Professor, sociólogo, ex-deputado distrital, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, recentemente, filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), Leandro Grass é um dos pré-candidatos ao Palácio do Buriti em 2026. Em entrevista concedida ao Brasil de Fato DF, ele fez uma análise da atual gestão do Governo do Distrito Federal (GDF).
O cenário descrito pelo pré-candidato é de uma cidade que precisa de uma nova estruturação na conjuntura política. Na sua visão, a capital federal acumula problemas que para serem solucionados, será necessário um esforço contínuo.
“Brasília está estagnada, Brasília está em processo de degradação e acho que tem que haver uma refundação da cidade. Brasília vai ter que ser refundada”, destaca.
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Grass também analisa a relação institucional entre o Governo Federal e o GDF, destaca os possíveis impactos do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) no bolso do servidor e defende o Tarifa Zero como caminho para a mobilidade. Para ele, um dos desafios da oposição será recuperar a confiança do eleitor que ‘acordou’ após o avanço da extrema direita na capital.
Leia a entrevista na íntegra:
Brasil de Fato DF – O ano de 2025 foi marcado por contradições: de um lado, o GDF anunciou grandes obras; tivemos aprovações de projetos importantes; de outro, fomos sacudidos por escândalos financeiros envolvendo o Banco BRB e o Master. Olhando para trás, qual o saldo que o senhor faz da gestão Ibaneis em 2025 e como esses episódios impactam a confiança do brasiliense para 2026? Como avalia os impactos reais dessas transações do BRB para a população do DF?
Leandro Grass – 2025 foi a comprovação definitiva de que o governo Ibaneis e Celina é incompetente e com gravíssimos problemas de corrupção. Incompetente para gerir saúde, colocou o DF no último lugar da fila do SUS, ou seja, é o lugar onde as pessoas mais esperam para ser atendidas, é onde as pessoas mais demoram para fazer tratamento de câncer, ambulatorial, cirurgia, tudo. Quase 100 mil pedidos na regulação. 2025 é o ano em que o DF foi parar no último lugar da oferta da escola em tempo integral.
É o lugar onde menos há escolas de ensino integral proporcionalmente ao conjunto de todas as escolas. 20% do aumento da população de rua nos três anos anteriores. 10% de desemprego, sendo que a média nacional é 5,4%.
É a comprovação definitiva de um governo que não consegue fazer o básico do ponto de vista do seu papel. E um governo que comprovadamente tem graves problemas de corrupção. Tá aí o escândalo do Master com uma série de questões relativas ao papel do governador, da vice-governadora, do ex-presidente do banco relativas inclusive à própria Câmara Legislativa. Porque a Câmara aprovou a compra do Master pelo BRB. Também é preciso entender qual foi o acordo, qual foi a intenção da maioria dos deputados distritais em aprovar esse tipo de coisa. Corrupção também, problemas de má conduta com pessoas importantes do governo, o ex-secretário de economia, ex-presidente do IPREV, Ney Ferraz foi condenado pelo TJ.
Teve operações na área da saúde, investigando questões de compras, licitações, ou seja, é um governo que tem problemas éticos gravíssimos. Então, essa é minha avaliação.
E do ponto de vista específico do BRB e do Master, é algo muito grave. Grave porque em si, o que se vê, o que se já se tem de informações, demonstra ali conflito de interesse, demonstra um papel inadequado do governador, num tipo de condução como essa. E existe a gravidade em si do efeito dessa operação para o DF.
Em primeiro lugar, o Iprev [Instituto de Previdência], que mantém a aposentadoria dos servidores, está imbricado com o BRB. É um dos acionistas, então, à medida que o BRB se prejudica, isso prejudica a previdência aqui dos servidores. Há um risco hoje na aposentadoria dos servidores públicos do DF. Dois, o BRB opera políticas públicas da cidade. Se o banco está envolvido em problemas graves, isso também vai ter reflexos nas políticas. Três, o BRB tem como sócio majoritário o próprio governo.
A situação atual, por exemplo, que é muito preocupante, é o fato do banco já necessitar de aportes e esses aportes, possivelmente, virem do tesouro do DF, dos recursos públicos. Ou seja, isso já vai ter um efeito nas contas públicas a ponto de comprometer políticas, serviços essenciais e até mesmo, quem sabe, a folha de pagamento dos servidores.
