entanto, é apontado por especialistas como uma debilidade. A única vez que ele não competiu pelo Legislativo foi em 2016, quando disputou o pleito municipal do Rio de Janeiro pelo PSC. Na ocasião, ele recebeu apenas 14% dos votos. 

Roberto Goulart Menezes é doutor em Ciência Política e professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e entende que esse histórico é um fator que pesa contra o senador. 

“Antes de ser candidato a senador e vencer as eleições, o outro cargo majoritário que ele disputou foi para a prefeitura, com um desempenho pífio. É um político apagado e apostar que o bolsonarismo por si só teria quantidade de votos suficiente para eleger ele, como estão mostrando as pesquisas eleitorais, é muito difícil. É uma estratégia do próprio pai, para manter o nome em evidência e também servir como um instrumento de barganha”, disse ao Brasil de Fato.

A barganha a quele ele se refere é a anistia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ao dizer que a candidatura estava em negociação, Flávio fez lobby para a votação do Projeto de Lei da Dosimetria, que buscava reduzir as penas dos golpistas do 8 de janeiro. A ideia, segundo o professor, é de que, quem seja apoiado pela família, decrete a anistia ao ex-mandatário. 

Uma das questões apontadas pelos analistas que pode pesar contra a eleição de Flávio é a falta de projetos. Até agora, os candidatos da direita focaram na segurança pública e no combate à criminalidade, um roteiro repetido desde 2018. A tendência é que essa seja uma preocupação dos eleitores, que, em pesquisas, demonstram que a segurança é o segundo tema de maior preocupação. 

Para Menezes, Lula leva uma vantagem em relação à família Bolsonaro por ter resultados a apresentar desde 2023, especialmente os indicadores econômicos.

“A família Bolsonaro não tem um projeto político para o país. Cada um deles tem os seus próprios interesses e nem sempre dialogam com os interesses do Brasil. Já Lula apresentou bons resultados e isso tende a melhorar o seu desempenho eleitoral. E com isso dificulta mais a vida do Flávio Bolsonaro”, disse.

Telles entende que esse pode ser um trunfo do governo, mas, até o momento, mesmo os resultados econômicos positivos não mudaram a popularidade do presidente. Segundo a própria Quaest, 47% aprovam e 49% desaprovam a gestão petista. A aprovação que começou em 56% chegou a cair para 40% e hoje voltou a subir. Ela entende que, no atual cenário, nenhum adversário será fácil para Lula.

“A economia sempre elegeu presidentes. Lula reduziu a inflação, estabilizou a moeda, mas mesmo assim os dados de aprovação são os mesmos. As pessoas estão gastando muito, o que é um indicador forte de crescimento econômico. Isso mostra uma ideologização e que o bolsonarismo é muito grande, o que faz com que qualquer adversário seja difícil. Não tem nenhuma garantia de reeleição do Lula”, afirmou.

O principal argumento nas eleições de 2026 será, para a extrema direita, a suposta “perseguição judicial” que sofre e o alvo do grupo será o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. 

Para Telles, Flávio também tem uma vantagem sobre Tarcísio: o fato de nunca ter assumido um cargo de gestão. De acordo com ela, isso gera uma exposição maior à opinião pública e leva a um aumento da rejeição.

“Não importa quem é o candidato, a extrema direita se mostrou viável. Quando saiu do armário conseguiu aglutinar. O Tarcísio, por ser governador, também leva a uma rejeição, o que o Flávio não tem. Ele é um candidato mais perigoso, porque ninguém pode dizer que ele destruiu uma cidade, um estado. O Tarcísio tem isso, com privatizações em São Paulo, por exemplo”, concluiu. 

Editado por: Maria Teresa Cruz

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