FOLIA

Carnaval: blocos e agentes culturais denunciam tentativa de cooptação e falta de diálogo em BH

Blocos que constroem cotidianamente a festa na capital reforçam seu caráter popular e de luta

No audio source provided.
.
A festa, por aqui, é amplamente reconhecida por seu caráter popular e democrático. | Crédito: Élcio Paraíso/Belotur

Desde seu (re)surgimento em 2009, o Carnaval de Belo Horizonte vem construindo uma trajetória de luta. A festa, por aqui, é amplamente reconhecida por seu caráter popular e democrático. Porém, de lá para cá, com a ampliação da proporção da folia, blocos e agentes culturais denunciam a tentativa de cooptação da folia por empresas privadas, apoiadas pela postura negligente do poder público municipal e estadual. 

“A organização do Carnaval de BH sempre se deu a partir do trabalho dos blocos de rua, que lutam por políticas públicas e defendem o caráter político do nosso carnaval. Há agora, a partir do poder público municipal e estadual, a tentativa de cooptação, descaracterização e mercantilização da festa, para tirar o aspecto de luta, ou seja, tirar o Carnaval de quem ele realmente pertence: o povo”, denunciam Tainá de Oliveira Babeto e Rafael Gregório Malaquias, idealizadores do bloco Transborda e membros da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta-BH).

‘Há uma tentativa de cooptação, descaracterização e mercantilização da festa, para tirar o aspecto de luta’

Verbas que contemplam menos de 20% do total de blocos e não cobrem as despesas necessárias; tentativa reincidente de promover o monopólio da venda de bebidas; falta de transparência nos editais; determinação arbitrária dos trajetos; busca por emplacar atrações nacionais com cachês altíssimos; captura simbólica das pautas de luta, diversity washing e a falta de diálogo com as lideranças culturais são algumas das denúncias que surgem quando o assunto é o Carnaval de BH. 

::Leia também: Carnaval de BH 2026 destaca blocos temáticos e reforça diversidade cultural nas ruas::

“A tentativa do governo Zema (Novo) de transformar o carnaval de BH em um grande negócio segue em curso, cooptando blocos, financiando propaganda, até fora do Brasil, e tentando impor a lógica de mercado para os blocos”, aponta Fidélis Alcântara, artista plástico e integrante do bloco Toca Raul Agremiação Psicodélica. 

O renascimento do Carnaval em BH 

Há 17 anos, devido à tentativa de proibição do uso de praças e espaços públicos, por meio de decreto do então prefeito, Márcio Lacerda, nasceu o levante popular Praia da Estação. A ideia era ocupar o espaço público e, de forma auto-organizada e descentralizada, a manifestação propôs que os belo-horizontinos aproveitassem as fontes da Praça da Estação para se refrescar em dias de calor. 

Trajes de banho, cangas e cadeiras de praia tomaram o espaço público, junto às reivindicações de pautas sociais diversas. É daí que surgem os primeiros blocos de Carnaval, como explica Alcântara. Desde então, o número de grupos e de foliões só cresceu, em um movimento de reocupação cultural do baixo centro e retomada da festa de rua em BH. 

‘O Carnaval brasileiro sempre foi disputado e o Carnaval de BH está sendo disputado hoje’

“Três blocos que saíram em 2009 se juntaram ao movimento da Praia (Mama na Vaca, Tico Tico Serra Copo e Bloco do Peixoto) e mais seis foram fundados em 2010 (Approach, Filhos de Tcha Tcha, Então, Brilha, Tetê a Santa, Samba Queixinho e Alcova Libertina). Em 2011, já foram 15 blocos. 45 em 2012; e mais de 100 novos blocos em 2013. Sempre na luta pela democratização do espaço público”, explica o artista. 

A nossa festa cresceu e hoje figura entre os maiores carnavais do país. Ao lado de cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Recife e São Paulo, os blocos belo-horizontinos atraem turistas de toda Minas Gerais e dos demais estados do país. Segundo a Secretaria Estadual de Cultura e Turismo (Secult-MG), em 2025, foram 6 milhões foliões, que movimentaram ao menos R$1,2 bilhão, gerando 20 mil empregos diretos e indiretos. 

