A assinatura de novos contratos da Petrobras e da Transpetro no Estaleiro Ecovix, no Porto de Rio Grande, no sul do Rio Grande do Sul, marcou, nesta terça-feira (20), um novo capítulo da política de retomada da indústria naval brasileira. O ato contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ministros, autoridades locais e representantes do setor produtivo, e integra o Programa Mar Aberto, iniciativa do governo federal voltada à reconstrução da capacidade industrial naval e offshore do país após mais de uma década de retração.
Os contratos firmados preveem a construção de cinco navios gaseiros, dezoito empurradores e dezoito barcaças, além do acompanhamento técnico da construção de navios do tipo Handymax. O investimento total soma R$ 2,8 bilhões e envolve estaleiros localizados no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Amazonas. As embarcações serão operadas pela Transpetro, subsidiária da Petrobras responsável pelo transporte e logística.
O evento ocorreu em um cenário simbólico para o setor naval. O Estaleiro Rio Grande, que já foi um dos maiores polos de construção naval da América Latina, enfrentou anos de paralisação e demissões em massa após a crise do setor. A retomada das encomendas é apresentada pelo governo federal como parte de uma estratégia de reconstrução da indústria nacional com base no fortalecimento do conteúdo local e da soberania produtiva.
Emprego, renda e reconstrução regional
O impacto direto sobre o emprego foi um dos eixos centrais do discurso dos representantes do estaleiro e das autoridades locais. José Antunes Sobrinho, representante do grupo Ecovix, afirmou que o estaleiro, que atualmente emprega cerca de 400 trabalhadores, projeta chegar a aproximadamente 4 mil postos de trabalho diretos até o segundo semestre de 2027, além de cerca de 16 mil empregos indiretos ao longo da cadeia produtiva.
Segundo Antunes, a vitória da Ecovix na licitação ocorreu em concorrência com estaleiros internacionais, inclusive asiáticos, o que, em sua avaliação, demonstra a capacidade técnica da indústria brasileira quando há políticas públicas de estímulo. Para ele, “a valorização do conteúdo local não é privilégio da indústria naval; é uma condição que todos os países adotam para defender seus empregos, sua indústria e sua produção, principalmente nos dias de hoje”. Completou afirmando: “Aqui é economia real. Não é mercado financeiro”.
A prefeita de Rio Grande, Darlene Pereira (PT), destacou o impacto social da retomada das atividades no estaleiro, especialmente para as famílias que dependem historicamente do setor naval. Segundo ela, o retorno dos investimentos federais tem provocado o movimento de trabalhadores que haviam deixado a cidade em busca de emprego e que agora retornam. “O presidente Lula pôde ouvir a esperança retornando e a possibilidade de crescimento”, disse.
Produção recorde e necessidade de frota própria
Durante a cerimônia, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, apresentou dados que contextualizam a ampliação da demanda por novas embarcações. De acordo com ela, o petróleo voltou a ocupar, em 2025, a posição de principal produto da pauta de exportações brasileiras, pela segunda vez, com uma produção média de 3,46 milhões de barris por dia, crescimento de 11% em relação ao ano anterior.
Chambriard atribuiu o desempenho à antecipação de plataformas e ao recorde de interligação de poços no pré-sal, ressaltando que esse crescimento exige uma frota moderna e sob controle nacional. Ela lembrou que a Petrobras passou mais de dez anos sem contratar a construção de navios no Brasil, período que coincidiu com o desmonte do setor. “O porte dessa demanda, que mereceu de nós o nome de Programa Mar Aberto, é de tal grandiosidade que nos espanta. O importante é que hoje nós temos encomendas no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e, em breve, muito breve, na Bahia e no Amazonas”, pontuou.
O presidente da Transpetro, Sérgio Bacci, reforçou que os contratos assinados representam não apenas a renovação da frota, mas a ampliação da atuação da companhia, inclusive no transporte por navegação interior. Para ele, o fortalecimento da indústria naval está diretamente ligado à adoção de políticas industriais específicas.
“Esses contratos que assinamos serão cumpridos. Esses nove navios serão construídos aqui e haverá contratação de mão de obra local. Não tenham dúvida disso. A indústria naval está reflorescendo em várias regiões do país”, afirmou Bacci.

Investimentos cruzados e articulação institucional
O evento também foi utilizado para anúncios que extrapolam o setor naval. Um dos destaques foi o Projeto Natureza, da empresa chilena CMPC, que prevê a instalação de uma nova fábrica de celulose em Barra do Ribeiro, com integração logística ao Porto de Rio Grande. O ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, anunciou a adesão de um Terminal de Uso Privado ao complexo portuário, considerado estratégico para o escoamento da produção.
O investimento estimado do projeto varia entre R$ 24 bilhões e R$ 27 bilhões, com capacidade de movimentar até 9 milhões de toneladas por ano. A articulação entre governo federal, estado e municípios foi apresentada como elemento central para viabilizar o empreendimento em Barra do Ribeiro. Algumas frentes ambientalistas questionam o empreendimento e chamam audiência pública para o dia 29 de janeiro, em Porto Alegre.
O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSD), participou da cerimônia e, ao subir ao palco, foi recebido com vaias por parte do público presente, composto majoritariamente por trabalhadores e apoiadores do governo federal. Apesar da reação, Leite defendeu, em seu discurso, a convivência democrática e o respeito institucional entre diferentes projetos políticos.
O governador destacou a importância da cooperação entre os entes federativos e classificou o investimento como o maior da história do estado. “A efetiva união que a gente quer para o nosso país envolve respeito: respeito às funções, respeito às pessoas, respeito aos ambientes. Aqui é um ambiente institucional. É muito importante que haja esse respeito, senão o que faz essa postura é incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa”, disse Leite.
Política industrial e reconstrução do Estado
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, vinculou a retomada da indústria naval e os novos investimentos ao conjunto de políticas públicas implementadas desde 2023. Ele citou a reativação de programas sociais e de infraestrutura, como o Minha Casa, Minha Vida, que, segundo ele, superou a marca de dois milhões de unidades contratadas e tem como meta alcançar três milhões até o final do mandato presidencial. Mais cedo, também em Rio Grande, a comitiva federal fez a entrega de 1.276 unidades do Minha Casa, Minha Vida, na modalidade Entidades.
Rui Costa afirmou que o atual governo encontrou um cenário de abandono de políticas públicas e milhares de obras paralisadas. “Esses programas todos foram paralisados. A gente só lamenta de ter encontrado, em janeiro de 2023, 86 mil casas paralisadas no Brasil. O seu governo, presidente, reconstruiu as políticas públicas de cuidado com as pessoas. Esse país voltou a investir”, ressaltou.
Reconstrução econômica e enfrentamento da desinformação
Ao encerrar a cerimônia, o presidente Lula fez um resgate histórico de seus governos anteriores e dos desafios econômicos enfrentados pelo país ao longo das últimas décadas. Lembrou o pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional, a formação de reservas internacionais e a importância da estabilidade econômica para o desenvolvimento nacional.
O presidente também associou crescimento econômico à redução das desigualdades sociais e ao enfrentamento da violência contra as mulheres, destacando a autonomia financeira como fator central para a garantia de direitos. Afirmou que o atual momento exige enfrentamento à desinformação e reconstrução institucional. “Nós precisamos destruir essa fase da mentira e do ódio que tem tomado conta do nosso país. Para construir uma casa, às vezes leva meses; para destruir, passa um minuto. Esse ano vai ser o ano da verdade porque precisamos fazer as coisas certas”, afirmou Lula.
