Libertação

Assassinato de Patrice Lumumba, mártir que lutou pela independência congolesa, completa 65 anos

O primeiro-ministro da República Democrática do Congo permanece um símbolo da luta anticolonial e da soberania africana

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Um monumento a Patrice Lumumba construído pela Juventude Alemanha Livre em Leipzig; a rua foi posteriormente rebatizada de “Rua Lumumba” em uma cerimônia com estudantes congoleses em 1961
Um monumento a Patrice Lumumba construído pela Juventude Alemanha Livre em Leipzig; a rua foi posteriormente rebatizada de “Rua Lumumba” em uma cerimônia com estudantes congoleses em 1961 | Crédito: Reprodução

Neste 17 de janeiro, a morte de Patrice Emery Lumumba, figura central da luta pela libertação do Congo belga completa 65 anos. Fundador do Movimento Nacional Congolês (MNC), ele buscava a soberania sobre os recursos naturais do país e a dignidade de seu povo. 

Patrice Lumumba nasceu em 2 de julho de 1925 na aldeia de Onalua, província de Kasai, no território que hoje é conhecido como a República Democrática do Congo (RDC). Educado em escolas missionárias católicas, ele iniciou sua trajetória profissional e política precocemente, o que o levou a consolidar convicções progressistas e uma defesa ferrenha da independência nacional. 

Sindicalista e ativista, ele fundou em 1958 o Movimento Nacional Congolês (MNC), o primeiro partido político do país a defender a unidade nacional acima das divisões étnicas e tribais, e que se tornou a principal força na conquista da soberania.

Em dezembro daquele mesmo ano, durante a Conferência dos Povos Africanos sediada em Gana, o líder congolês ganhou destaque pela firmeza ao promover a unidade pan-africana contra o domínio estrangeiro. 

Na ocasião, ele declarou: “A despeito das fronteiras que nos separam, a despeito de nossas diferenças étnicas, para fazer do continente africano livre e feliz, resgatado da insegurança, do medo e do jugo colonial”. 

O evento reuniu figuras históricas da libertação do continente, como o anfitrião Kwame Nkrumah e outros nomes fundamentais como Sekou Touré, da Guiné, Julius Nyerere, da Tanzânia, e Tom Mboia, do Quênia.

O discurso que rompeu o silêncio colonial

Já durante a cerimônia de independência, ocorrida em 30 de junho de 1960, o Rei Balduíno da Bélgica proferiu um discurso paternalista, elogiando a “obra civilizadora” do regime colonial — o mesmo que, sob Leopoldo II, impôs um dos períodos mais sangrentos da história.

Lumumba, em uma resposta histórica e fora do protocolo, denunciou as humilhações e o racismo estrutural: “Sabíamos que nas cidades havia casas magníficas para os brancos e barracos em ruínas para os negros… conhecemos sofrimentos atrozes; exilados na nossa própria terra natal, a vida era pior que a própria morte.”

A armadilha da Guerra Fria e o urânio

O destino de Lumumba foi selado pelo contexto geopolítico. A Bélgica, ao sair, deixou um estado intencionalmente fragilizado: havia apenas três africanos em cargos de direção e menos de 30 graduados em todo o país. O objetivo era manter a dependência técnica e econômica.

Além disso, o Congo detinha o urânio usado pelos EUA nas bombas de Hiroshima e Nagasaki. O temor de que Lumumba, visto como um potencial “Fidel Castro africano” nacionalizasse esses minerais ou se aliasse à União Soviética levou a CIA e o governo belga a orquestrarem sua queda.

O assassinato e a tentativa de apagamento

Apenas meses após assumir como Primeiro-Ministro, Lumumba foi deposto por um golpe liderado por Mobutu Sese Seko. Capturado e entregue a inimigos na província separatista de Katanga, foi fuzilado em 17 de janeiro de 1961 com a participação direta de agentes belgas.

Para evitar que seu túmulo se tornasse um símbolo de resistência, seu corpo foi desenterrado e dissolvido em ácido, restando apenas um dente de ouro, guardado como “troféu” por um comissário belga e devolvido à família somente décadas depois. Como descreveu o sociólogo Ludo De Witte, este foi “o assassinato mais importante do século XX”.

