A companhia Grupo dos Dez, grande referência no teatro negro brasileiro, anunciou a sua volta aos palcos, com a previsão de apresentações em vários estados brasileiros. Demarcando os 15 anos de trajetória do coletivo, a turnê fará mais de 60 encenações. O projeto também prevê oficinas e rodas de conversa, passando por seis estados, entre janeiro e julho de 2026.
Com montagem de quatro espetáculos, sendo dois já reconhecidos pelo público e pela crítica e duas obras inéditas, o projeto reafirma a importância da cultura como espaço de diversidade, resistência e transformação social.
A iniciativa é apoiada pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, o Ministério da Cultura e a Petrobras. Segundo o grupo, isso fortalece sua manutenção, criando condições para um processo contínuo de pesquisa e criação. Assim, o retorno, neste momento, tem um profundo valor simbólico.
“Chegar aos 15 anos significa olhar para trás e reconhecer tudo o que conquistamos, mas também reafirmar que nosso trabalho só ganha sentido quando é capaz de criar coletivamente e transformar realidades. Com a apresentação do Ministério da Cultura e da Petrobras, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, damos um passo essencial para ampliar essa história e alcançar novos públicos e territórios”, explica Rodrigo Jerônimo, fundador e diretor do grupo.
Inspirado em matrizes afro-brasileiras, o Grupo dos Dez traz para o palco manifestações culturais como a capoeira e o samba, que atravessam a história do país e se transformam em base poética e estética das montagens.
“É dessa forma que o coletivo reafirma seu compromisso de criar a partir de referências culturais brasileiras, valorizando a memória e projetando novas narrativas”, aponta a companhia, em nota.
Por sua vez, as oficinas e rodas de conversa têm o intento de ampliar a experiência artística, para além dos palcos, e aproximar comunidades locais da criação teatral. Segundo Bia Nogueira, artista e integrante da equipe criativa, a retomada tem um caráter fortemente social.
“O Grupo dos Dez sempre foi mais do que espetáculos: é sobre abrir espaços de encontro, escuta e pertencimento. Estar de volta com essa temporada é potencializar vozes que refletem o Brasil em toda a sua diversidade e afirmar que a arte deve ser acessível a todas as pessoas”, afirma.
Um dos marcos da turnê será a homenagem aos 90 anos do dramaturgo João das Neves, figura central da dramaturgia brasileira e parceiro histórico do Grupo dos Dez. Assim, mais do que uma temporada de performances, o projeto reafirma o compromisso com a democratização da cultura e a geração de oportunidades no setor artístico.
Além disso, fortalece a geração de empregos e renda no setor cultural, com a contratação de mais de 200 profissionais, majoritariamente negros, LGBTQIAPN+ e periféricos, ao longo de todo o processo.
Relembre a história do grupo
Nascida em 2009, a companhia se firmou como referencia nacional ao investigar a interseção entre o teatro negro e o teatro musical tipicamente brasileiro, com ligação com artistas mineiros reconhecidos, como o dramaturgo João das Neves e a cantora Titane.
Autodefinido como um coletivo de teatro negro, estética afro-brasileira, feminismo negro, cultura periférica e LGBTQIAPN+, o grupo abordou, ao longo de seus 15 anos, essas e outras temáticas urgentes, em obras que ecoam memórias coletivas, cantos ancestrais e narrativas historicamente silenciadas.
Sagas no País das Gerais (João das Neves e Titane), Evangelho Bárbaro (Elisa Santana e Marcelo Onofre), Dandara para Todas as Mulheres (Bia Nogueira) e Madame Satã (João das Neves e Rodrigo Jerônimo) são algumas de suas montagens. Esse último, terceiro espetáculo do Grupo dos Dez, é o único de João das Neves (1935-2018) ainda em cartaz, dos mais de 40 dirigidos pelo diretor ao longo de sua extensa e produtiva trajetória no teatro brasileiro.
Na peça, a companhia se vale da biografia de um dos mais peculiares personagens da cultura negra brasileira para dialogar com questões que permeiam a crítica à homofobia, à transfobia e ao racismo. Entre 2015 e 2019, o musical foi apresentado em várias capitais brasileiras com grande sucesso de público e crítica. Entre os reconhecimentos estão o Prêmio Brasil Musical 2019 – 2ª edição (melhor espetáculo musical Sudeste) e o Prêmio Leda Maria Martins 2017 (categoria melhor espetáculo).