Uma festa popular 

Apesar de atrair muitos turistas, a maior parte de quem gira a economia do Carnaval são os próprios belo-horizontinos e pessoas da região metropolitana. A estimativa da Belotur é que, em 2026, apenas 20% dos foliões venham de fora. Essa realidade pode estar relacionada à própria identidade do Carnaval da capital mineira: ligado à ocupação e reivindicação do espaço público e da cultura enquanto direito, como defendem os membros da Liga Bruta. 

“O Carnaval brasileiro está diretamente conectado com a [re]existência e com as lutas de seu povo, sendo uma festa política. E é como uma festa política que o Carnaval de Belo Horizonte ‘ressurge’”, afirmam, sem deixar de reconhecer a resistência, durante décadas,  de outros movimentos do Carnaval, como o bloco Oficina Tambolelê, os Blocos Caricatos e as Escolas de Samba.

Mais que isso, Babeto e Malaquias relembram que, quando falamos de Carnaval no Brasil, tratamos de um legado disputado historicamente. Por isso, para a Liga Bruta, é fundamental reconhecer que as principais contribuições vêm das camadas populares.

“O Carnaval brasileiro sempre foi disputado historicamente e o de BH está sendo disputado hoje. Nós nos organizamos também para que o Carnaval, que contribui tanto, em vários aspectos, para Belo Horizonte, continue sendo nosso”, explicam. 

A falta de diálogo com o poder público 

Apesar de relatarem uma melhora relativa no canal de diálogo com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) no último ano, os fazedores da festa defendem que a abertura ainda está muito aquém do que deveria ser. 

Para eles, isso se deve ao fato de que não há uma relação horizontal na construção do Carnaval de BH, nem diálogo do poder público municipal com a organização dos blocos de rua. 

“Ainda falta muito para avançar com a PBH, principalmente nas questões de imposição de trajetos e financiamento dos blocos. Com o poder estadual, praticamente não tínhamos diálogo, depois de pressionarmos este ano, conseguimos poucos avanços”, aponta o integrante do Toca Raul. 

Como explicam os membros da Liga Bruta, não existe um planejamento, de fato, voltado ao Carnaval de rua na cidade. O que se constata, segundo eles, é o planejamento de um “carnaval” que fomenta a lógica de grandes eventos, de acordo com os interesses da prefeitura e não das reais necessidades do Carnaval popular. 

“A atual gestão da Belotur convidou representantes das Ligas dos Blocos do Carnaval de BH para estreitar os diálogos. Foi um passo importante e vamos continuar atuando para que essa conversa prossiga e o poder público construa a folia junto com os seus agentes”, afirmam Babeto e Malaquias.

Por outro lado, eles apontam que os blocos estabelecem diálogo constante com a Câmara de Vereadores, a partir de mandatos que defendem a cultura. Exemplo disso é a recém criada Lei 11.843/2025, que regulamenta o Carnaval de BH e foi construída a partir da escuta dos blocos.

“Nos preocupa, ainda, que a PBH venha, em alguns momentos, trilhando o mesmo caminho de empresas privadas, ao estimular ou legitimar modelos de grandes eventos, com grandes artistas de renome nacional, em detrimento do fortalecimento estrutural do Carnaval de rua”, afirma a Bruta.

Verbas insuficientes

Outro atrito perpassa o financiamento público insuficiente e centrado, de maneira arbitrária, em alguns blocos e áreas da cidade. Hoje, como explicam os membros dos blocos, em um universo de mais de 600 blocos cadastrados, apenas 105 são contemplados com algum tipo de apoio financeiro direto, o que deixa a maioria dos grupos fora da política pública. 

“Os valores repassados, que variam de R$14,6 mil a R$41,5 mil, não cobrem custos básicos de produção, como trio elétrico, sonorização, segurança e infraestrutura. Além disso, os recursos costumam chegar tardiamente, o que compromete o planejamento e obriga muitos blocos a assumirem riscos financeiros elevados para colocar ‘o bloco na rua’”, explicam os integrantes da Liga. 

Como fica demonstrado nos dados disponibilizados pelos  entes públicos, a prefeitura e todo comércio local ganham muito dinheiro com o Carnaval. Justamente por isso, Alcântara ressalta a importância das verbas públicas para financiar a festa. Segundo ele, o cenário se agrava quando a PBH prioriza a busca por atrações de fora, mais caras e que não causam o mesmo impacto na economia local. 