De onde que vai vir esse dinheiro? Como é que o governo vai conseguir repor esse dinheiro? Já que o próprio governador disse que há problemas na arrecadação. Cortou recursos da saúde, cortou recursos importantes de outras áreas, argumentando que não tem dinheiro porque a arrecadação está com problema.
Esse governo é incompetente para promover desenvolvimento econômico. Tem um contexto muito sério que vai gerar reflexos drásticos para população, para a economia do DF e para o Brasil, porque estamos falando de um problema que envolve instituições financeiras, que estão imbricadas em outros estados, inclusive o BRB tem ações em outros estados, tem iniciativas de financiamento.
É um banco que atuou muito nos últimos anos no setor imobiliário. Como é que isso vai repercutir no sistema econômico como todo no sistema financeiro? Essa é a situação. E isso impõe não só uma intensa atuação nossa do ponto de vista de esclarecimento à população, mas também de enfrentamento. Porque, deixar o DF refém nas mãos desse grupo político, dessas pessoas que já se demonstraram incompetentes e corruptas, é muito ruim.
Estamos falando da capital do país que tem que fazer uma virada, tem que dar uma guinada e voltar a ser o que ela era, que era uma referência em todos os aspectos.
Relação do Governo Federal com o GDF
Na presidência do Iphan, o senhor acompanhou de perto projetos como a revitalização da Praça dos Três Poderes e do Setor Comercial Sul. Onde a cooperação com o GDF avançou, houve algum momento em que a disputa política travou soluções técnicas que beneficiariam o centro da capital? Como observa a relação do GDF com o Governo Federal?
Diferente do Ibaneis, que diz que não senta com o Lula, eu, mesmo tendo perdido as eleições para o Ibaneis, sentei com o Ibaneis. Sentei com o secretário do governo Ibaneis para tratar das questões que são relativas ao patrimônio cultural. Em nenhum momento eu confundi o meu papel como presidente do Iphan com o meu papel político e a minha posição política. Já que eu ainda tenho uma missão que é preservar o patrimônio cultural brasileiro.
Naturalmente, nós tivemos uma série de diálogos com áreas do governo do DF. Vou começar citando a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, a Seduh, quando tratamos do PPCUB, o Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico. A Secretaria consultou o Iphan em diversos momentos, que respondeu. E, nesse diálogo, o PPCUB foi encaminhado à Câmara. E quando foi aprovado lá, com uma série de alterações e desvirtuamentos, o Iphan atuou. Se posicionou recomendando vetos ao governador. E o governador acatou esses vetos. Então, aqui já há uma demonstração de que a gente se relacionou institucionalmente para o bem daquilo que tínhamos que cuidar.
Outro exemplo é a relação do Iphan com a Secretaria de Cultura e Economia Criativa, que tem também um papel de preservação do patrimônio. Brasília é tombada não só a nível federal, é tombada também a nível distrital. A subsecretaria de patrimônio também é responsável pelo tombamento e há também os patrimônios imateriais, os bens imateriais, por exemplo, cordel, teatro de bonecos e outras expressões, que nós fazemos um trabalho conjunto de preservação desses detentores de estímulo.
Além de um acordo que temos com a Secretaria de Educação, onde o Iphan promove a educação patrimonial em parceria com a Secretaria. A gerência que cuida dessa área de patrimônio, são professores, pessoas muito comprometidas, inclusive, servidores públicos.
Nesse sentido, o Iphan, e aí falo como presidente do órgão, em nenhum momento deixou de dialogar com o governo do DF, como dialoga com todos os governos do Brasil, a exemplo que o presidente Lula manda a gente fazer e ele dá o testemunho. O Lula dialoga com todos os governadores que querem dialogar. O Governo Federal está hoje realizando obras em todo Brasil, mesmo em estados onde os governadores são de oposição, mesmo em prefeituras onde os prefeitos são de oposição. Vide Goiás que está recebendo muitos investimentos do Governo Federal.
