Eles costumam funcionar à noite, depois do expediente, em salas improvisadas, sedes de movimentos sociais ou centros comunitários. Nesses espaços, mais do que ensinar fórmulas, datas históricas e regras gramaticais, pontes entre a periferia e a universidade pública são construídas.
Os cursinhos populares nascem de uma inquietude em torno da democratização da educação e florescem a partir da coletividade: são movidos por professores voluntários, estudantes que ensinam enquanto aprendem e jovens que insistem em acreditar que a universidade também é lugar para seus corpos, suas histórias e suas origens.
Em Porto Alegre, quatro experiências se destacam pela força comunitária, resultados e compromisso político-pedagógico: Kilomba, Emancipa, TransEnem e Levante Popular a Juventude. Iniciativas que revelam como a luta pelo direito de estudar é, antes de tudo, coletiva. Em territórios periféricos e entre populações historicamente excluídas, especialmente jovens negros, mulheres, trabalhadores, pessoas LGBTQIAPN+, os cursinhos populares assumem o papel de reconstruir trajetórias marcadas pela desigualdade, pela precarização da educação básica e pelo abandono do Estado.
A chegada do apoio federal, por meio da Rede Nacional de Cursinhos Populares (Cepop), do Ministério da Educação, em 2024 e 2025, marca um novo capítulo na luta pelo acesso à educação superior. No Rio Grande do Sul, 19 iniciativas foram contempladas pelo edital. Ainda assim, os desafios permanecem profundos, diante da falta de apoio municipal e estadual e de políticas educacionais que seguiram precarizando o ensino público na última década.
Kilomba: cursinho popular da periferia transforma acesso à universidade em prática de resistência
Criado em 2018 a partir da organização comunitária da Lomba do Pinheiro, bairro periférico localizado na zona leste de Porto Alegre, o cursinho popular Kilomba se consolidou como uma das principais iniciativas de democratização do acesso ao ensino superior no estado. Em sete anos de funcionamento ininterrupto, inclusive durante a pandemia e após a enchente, o projeto já contabiliza 83 estudantes aprovados em universidades e institutos federais, impactando diretamente mais de 80 famílias.
“O cursinho popular é uma grande porta de entrada da juventude para o ensino superior. No nosso caso, com foco especial no vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), mas também no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e no Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja)”, explica Tavama Nunes Santos, uma das coordenadoras.
A partir deste ano, o Kilomba também passou a oferecer a possibilidade de conclusão do ensino médio pelo Enem, ampliando o acesso à escolarização formal.

Formação crítica como eixo pedagógico
Inspirado na pedagogia de Paulo Freire, o Kilomba entende a educação como instrumento de emancipação. “A gente sempre diz que o ensino superior não é só para ter um emprego melhor. É ampliação de visão de mundo, leitura crítica da realidade e formação cidadã. A vida é agora, o presente é hoje”, afirma Santos.
Os conteúdos cobrados nos vestibulares são relacionados ao cotidiano dos estudantes. “Isso vai cair no vestibular, mas também ajuda a entender o mundo que a gente vive”, reforça.
A proposta é também resposta às deficiências estruturais da educação pública. “O aluno chega com uma defasagem enorme. Muitos nunca tiveram professor de determinadas disciplinas. No cursinho popular, muitas vezes, a gente não revisa o conteúdo, a gente ensina do zero”, explica.
Aprovação que mobiliza famílias e territórios
Coordenador comunitário do projeto, José Carlos da Silva Alves (Caio) afirma que cada aprovação ultrapassa a trajetória individual. “Não é só aquele aluno. É a família inteira, os vizinhos, os amigos. Se ele consegue, os outros passam a acreditar que também conseguem.”
O cursinho atende prioritariamente moradores da região periférica, considerando critérios como renda, negritude e proximidade territorial. As turmas são diversas: jovens recém-saídos do ensino médio estudam ao lado de adultos com mais de 40 anos, incluindo casos de pais e filhos ou mães e filhas na mesma sala. A presença feminina é majoritária: cerca de 70% dos estudantes são mulheres.
Voluntariado e autogestão como pilares
Com 23 integrantes na equipe, 13 professores voluntários e 12 pessoas na coordenação comunitária, o Kilomba se sustenta pela força da comunidade. “O cursinho não nasceu de uma universidade nem de um coletivo de estudantes. Ele nasce do movimento comunitário organizado, do Conselho Popular da Lomba do Pinheiro. Essa é a nossa grande diferença”, destaca Alves.
A equipe de apoio organiza salas, materiais, lanche, acolhimento e a estrutura do dia a dia. “O professor vem, dá aula e vai embora. E isso já é muito. Mas alguém precisa garantir que tudo esteja funcionando”, diz.