“Recentemente, a prefeitura anunciou com grande alarde a vinda de artistas nacionais, uma afronta a quem fez e faz a festa em nossa cidade. Enquanto uma atração custa R$ 1 milhão, os blocos disputam editais de R$15 a 40 mil, que não atendem a nem 20% dos blocos. O dinheiro pago a atrações nacionais vai embora. Já o dinheiro investido nos blocos gera emprego e renda em BH, além de garantir os carnavais futuros. A atual administração vai na contramão do que gerou e mantém um dos maiores carnavais do Brasil. Atrações nacionais podem vir em outras datas”, denuncia o integrante do bloco Toca Raul. 

O governo estadual 

Mais uma crítica, ligada dessa vez à atuação do governo Zema, gira em torno da verba gasta na sonorização de vias para a passagem de blocos. Fidelis chama a atenção para o fato de que, em 2025, essa estrutura atendeu apenas 26 blocos e gerou um gasto enorme. Neste ano, o valor empenhado na sonorização é ainda maior.  

“Para 2026, prossegue a falta de transparência e a má distribuição dos recursos, sendo aplicados cerca de R$ 15 milhões somente na via sonorizada, que contempla alguns poucos blocos e que são escolhidos sem critérios transparentes”, corroboram com a denúncia os representantes da Liga Bruta.

Para Fidelis, o mais grave é que os corredores sonorizados podem, no futuro, ser cercados por grades e monopolizar o espaço para empresas privadas explorarem. Essa e outras denúncias já motivaram audiências públicas na Comissão de Cultura da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). 

Falta de investimento privado 

Após o edital de patrocínio privado para o Carnaval de 2026 ser declarado deserto pela segunda vez, a menos de 2 meses do início da programação de Carnaval,  a prefeitura iniciou a busca por captação direta de investimentos. No último dia 13, foi oficializada pela Belotur a entrada do primeiro aporte financeiro vindo da iniciativa privada, proveniente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH), em um valor de R$500 mil. 

Porém, estimativas apontam que o gasto para o cortejo de um bloco de médio a grande porte na capital mineira já custaria todo o valor do financiamento da CDL, muito acima dos pouco mais de R$ 40 mil máximos distribuídos pela prefeitura aos grupos. Tentativas anteriores de patrocínio por empresas, como com a Ambev, também falharam, por demandar o monopólio da venda de bebidas. 

::Relembre o caso: Exclusividade da Ambev no carnaval de BH gera protestos e questionamentos sobre conflitos de interesses:: 

“São várias questões envolvidas, mas a patrocinadora máster de outros carnavais, a Ambev, sempre tentou o monopólio de venda de bebidas no Carnaval de BH. Depois de perderem repetidas vezes ações no Ministério Público, pois é inconstitucional o monopólio em vias públicas, desistiram”, explica Alcântara. 

Com o fim do monopólio na venda de bebidas, este ano, o Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral de Minas Gerais (SindBebidas-MG), espera um crescimento de 9% no volume de vendas, em comparação com o mesmo período de 2025.

“Outro fator é que grandes marcas preferem patrocinar diretamente os blocos que têm seu perfil de público, abrindo mão do patrocínio master. Para completar, a prefeitura não conseguiu demonstrar ser vantajoso para as marcas patrocinarem todo o carnaval”,  acrescenta Alcântara.

O interesse do setor privado, como aponta a Liga Bruta, não é pela cultura, mas por uma lógica de eventos espetacularizados, com alto retorno financeiro e controle total sobre imagem, circulação e consumo, ao contrário do Carnaval de BH, que é profundamente politizado, organizado de forma descentralizada e construído a partir de lutas contra a mercantilização do espaço público.

“Esse caráter crítico afasta empresas que buscam exclusividade, padronização e domínio sobre a festa. Um exemplo recorrente disso é a disputa anual em torno da tentativa de monopolização da venda de bebidas, o que nos obriga, ano após ano, a lutar ao lado dos ambulantes para garantir trabalho, diversidade econômica e o direito à cidade “, ressaltam os idealizadores do bloco Transborda.

O dilema do patrocínio

Diante disso, é perceptível para quem constroi a folia em BH uma falta de interesse, por parte das empresas privadas, em um Carnaval que não se submeta à lógica do lucro, da exclusividade e da captura simbólica das lutas sociais. Na percepção da Liga Bruta há dificuldade em lidar com uma festa que questiona, ocupa, disputa sentidos e  não aceita ser reduzida à plataforma de marketing.

