Ausente da cerimônia de assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, marcado para esta sexta-feira (17), em Assunção, capital do Paraguai, o presidente Lula recebeu na sede do Itamaraty, no Rio de Janeiro, nesta quinta (16), a presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
Segundo interlocutores do Planalto, a escala no Rio foi sugerida pelos líderes europeus, como forma de agradecer o empenho do presidente na realização do acordo, considerado histórico pelo governo brasileiro.
Em declaração à imprensa, o presidente lembrou que foram mais de duas décadas de tratativas, e que a assinatura do acordo criará uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
“Foram mais de 25 anos de sofrimento e tentativa de um acordo. Amanhã, em Assunção, a União Europeia e o Mercosul farão história ao criar uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, reunindo cerca de 720 milhões de pessoas e um produto interno bruto de 22 trilhões de dólares”, disse presidente, destacando que a parceria está baseada no respeito ao direito internacional e ao multilateralismo.
“Essa é uma parceria baseada no multilateralismo. Reafirmamos nosso pleno respeito a todos os pactos internacionais que assumimos nas Nações Unidas e na Organização Mundial do Comércio”, declarou Lula. “O acordo que será assinado amanhã em Assunção, no Paraguai, é bom para o Brasil, é bom para o Mercosul, é bom para a Europa e é muito bom, sobretudo para o mundo democrático e para o multilateralismo”, completou.
Finalmente, o presidente ressaltou os acordos recentes firmados pelo Mercosul e projetou novas parcerias que estão sendo negociadas no âmbito do bloco. “Em meu terceiro mandato, o Mercosul concluiu três importantes acordos comerciais com a União Europeia, com o Efta [Associação Europeia de Livre Comércio] e com Singapura. Continuaremos trabalhando para abrir mais mercados e para construir novas parcerias no mundo todo, em particular com o Canadá, México, Vietnã, Japão e China”, pontuou Lula.
Por sua vez, Von der Leyen disse que não poderia deixar de se reunir com Lula antes da assinatura do acordo, e destacou o papel do presidente brasileiro para a finalização do pacto.
“A liderança política, o compromisso pessoal e a paixão que o senhor mostrou nas últimas semanas e meses, meu caro presidente, são realmente enormes. Muito obrigada pelo direcionamento habilidoso durante as negociações e por entregar esse acordo histórico”, afirmou Von der Leyen.
“O senhor é um líder realmente comprometido com os valores que são muito importantes para nós: a democracia, uma ordem internacional com base em regras e o respeito ao nosso planeta, às comunidades e às nações soberanas. É esse tipo de liderança que precisamos hoje no mundo”, completou a presidenta da Comissão Europeia.
Von der Leyen se referiu ainda a negociações que estão em andamento entre os dois blocos para um acordo que envolva a exploração de minerais críticos e terras raras.
“Fico feliz em ver que o Mercosul e a União Europeia também estão chegando a um acordo político para matérias-primas. Com isso, haverá projetos de investimento conjuntos em lítio, níquel e também terras raras. Isso é realmente importantíssimo para a transição limpa, como também digital, e nos leva à independência em um mundo onde os minerais terminam virando um instrumento de coerção”, disse.
Por outro lado, a líder europeia destacou que em 2027, serão comemorados os 20 anos da parceria estratégia entre a UE e o Brasil, e disse a assinatura em Assunção será apenas o primeiro passo.
“Amanhã será um primeiro passo. Os próximos capítulos ainda precisam ser escritos e toda a história só será contada com êxito quando as pessoas e as empresas consigam sentir o benefício do nosso acordo. Isso deve ocorrer rapidamente quando a gente entregar esse acordo Mercosul e União Europeia. O melhor ainda está por vir”, finalizou Von der Leyen, agradecendo ao presidente em português. “Muito obrigada, senhor presidente.”
Promessa frustrada
Ao assumir a presidência rotativa do bloco, em julho de 2025, Lula prometeu entregar o acordo assinado ainda no mandato brasileiro. No entanto, por resistência de alguns países europeus, como Itália e França, a assinatura, que estava prevista para o dia 20 de dezembro, foi adiada. Na época, durante uma reunião ministerial na Granja do Torto, o presidente se irritou pelo adiamento do acordo.
“Se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”, avisou. “Faz 26 anos que a gente espera esse acordo. O acordo é mais favorável para eles do que para nós. O [Emmanuel] Macron não quer fazer por causa dos agricultores deles. A Itália não quer fazer, não sei por qual motivo”, comentou Lula.
Em seguida, em coletiva de imprensa no Palácio do Planalto, o mandatário brasileiro moderou o tom e disse que colocaria em discussão a possibilidade de mais um adiamento da assinatura do acordo, o que de fato ocorreu. Dessa forma, a presidência do bloco foi transferida ao Paraguai, durante a 67ª Cúpula de Presidentes do Mercosul, em 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu.
Milei, Paz e Orsi na cerimônia
Inicialmente, a cerimônia em Assunção seria de nível ministerial, somente com os chanceleres do bloco. No entanto, há cerca de duas semanas, o presidente paraguaio Santiago Peña Palacios mudou de ideia e convidou os chefes de Estado para protagonizar o evento.
Lula decidiu não comparecer à reunião, que terá a presença dos presidentes da Argentina, Javier Milei, do Uruguai, Yamandú Orsi, e da Bolívia, Rodrigo Paz, segundo informações do governo paraguaio. O Brasil será representado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.
Críticas
O governo brasileiro acredita que o acordo é estratégico, sobretudo diante da guerra comercial, deflagrada pelo governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, e que obriga o país a diversificar seus mercados.
Por outro lado, movimentos sociais de pequenos produtores dos países membros dos dois blocos questionam os efeitos nocivos do acordo, que estabelece condições desiguais para a concorrência, beneficiando as grandes corporações produtoras de commodities.
Em 2024, a Via Campesina divulgou nota pedindo ao presidente Lula a suspensão das negociações, alertando para o caráter “injusto e excludente” da proposta. Segundo os movimentos, o acordo representa um retrocesso socioeconômico para o Brasil e o Mercosul, além de reproduzir uma lógica sem compromisso com o desenvolvimento nacional.
“O acordo assume caraterísticas neocoloniais na sua concepção e ameaça, em seus termos, nossos povos e territórios, ameaça a agricultura camponesa, as comunidades tradicionais e entrega nossos bens comuns aos interesses do capital internacional, consolidando assim o caráter agroexportador da nossa economia, que é basicamente continuar exportando matéria-prima para abastecer as demandas dos países europeus em troca dos produtos industrializados”, afirmava o comunicado da Via Campesina.
