A cultura é uma das forças mais potentes para transformar sociedades — mas raramente é tratada como tal. Em muitos países, ela é vista como ornamento, entretenimento ou gasto supérfluo. No entanto, as nações que compreenderam seu valor estratégico revelam um padrão inequívoco: a cultura é infraestrutura de desenvolvimento. Ela gera empregos, movimenta economias, fortalece democracias, amplia direitos, projeta países no cenário internacional e cria sentido de pertencimento para milhões de pessoas.
Na última semana o Brasil vive um dos momentos mais significativos de sua história recente no campo cultural. A vitória de O Agente Secreto no Globo de Ouro 2026, com o prêmio de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e a consagração de Wagner Moura como o primeiro ator brasileiro a vencer a categoria, bem como a indicação do filme Manas, de Marianna Brennand, ao Goya de melhor filme ibero-americano consolidou uma virada que começou no ano anterior. Em 2025, Ainda Estou Aqui venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional, e Fernanda Torres tornou-se a primeira brasileira a ganhar um Globo de Ouro.
Esses marcos não são apenas simbólicos: representam o renascimento político e econômico da indústria cultural brasileira nos últimos três anos, após um período de retração institucional. O setor voltou a atrair investimentos, recuperar políticas públicas e reconquistar espaço no mercado internacional. Segundo o Ministério da Cultura, a economia criativa movimenta cerca de R$ 230 bilhões por ano, emprega 7,8 milhões de pessoas e representa 7% dos trabalhadores formais e há mais de 130 mil empresas formalizadas no setor.
Enquanto o Brasil reencontra seu protagonismo, países que tratam cultura como política de Estado mostram o potencial de longo prazo desse investimento, entre estes países podemos citar a Coreia do Sul, China – potência global que usa cultura como instrumento de poder, tecnologia e projeção internacional, Índia – potência demográfica e cultural com uma das maiores indústrias criativas do planeta, e Nigeria – força cultural africana que transforma criatividade urbana, musical e audiovisual em caminhos de desenvolvimento.
O exemplo mais emblemático é a Coreia do Sul, pais que passou por décadas de instabilidade e atravessou guerras e crises econômicas graves até perceber que seu maior ativo não estava apenas na indústria, mas na capacidade de produzir significado. A partir dos anos 1990, o país iniciou uma mudança estrutural: cultura deixaria de ocupar um papel periférico e passaria a ser tratada como eixo estratégico de desenvolvimento. O Estado passou a investir em formação artística, audiovisual, música, televisão, games e exportação simbólica, criando um ecossistema integrado que uniu governo, indústria e educação. Essa decisão — inédita em escala e ambição — transformou a cultura em política pública, com orçamento, metas e planejamento de longo prazo. A virada coreana não foi apenas econômica: foi conceitual. O país decidiu que sua identidade seria um ativo estratégico.
Duas décadas depois, essa aposta se consolidou como um dos fenômenos culturais mais influentes do século 21. A Hallyu ou “Onda Coreana” tornou-se um movimento global que atravessa telas, idiomas e fronteiras. K-dramas alcançam mais de 190 países, o cinema coreano redefine padrões estéticos e narrativos, e o K-pop domina plataformas digitais com uma precisão industrial.
O resultado é uma máquina global de soft power onde o K-pop movimenta US$ 10 bilhões por ano, segundo a Korea Creative Content Agency. No centro desse processo está o BTS, cuja nova turnê foi anunciada, no dia 13 de janeiro último, globalmente pelas plataformas oficiais do grupo, com repercussão imediata na imprensa internacional e se converteu em recordes de buscas e engajamento — simboliza a maturidade de um projeto nacional que transformou criatividade em poder. A Coreia exporta cultura como quem exporta tecnologia: com método, investimento e visão. A cultura deixou de ser expressão para se tornar infraestrutura.
O Brasil, com dois anos consecutivos de conquistas inéditas — Oscar, Sundance, Cannes, Zurique e Globos de Ouro — demonstra que tem talento e capacidade para disputar espaço nesse cenário global. Mas, ao contrário da Coreia ainda carece de políticas contínuas que transformem criatividade em estratégia nacional. O renascimento recente mostra o caminho: quando há investimento, liberdade artística e circulação internacional, o país brilha. A disputa global por influência cultural está em curso — e o Brasil tem condições de participar dela. O desafio é político: transformar vitórias isoladas em projeto de Estado.
*Mônica Cabanas é jornalista.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.