São Paulo está recebendo muitos investimentos do Governo Federal. Nós estamos fazendo obras no PAC, na área de patrimônio também em vários desses estados. Fazendo parcerias com prefeituras e governo estaduais que são de partidos de oposição. Isso demonstra que nós temos espírito público e que nós temos responsabilidade com um país, diferente de outras pessoas, que, infelizmente, em razão da sua ideologia ou do seu partido, decidem prejudicar a população por picuinha ou por imaturidade política.
Reorganização da cidade
O novo Plano Diretor (PDOT) aprovado no ano passado tem sido lido por alguns como uma carta branca para o mercado imobiliário. Na prática, como impedir que Brasília se torne em 2026 apenas um amontoado de condomínios fechados para a elite, enquanto o povo da periferia segue abandonado, sem saneamento e refém de um transporte público precário e caro? Organizações da sociedade civil apontaram a ausência de participação social. Como avalia essa questão?
O plano diretor não atinge diretamente a pauta do patrimônio, mas eu como cidadão e como agente político da cidade acompanhei de perto e tenho muitas preocupações com aquilo que foi aprovado. Em primeiro lugar, pela base, pela essência do plano. Ou seja, não se trata de um plano que está pensando a cidade por inteiro, nas suas diversas dimensões. Mas sim, que fez um recorte quase que exclusivo no aspecto fundiário.
Regularização ou não regularização. Liberação de lote ou não liberação. Passou muito por isso. Transformar a área rural em área urbana, ou não? Ou seja, me parece que é um plano que visa apenas discutir o sentido econômico da terra e não o sentido social dela.
Nós temos aqui algumas questões importantes que precisam ser ou revisadas nesse PDOT ou, de alguma maneira, tem que criar um outro plano mais adiante para para consertar. Começar falando de áreas que já estão consolidadas do ponto de vista habitacional e que não foram regularizadas, não serão regularizadas com esse PDOT . Mesmo falando, por exemplo, de áreas que não têm sensibilidade ambiental e que poderiam ter sido já incluídas agora.
São comunidades inteiras que estão fora do PDOT e seguem na insegurança jurídica em relação a suas escrituras, em relação às casas dessas pessoas. As que estão em áreas sensíveis ambientalmente, aí sim, acho que tem que haver uma discussão sobre como vai se dar uma remoção ou não, como vai ser a assistência social a essas pessoas. Porque esse governo mesmo, o Ibaneis falou lá em 2018 que ia construir as casas derrubadas pela Agefis [Agência de Fiscalização do DF] com o dinheiro dele. E esse foi um governo que derrubou muitas casas e não deu apoio às pessoas que estavam lá.
Nós não estamos aqui a confirmar e nem concordar com a ocupação irregular, com a grilagem, com o parcelamento ilegal do solo. Mas estamos falando de pessoas. Toda vez que o governo atua para ordenar o solo, para ordenar a terra, ele tem que lembrar que ali tem gente. E quando tem gente, você tem que garantir direitos. E esse governo não fez isso. Há uma preocupação muito grande com a insegurança dessas áreas que não serão regularizadas.
O segundo ponto é a conjugação da regularização, da destinação de áreas para ocupação urbana, mas sem pensar malha de mobilidade, sem pensar outros serviços especializadas em comunicação e saúde, como se você só fosse colocar as pessoas ali para morar e elas não precisassem de mais nada além da moradia, elas precisam de outras coisas. Esse plano também não foi inteligente nessa visão integrada da cidade.
Então, por exemplo, surgimento de novas áreas, novos setores habitacionais. Como é que vai se dar o transporte, o deslocamento das pessoas? Não tem previsão de investimento em infraestrutura complementar, de metrô, VLT, ônibus. Não tem isso. O plano diretor aponta para questão fundiária quase que exclusivamente e deixa de pensar a cidade de maneira sistêmica.
O que precisamos é já iniciar uma discussão de revisão desse PDOT o mais rápido possível para olhar para esses pontos, para esses gargalos, e construir um planejamento urbano de verdade.
Brasília, sem dúvida, tem como o maior problema de todos o problema fundiário, porque do problema fundiário desdobra o problema da habitação precária, o problema ambiental, da segurança pública, porque você tem ali pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade, a desigualdade ela agrava a insegurança pública.