Isso escancara um outro dilema, que confronta a identidade plural do Carnaval belo-horizontino e, para a Liga, demonstra a necessidade de avaliar o envolvimento da iniciativa privada com cautela e criticidade: o diversity washing. O termo caracteriza uma maquiagem de diversidade publicizada por empresas, mas que não altera as estruturas de desigualdade. 

Nesse cenário, as lutas viram narrativa publicitária, enquanto os blocos que as sustentam continuam enfrentando precarização, falta de acesso a recursos e ausência de reconhecimento institucional. 

Para os blocos, quando empresas passam a definir formatos, trajetos, estéticas e dinâmicas da festa, corre-se o sério risco de expropriar o sentido político do Carnaval, esvaziando sua potência crítica e transformadora. O problema não seria a existência de patrocínio privado em si, mas a forma como ele se dá. 

“Muitas empresas se aproximam do Carnaval buscando retorno de imagem, apropriando-se de pautas e lutas sociais construídas ao longo de décadas por blocos comunitários, periféricos, afrocentrados e LGBTQIA +. Em alguns casos, direcionam recursos pontuais a esses grupos para sustentar um discurso de diversidade e inclusão, enquanto seguem concentrando investimentos, visibilidade e poder de decisão em poucos blocos e territórios”, denunciam Babeto e Malaquias.

Por isso, o entendimento das organizações culturais é de que qualquer participação da iniciativa privada precisa estar subordinada a uma política pública forte, transparente e regulada, que coloque os interesses culturais da cidade acima das estratégias de marca. Sem isso, o envolvimento empresarial tenderia mais a capturar o Carnaval do que a fortalecê-lo.

Valorizar quem faz a festa o ano inteiro

Na mesma toada, Fidelis defende que o patrocínio privado é importante, mas  que os blocos não podem ficar refém de empresas para fazer o Carnaval acontecer. 

Por isso, as organizações culturais reforçam a importância de defender o reconhecimento do trabalho cultural realizado ao longo de todo o ano, especialmente nas periferias da cidade, onde muitos blocos desenvolvem oficinas, formações e ações contínuas com juventudes e comunidades negras.

::Leia também: ‘A vida acontece ao vivo’: Campanha de Popularização do Teatro fortalece acesso à cultura em BH::

“O Carnaval não acontece apenas em fevereiro. É um processo cultural permanente e precisa ser tratado como política pública estruturante, à altura da sua importância social, cultural e territorial para Belo Horizonte”, afirmam os idealizadores do Transborda.

Assim, o papel do poder público seria dar condições para que a folia seja construída com infraestrutura, segurança e valorização dos artistas da cidade sem se apropriar da construção. Para a Liga, é fundamental  que sejam revistos os critérios dos editais, ampliando o número de blocos atendidos e descentralizando os recursos. 

“É o poder público que precisa criar o seu protagonismo que fomente junto aos blocos e demais agentes culturais uma cultura de Carnaval forte. Não falta protagonismo dos blocos”, concluem.

Outro lado 

Procurada pelo Brasil de Fato MG, a PBH, concordando que o Carnaval é uma construção coletiva, popular e descentralizada, fruto de uma trajetória histórica consolidada no município, informou que constrói a política pública partindo do entendimento de que sua principal força reside na diversidade de agentes, linguagens, territórios e modos de fazer que compõem essa manifestação cultural.

A prefeitura disse ainda que, por meio da Belotur, enviou mensagem institucional às ligas de blocos, seguida do agendamento de uma reunião presencial que teve a participação das ligas, “reforçando o compromisso com o diálogo permanente, transparente e respeitoso”, e que não há oposição entre planejamento, organização e o caráter popular do Carnaval.

A PBH afirmar ainda que não realizou “negociação, contratação ou repasse de recursos para o pagamento de atrações nacionais no Carnaval” e que foram realizadas cerca de 800 reuniões individuais com diferentes atores envolvidos na construção do carnaval.

O Brasil de Fato MG procurou também o governo estadual para comentar as denúncias, mas não obteve retorno até o momento. O espaço segue aberto.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

|

Newsletter