Sua postura de não alinhamento e a busca por auxílio para manter a integridade territorial do país foram interpretadas pelos Estados Unidos e pela antiga potência colonial como uma inclinação ao bloco soviético. 

Em entrevista ao site DW, a filha do ativista Juliana Lumumba ainda questiona: “Quem assassinou o pai? Como é que os americanos ajudaram no assassinato? O que fizeram as Nações Unidas: mantiveram-se de braços cruzados, apesar de ele estar sob a sua proteção?”, afirma ao site.

“Como se sentiria se lhe dissessem que o seu pai não só foi morto, enterrado, desenterrado, cortado em pedaços, como também lhe retiraram partes do corpo?”, pergunta. “Para muitos, ele foi o primeiro primeiro-ministro do Congo, um herói nacional. Mas para mim, era o meu pai”, disse ela na entrevista concedida em julho de 2025.

Apesar da luta da filha de Lumumba, ninguém foi levado à justiça pelo assassinato. “Ninguém foi responsabilizado. Nenhum belga, nenhum europeu, nenhum congolês. Nem brancos, nem negros. Todos concordam que houve um homicídio. Houve um crime. Mas ninguém o cometeu”, lamentou ela. Patrice Lumumba faria 101 anos em 2 de julho de 2026.

Atualmente, o espírito de Patrice Lumumba é invocado por novas gerações de congoleses que denunciam o que chamam de “silêncio internacional” diante do conflito humanitário no país. 

Recentemente, a figura de Lumumba foi homenageada de forma simbólica na Copa Africana de Nações, onde um torcedor congolês se transformou em uma estátua viva inspirada no monumento do líder, reforçando a mensagem de independência e dignidade que perpassa o tempo e o esporte. 

Michel Kuka Mboladinga, torcedor da República Democrática do Congo, presta homenagem ao primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba, das oitavas de final da Copa Africana de Nações (CAN) entre Argélia e República Democrática do Congo, no Estádio Príncipe Moulay El Hassan, em Rabat, em 6 de janeiro de 2026. Créditos: Gabriel Bouys / AFP.

Congo e o conflito de décadas

Ainda assim, décadas depois, a relevância de Lumumba permanece viva e dolorosamente atual no cotidiano da República Democrática do Congo. Reflexo direto da morte do líder congolês é a violência instaurada no leste do país, alimentada por milícias e interesses internacionais que disputam o controle das minas. 

O país, que ainda possui uma das maiores reservas mundiais de minerais como o cobalto e o coltan, segue sofrendo com a instabilidade política e a exploração predatória que Lumumba tentou combater. 

Situada no centro estratégico do continente africano, a República Democrática do Congo carrega um histórico de instabilidade que remonta às suas origens. Após a Conferência de Berlim em 1885, o território tornou-se posse particular do rei belga Leopoldo II, submetendo a população a um prolongado regime de escravidão e exploração colonial. 

A configuração da crise, no entanto, ganhou contornos decisivos a partir de 1996, quando o ditador Mobutu Sese Seko, após 32 anos no comando, foi derrubado por uma rebelião que avançou do leste do país até a capital, Kinshasa.

A queda de Mobutu abriu caminho para uma influência direta do Estado ruandês na RDC, chegando ao ponto de um general de origem ruandesa comandar as forças armadas congolesas por um período significativo. Esse marco deu início a um ciclo de violência que já perdura por quase três décadas, intensificando-se nos anos 2000 com o fortalecimento da exploração mineral como motor econômico da guerra.

Atualmente, o saldo humano desse processo é devastador, contabilizando cerca de 10 milhões de mortes acumuladas ao longo de sucessivas fases de combate, com as mulheres enfrentando de forma mais severa as múltiplas formas de violência. 

O país detém uma das maiores reservas de minérios do planeta, o que atrai a cobiça de potências econômicas como os Estados Unidos e a China, além de grandes corporações de tecnologia interessadas nos recursos para o mercado mundial. 

Em junho de 2025, um acordo de paz foi firmado entre os governos da RDC e de Ruanda em Washington, sob mediação internacional. Contudo, em reportagem publicada pela Agência Pública, Prosper Dinganga, coordenador do coletivo A Voz do Congo, argumentou que as intervenções diplomáticas mediadas pela gestão de Donald Trump, com o apoio do governo do Catar, falham em oferecer uma solução definitiva, pois não atacam as causas estruturais do conflito.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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