Brasília precisa de um planejamento urbano consistente e não é o que nós temos hoje. Hoje nós temos um planejamento que foca fundamentalmente o interesse da Terracap [Agência de Desenvolvimento do DF] do ponto de vista da destinação em venda de terras e do interesse imobiliário e não estou falando do imobiliário de interesse social, mas do imobiliário de alto padrão.
Contingenciamento
A saúde e a educação perderam recursos do Fundo Constitucional em 2026. Qual será o tamanho do prejuízo real para o cidadão que depende do serviço público este ano?
É o agravamento da crise e do colapso que já estão colocados. A população já está pagando esse preço. E o problema não é só recurso. Inclusive, o GDF devolveu recursos ao Fundo Nacional de Saúde porque foi incompetente para utilizar esse dinheiro.
O problema também passa por gestão, por governança, por metas, por prioridades, por resultados. Hoje na saúde, por exemplo, nós temos uma crise que é do atendimento, mas que tem como causa a crise de gestão. É um modelo que não funciona. O Iges [Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF] acabou ocupando o lugar da Secretaria de Saúde, do ponto de vista da gestão, da entrega de serviço.
É incapaz de pensar, de elaborar e não tem responsabilidade fiscal, não tem responsabilidade orçamentária e não entrega as metas que ele se compromete a entregar. Tem um contrato do Iges com a Secretaria de Saúde que não é cumprido desde 2019 e não acontece nada. Aí é preciso questionar também o papel dos órgãos de controle. O que Ministério Público e Tribunal de Contas vão fazer para que isso seja corrigido?
A saúde está colapsada. Atenção primária uma cobertura que não chega a 70%. Atenção secundária e a atenção terciária, quase 100 mil pedidos na regulação sem atendimento. Não tem anestesistas em muitos hospitais, então não consegue fazer os procedimentos. Nas UPAs também muitas vezes falta médico e nas unidades básicas de saúde não tem as equipes construídas para fazer essa cobertura do território.
E na educação, a única coisa que esse governo foi capaz de pensar para a educação foi a escola militarizada. Ele não foi capaz de elaborar absolutamente nada de inovador e de próspero para colocar a educação no lugar adiante.
Estamos em último lugar na oferta da escola integral, tem aí uma queda do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] que regrediu nos anos iniciais. Tem também um problema de desilusão, descrédito da escola pública. Vemos professores agredidos, diretores, gestores estimulados, porque a gratificação é ridícula.
Não foi apresentado um plano de carreira novo para os professores, houve uma correção recente das gratificações por titulação que era básico, já deveria ter acontecido há muito tempo. É um corpo docente muito desestimulado, muito desencorajado. Você anda nas escolas, os professores estão cansados, estão adoecidos, os alunos também estão de saco cheio, porque a escola é monótona. A escola não traz nenhum tipo de novidade.
A formação continuada que também caiu muito. Não consegue mais incubar e projetar projetos inovadores, como já teve. Acho que a última vez que eu ouvi falar de um projeto inovador que foi criado aqui, foi o mulheres inspiradoras da Gina. Depois virou formação continuada e parou. A educação precoce, que é um dos melhores projetos de educação que a gente tem no mundo, começa aqui em Brasília, está sem recursos.
Os professores têm que passar o pires para os deputados para botarem algum tipo de recurso para comprar um material, um equipamento novo. Ou seja, é um governo que não consegue olhar a educação como um motor de desenvolvimento, de perspectiva de vida. E aí tem um nível de evasão muito alto, uma média de 3 mil alunos abandonando, evadindo por ano. Saindo da escola sem projeto de vida. Essa é a grande questão. A juventude saindo da escola sem projeto de vida.
E isso faz com que não acredite mais na escola também. A escola não é só lugar de passagem, é um lugar de construção de coisas importantes. Acho que tem que recuperar essa credibilidade, essa autoestima da escola pública.
Brasília nasceu para ser modelo. Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro. Falta um pouco desse espírito de inovação.
Brasília está estagnada, Brasília está em processo de degradação e acho que tem que haver uma refundação da cidade. É o que a gente defende. Brasília vai ter que ser refundada. Quase que resetar uma série de questões. Recuperar a perspectiva da zeladoria urbana, da arborização, da qualidade urbanística. Em algumas regiões administrativas, Santa Maria, São Sebastião, Itapoã, não tem árvores. É árido. A rua está suja, com lixo. O colapso com as cooperativas que não estão recebendo em dia.