Apoio federal reduz evasão pela primeira vez
Durante seis anos, o cursinho funcionou exclusivamente com recursos e trabalho da comunidade. A situação começou a mudar com a entrada na Rede Nacional de Cursinhos Populares (Cepop/MEC).
Em 2025, o RS teve 19 cursinhos selecionados. No país, foram 384 iniciativas contempladas. Pelo programa, estudantes do Kilomba passaram a receber uma bolsa permanência de R$ 200 e professores e equipes, até então trabalhando de forma voluntária, receberam apoio financeiro.
“A evasão sempre foi um problema enorme. Com a bolsa, conseguimos manter cerca de 35 estudantes frequentes até o final do ano, algo inédito”, relata Santos.
O Kilomba ficou em 1º lugar no ranking estadual entre os cursinhos contemplados, avaliados por estrutura, carga horária, formação docente, número de aprovações e atividades de formação cidadã. “Tudo é educação. Levar os alunos para uma mobilização contra a privatização da água é educação. Exibir um filme e debater também é educação”, avalia a coordenadora.

Precarização da educação acentua desigualdades
Apesar do avanço federal, Santos critica a ausência de políticas municipais e estaduais. “Não temos nenhum apoio do município. Pelo contrário, os governos seguem precarizando a educação”, denuncia, citando o fechamento de cursinhos públicos, turmas de magistério e o desmonte do ensino médio.
Em meio ao avanço da extrema direita e da negação da ciência, o Kilomba como demais cursinhos populares se afirmam como trincheira política e pedagógica. “Existe um desalento estudantil. Jovens que acreditam que estudar não adianta. Nosso papel é mostrar que vale a pena, não só para o trabalho, mas para a formação humana e cidadã.”
Emancipa Porto Alegre: cursinho popular como continuidade da luta pelas cotas
Professor e coordenador do cursinho Emancipa Porto Alegre, Rodrigo Nickel explica que o movimento integra uma rede nacional presente no Pará, em São Paulo e em diferentes cidades do RS, estados onde foi iniciada a Rede Emancipa, sempre vinculado à democratização do acesso à universidade. Hoje a rede está presente também no Paraná´, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Distrito Federal, Espirito Santo, Rio Grande do Norte, Maranhão e Amazonas.
A trajetória local nasce da luta estudantil pela implementação das cotas na Ufrgs em 2007. “Quando saímos da universidade, pensamos: como segue essa luta? Veio a ideia do cursinho”, conta. A primeira experiência foi em 2009 e, desde 2011, o grupo atua sob a bandeira da Rede Emancipa.
Hoje, o Emancipa do centro de Porto Alegre conta com duas turmas e 90 vagas, além de unidades em Viamão e Cachoeirinha, somando cerca de 180.
O cursinho do centro foi o único do Emancipa contemplado no edital federal, segundo Nickel, porque atendia critérios considerados excludentes. “O edital exigia 20 horas semanais de atividades. A maioria dos cursinhos não atua assim. Geralmente é um dia por semana. Então vários não conseguiram participar.”