Não tem uma política de incentivo às cooperativas, não se faz coleta seletiva. O governo não gasta um real de publicidade institucional em educação ambiental, nem nada de conscientização do povo. E é difícil fazer política pública sem uma sociedade engajada. Estamos numa crise da educação da saúde e que vai dar muito trabalho para resolver. Vai precisar de muita pactuação e muita criatividade.
O GDF conta com um orçamento bilionário para este ano. Na sua visão, quais deveriam ser as prioridades urgentes do governo?
O governo deveria resolver o problema da saúde. Não vai resolver. Esse GDF não irá resolver porque ele criou esse problema. Dois, segurança. A sensação de insegurança na população é enorme. O medo de andar na rua, o medo de andar à noite, principalmente as mulheres, o alto índice de feminicídio, de violência doméstica. Roubos e furtos, crimes contra o patrimônio. As organizações criminosas que estão crescendo e se fortalecendo dentro do Distrito Federal, não só as que vêm de fora, mas as que já surgem aqui dentro.
O crime da grilagem de terras. Há um um conjunto de crimes que geram medo na população, angústia e que não estão sendo enfrentadas por esse governo. Brasília tem ainda vantagem de possuir um índice de crimes contra a vida muito menor do que Rio de Janeiro, São Paulo, por exemplo.
Mas toda essa teia criminosa que está sendo incubada e amadurecida pode desembocar logo lá na frente, numa situação de sítio, como vemos no Rio em muitos momentos. Onde as pessoas não conseguem chegar em casa, se não passar pelo pedágio do crime organizado. Se nada for feito agora, o DF vai chegar nesse lugar, está caminhando para lá.
Quando falo de segurança pública, estou falando de uma segurança preventiva, cidadã, de conscientização, de prevenção ao crime na base. E aí, principalmente, quando falamos de crimes contra as mulheres, isso tem que estar cotidianamente sendo trabalhado nas escolas, nos ambientes de formação humana primários. Precisamos ter uma rede de proteção à mulher forte aqui no Distrito Federal.
Hoje quando a vítima vai à delegacia, faz a denúncia, muitas vezes fica vulnerável, porque não há um desdobramento dessa denúncia. A rede de proteção não funciona. Os protocolos não são implementados. É preciso que o Poder Judiciário junto ao Poder Executivo façam um pacto de cumprimento das medidas protetivas.
E hoje, com a tecnologia que está disponível, consegue dar melhores condições às polícias para fazer o monitoramento da criminalidade.
Seja com câmeras instaladas em espaços públicos que vão poder monitorar qualquer tipo de ação criminosa e a polícia já atuar com mais rapidez e inteligência, quanto também na capacidade de monitoramento, das áreas de risco, no caso dos crimes contra crimes de grilagens, crimes fundiários, o acompanhamento de sistema de satélite.
Há um aparato tecnológico totalmente possível de fortalecer a segurança pública e dar mais condições para a atuação das polícias e no combate aos criminosos. Acho que essa é uma questão central. Brasília está com medo, a população está com medo, sai na rua com medo.
E por fim, a educação. Temos que realmente retomar a educação como um projeto de um projeto prioritário da sociedade.
Há outros aspectos também que tem a ver com o crédito, a questão econômica. Brasília estagnou economicamente nessa informalidade, o excesso de pessoas que não tem acesso à renda é muito problemático também. Isso tem aumentado a desigualdade e temos que estabelecer um projeto de desenvolvimento econômico para para capital, com a nova economia do século 21, área de tecnologia, economia criativa, economia de eventos, a perspectiva da logística.
Brasília está no centro do país, poderia ser um grande hub de distribuição, um grande porto seco, principalmente de mercadoria e serviço.
Tudo isso é parte fundamental para tirarmos Brasília dessa condição precária, do ponto de vista social e colocar também numa rota de redução da desigualdade e geração de renda. Nós estamos com a maior desigualdade de renda do Brasil de novo. Nós temos novamente a maior área vulnerável do país, uma favela, que é o Sol Nascente.
Brasília está caminhando para trás, o Brasil está caminhando para frente. Tudo que a gente precisa é que tenha sintonia.
Para além dos problemas que já discutimos, quais são os maiores desafios que o brasiliense terá de enfrentar no dia a dia em 2026 e como a organização popular pode ajudar a mudar esse cenário?
Um desafio que o brasiliense tem todo dia é poder usufruir de uma mobilidade urbana segura, rápida, inteligente e barata. Nós definimos a tarifa zero.
Essa é uma pauta de mobilização popular importante, temos condições de construir. Pautamos isso na eleição de 2022, estava no nosso programa de governo. O governo Ibaneis implantou a tarifa zero aos finais de semana, mas reduziu a frota. A população tem ônibus de graça, mas tem menos ônibus. Outro ponto de mobilização, que aí é tanto de caráter local quanto nacional, é discutir as condições de trabalho, a escala 6×1.
Aqui no DF também, nós temos que olhar e olhar com responsabilidade e carinho para a população em situação de rua, que aumentou muito. É um problema social grave e não se resolve isso com higienização, com retirada. Até porque, há uma heterogeneidade das condições de rua. Tem gente que está na rua porque quebrou o vínculo familiar.
Tem gente que está na rua por problema de saúde mental, por problema de drogadição, porque não conseguiu pagar o aluguel. Veio de um outro estado, por exemplo, para fazer um tratamento de saúde. Foi atrás de tratamento, não teve como voltar para casa, ficou na rua, perdeu o celular, ou outra coisa.
Acho que o enfrentamento, à situação de rua, não às pessoas, tem que ser feito.
Temos que nos mobilizar porque o debate público está indo para um lugar muito ruim, que é essa lógica da higienização. As comunidades estão muito incomodadas com os equipamentos. Quem mora aqui no Plano Piloto, incomodado com o Centro Pop, os comerciantes do Setor Comercial incomodados com o CAPS [Centros de Atenção Psicossocial]. Os de São Sebastião incomodado com a casa de passagem.
Se não tiver os equipamentos, não tem como cuidar das pessoas, mas ao mesmo tempo, qual é o passo seguinte ao acolhimento? A inserção das pessoas nas políticas públicas. Acho que temos que discutir esse problema a fundo, em uma perspectiva de cidadania. Essa é uma questão que parece que está meio esquecida assim, e está se agravando. Você vê o centro de Ceilândia, o centro de Taguatinga, o Setor Comercial Sul, o aumento é muito grande. As pessoas estão lá e aí entra o tráfico de drogas, cooptando essas pessoas. Muito complicado.
Eleições
Como observa as movimentações da extrema direita no DF para as eleições desse ano?
A extrema direita tem enfrentado um problema, que é a prisão do seu maior líder, em razão dos crimes que ele cometeu. E, por consequência, o enfraquecimento das suas pautas, que eram pautas vazias, sem consistência, cuja a maioria da população, grande parte até dos seus eleitores, hoje ex-eleitores, já perceberam que não faziam sentido.
Hoje há muitas pessoas acordando, que chegaram a votar na extrema direita e que hoje não votam mais. Acho que esse é o ponto que eles estão enfrentando e que espero que eles não consigam mesmo enfrentar, porque tem a ver com a consciência social, tem a ver com um despertar da população.
Nem todo eleitor do Bolsonaro era bolsonarista. Primeiramente é preciso entender isso. Nem todo eleitor da Damares era radical, extremista. Eram pessoas que, naquele momento, em razão do medo, da insegurança, em razão dos discursos que eram projetados, acabaram embarcando nessas armadilhas.
É um momento também para dialogar com essa parcela da população, que votou em Bolsonaro, que votou em Damares, mas que não é extremista de direita, são trabalhadores, são pessoas comuns, mas que por algum motivo não confiaram na esquerda, não confiaram nas candidaturas progressistas, não conseguiram sentir confiança em nós. É a hora de recuperar essa confiança.
E com um diálogo muito fraterno, muito paciente, muito solidário porque nós não vamos só ganhar a eleição apenas com os nossos votos. Nós também não vamos governar apenas para quem votou em nós. Nós temos que ter votos suficientes para ganhar a eleição. Isso passa por ter os votos de quem pensa como a esquerda, quem é de esquerda, mas também de quem não é de esquerda.
E governar também para todos, especialmente para os mais pobres, que não são todos de esquerda e também não são todos bolsonaristas.