“O vestibular é uma forma de exclusão”
Para Nickel, os cursinhos populares surgem como contraponto a um ingresso historicamente elitista. “A experiência nasce junto com o vestibular, que, na verdade, não é uma forma de ingresso, é uma forma de exclusão.”
Ele critica o modelo brasileiro que, após mais de uma década de escola básica, ainda exige prova de acesso. “O único sentido é reservar esse espaço de poder para a elite brasileira.” A Rede Emancipa defende acesso universal à universidade, apontando Argentina e Uruguai como exemplos próximos.
“Esses cursos só não ajudam muito mais estudantes por falta de visibilidade. Sem propagandas, sem panfletagem nas escolas e sem apoio do poder público, muitos jovens, assim como eu, sequer sabem que eles existem”
Quem são os estudantes e como o cursinho se sustenta
Os critérios para seleção seguem a lógica das cotas: escola pública, raça, gênero, orientação sexual e participação crescente de pessoas com deficiência. “Queremos abrir portas para esses e que tensionem a universidade por dentro”, diz Nickel.
O Emancipa tem cerca de 25 professores, 12 disciplinas, seis pessoas na coordenação e apoio psicopedagógico. O financiamento vem de escritórios de advocacia trabalhista, editais e campanhas. “Ajuda as pessoas a conhecerem e, quem sabe, apoiarem financeiramente, porque é necessário.”
Ele avalia que, apesar das limitações, o edital do Cepop representa o primeiro reconhecimento federal a um segmento que existe há décadas. “Pela primeira vez, um governo olha para isso. Ainda que muitos projetos sigam de fora, ajuda.”
Ainda assim, alerta que o problema da educação brasileira está longe de ser resolvido. Nickel critica o Novo Ensino Médio, “um crime contra uma geração, porque sonega conhecimentos historicamente produzidos”, e aponta o papel de grupos privados na definição de políticas do MEC. “São interesses que não contemplam quem vive do trabalho.”

Resultados
Desde 2009, mais de 700 estudantes foram aprovados pelo Emancipa. No listão mais recente, foram 29 aprovações (primeira chamada), com média histórica de 50 por ano. “Ver aquele indivíduo que tem o sonho de entrar na universidade e poder ajudá-lo nessa caminhada é emocionante. Mas, principalmente, ver pessoas historicamente excluídas, trabalhadores, pessoas negras, mulheres, PCDs, LGBTs, avançando e tensionando esse espaço”, destaca Nickel.
Um dos estudantes aprovados é Vitor Gustavo, cuja trajetória acadêmica foi profundamente transformada pelo cursinho popular Emancipa. Egresso da escola pública, ele conta que sempre sonhou em estudar na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), especialmente no curso de Arquitetura e Urbanismo. Em 2023, após concluir o ensino médio, tentou o Enem pela primeira vez, com isenção da taxa. Obteve um bom desempenho, incluindo nota superior a 800 pontos na redação, mas não conseguiu a aprovação.
No ano seguinte, esbarrou em um obstáculo comum a milhares de jovens: o alto custo dos cursinhos pré-vestibulares privados, com mensalidades em torno de R$ 700, valor incompatível com sua realidade. Diante disso, tentou seguir sozinho, estudando em casa por meio de videoaulas e materiais online, e chegou a prestar o vestibular da Ufrgs. A falta de uma preparação estruturada, somada ao desconhecimento das especificidades do concurso e de suas burocracias, resultou em nova frustração.
Foi apenas em 2025, por indicação de amigos, que Vitor Gustavo conheceu o Emancipa. Ao ingressar no cursinho, encontrou não apenas aulas regulares e professores voluntários, mas também disciplinas como redação, inglês e espanhol, além de orientação detalhada sobre políticas de cotas, processos de inscrição e funcionamento das provas.

Para ele, o cursinho cumpre um papel que vai muito além do conteúdo programático. “É um curso popular com foco em dar às pessoas sem condições financeiras, negras, moradoras de regiões periféricas e estudantes de escola pública a oportunidade de ocuparem um espaço que historicamente lhes é negado. Eu não sou uma exceção ou um caso à parte: sou um exemplo do que a educação popular pode fazer, porque ela abre portas e cria pontes”, afirma.
Vitor Gustavo também relata que, quando teve a isenção da taxa de inscrição do vestibular negada, o Emancipa mobilizou uma rede de apoio que garantiu o pagamento do valor, permitindo que ele realizasse a prova. Atualmente, ele se prepara para iniciar o primeiro semestre de Arquitetura e Urbanismo na Ufrgs e aponta que a principal limitação dos cursinhos populares é a invisibilidade.
“Esses cursos só não ajudam muito mais estudantes por falta de visibilidade. Sem propagandas, sem panfletagem nas escolas e sem apoio do poder público, muitos jovens, assim como eu, sequer sabem que eles existem. Se tivéssemos conhecido antes, tudo teria sido diferente. O ideal é que os cursinhos populares tenham espaço nas escolas públicas para apresentar suas propostas e alcançar mais pessoas, de qualquer idade e de qualquer lugar, até que se fortaleça outra concepção de educação no Brasil”, resume.
O professor e coordenador do cursinho reforça que a luta é coletiva e também precisa considerar quem não consegue passar. “Não é porque ‘não é pra mim’, como dizem discursos que mascaram o problema. É uma estrutura feita para excluir.” Ele encerra lembrando que a disputa é estrutural: “Se a gente naturaliza isso, cada vez menos teremos possibilidade de estudar.”
TransEnem completa 10 anos ampliando acesso ao ensino superior para população LGBTQIAPN+ no RS
“Quando o TransEnem entrou na minha vida, eu consegui abrir uma janela onde eu conseguia vislumbrar além do que a sociedade impôs no meu corpo. Eu percebi que eu poderia ser também uma professora como eu quero ser. Eu aprendi com o TransEnem que eu posso ser uma professora, que eu posso exercer uma profissão, que eu posso ser o mesmo e que ninguém tem o direito de me diminuir, de me impedir.” O relato é da estudante Lana, que foi aprovada no curso de Pedagogia na Ufrgs pelo TransEnem.

Com dez anos de atuação em Porto Alegre, o cursinho popular TransEnem enfrenta as barreiras estruturais impostas pela transfobia, pela precarização e pela exclusão escolar ao ampliar o acesso de pessoas LGBTQIAPN+ ao ensino superior. Em entrevista ao Brasil de Fato RS, Júpiter Wieczorek, docente de Biologia do cursinho e da rede municipal de Viamão, além de mestrando em Educação na Ufrgs, destaca o papel fundamental do projeto para democratizar a universidade.
“A importância dos cursinhos populares é que eles são essa alavanca que possibilita às pessoas que precisam de um ingresso na universidade passar. E é uma alavanca de levante popular”, afirma. “O que torna o TransEnem especial é ser voltado para pessoas trans e LGBT, principalmente pessoas trans, que historicamente não são representadas na universidade.”
Segundo um levantamento de 2017 feito pela Rede Nacional de Pessoas Trans do Brasil (RedeTrans) com ONGs, 82% das mulheres trans e travestis abandonam o ensino médio entre os 14 e os 18 anos. Já o Dossiê Registro Nacional de Mortes de Pessoas Trans no Brasil 2024, publicado pela Rede Trans Brasil, aponta que ao menos 9 mil estudantes trans estão matriculados nas redes estaduais de ensino público em todo o país. Os registros, realizados a partir do uso do nome social, abrangem 14 estados e o Distrito Federal e indicam avanços pontuais no reconhecimento institucional dessa população. Ainda assim, o levantamento destaca que essas iniciativas permanecem insuficientes para garantir o direito à educação de forma ampla, contínua e segura.
No ensino superior, a exclusão se mostra ainda mais evidente. Dados da 5ª Pesquisa do Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) das Instituições Federais de Ensino Superior, realizada em 2018 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), em parceria com a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), revelam que apenas 0,2% dos(as) estudantes universitários(as) se identificam como pessoas trans e travestis.
A Nota Técnica da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), publicada em 2024, aponta que cerca de 70% das pessoas trans abandonam os estudos ainda no ensino médio, principalmente em razão da violência, da discriminação e da ausência de políticas de permanência escolar. O documento também evidencia a baixa adesão das instituições federais a políticas afirmativas: apenas 10 das 69 universidades federais brasileiras adotam reserva de vagas específicas para pessoas trans na graduação, o equivalente a 14% das instituições.
Um exemplo recente de avanço é o da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), que anunciou a oferta de mais de 100 vagas em 2025 destinadas a estudantes trans.
Violência, expulsão escolar e ruptura familiar
Wieczorek explica que o percurso educacional de pessoas trans costuma ser marcado por violências desde a educação básica. “A educação típica é feita nos preceitos de uma sociedade hétero e cis, e as pessoas sofrem muita violência pela identidade e pela expressão. Isso leva à evasão escolar.”
Os estudantes chegam ao cursinho com trajetórias interrompidas. “Muitos tiveram que abandonar a escola ainda no fundamental. Tivemos alunes que pararam no sétimo ano.” A quebra de vínculos familiares também pesa: “É uma população que sofre muito com abandono parental e perda de casa”.

Turmas, aprovações e apoio financeiro
O TransEnem limita as turmas a 30 estudantes por ano, com média de 15 frequentando regularmente. Mesmo assim, os resultados têm sido expressivos. “Destes 15, já conseguimos aprovação de sete no vestibular da Ufrgs. Antes mesmo de sair o Enem”, afirma Wieczorek.
Neste ano, o coletivo conquistou bolsas de transporte. “Foi possível porque o cursinho tem muita história, muito peso e muito trabalho voluntário.” A maior parte dos estudantes é de Porto Alegre, mas há alunes de municípios vizinhos.
Estrutura, equipe e financiamento
A equipe é totalmente voluntária, com núcleos por disciplina. Segundo Maria Helena, do núcleo de comunicação, o cursinho reúne entre 30 e 50 colaboradores, entre professores, administração, comunicação e manutenção.
Antes do programa federal Cepop, o TransEnem dependia de doações. “Com elas conseguimos, por exemplo, pagar o vestibular da Ufrgs para os alunes”, explica Wieczorek. O Cepop trouxe avanços, apesar de dificuldades: “Foi positivo, mas levemente caótico. É melhor começar com percalços do que não começar.”
Maria Helena reforça que o programa pode fortalecer o campo: “Os cursinhos populares vivem precariedades profundas. Esse tipo de política pode sedimentá-los.”
Seleção e políticas de afirmação
As inscrições para 2025 ocorrem pelo Instagram @transenempoa, entre 24 de janeiro e 22 de fevereiro, com entrevistas após a inscrição. “Servem para conhecer os alunos, garantir segurança e coletar informações de acessibilidade e origem.”
O coletivo também atua na defesa de cotas trans e políticas de afirmação. “É um movimento difícil, porque há muito ataque. É uma barreira para que a gente se sinta acolhida.”
Wieczorek destaca o impacto subjetivo do TransEnem. “Na vivência trans, todo mundo quer aprender, mas essa população foi impossibilitada de conseguir esse conhecimento. Ver histórias como a da Lana, que agora vai ser professora, é mágico. Eu não tive professores trans na universidade. Mas agora posso ser o professor trans de uma futura professora trans.”
Para Maria Helena, o espaço é transformador: “É um lugar de propósito, onde vemos a mudança acontecendo.”
Cursinhos populares do Levante ampliam acesso ao ensino superior no RS
Os cursinhos populares organizados pelo Levante Popular da Juventude seguem fundamentais para ampliar o acesso de jovens e adultos ao ensino superior no estado. A avaliação é de Ana Carolina Golombiewski, militante do movimento, estudante de História na Ufrgs e integrante do Cursinho Popular Afirmação.
Criada em 2017, a Rede Podemos Mais reúne projetos ligados à educação popular em todo o país, com cursinhos, bibliotecas populares, alfabetização e reforço escolar. “Hoje ela é mais ampla”, aponta.
Segundo ela, mesmo com políticas de ação afirmativa, muitos estudantes não têm condições de se preparar para o Enem e vestibulares. “Esses espaços politizam todo o processo e lutam por uma educação pública, de qualidade e libertadora.”
O Afirmação mantém a tradição de levar estudantes à recepção da Ufrgs, aproximando-os da universidade. “É uma disputa.”

No estado gaúcho, as iniciativas mais consolidadas são em Porto Alegre: o Cursinho Popular Afirmação, sediado no Colégio Júlio de Castilhos, e o Cursinho Guilherme Soares, localizado na Vila Barracão, território histórico do Levante. O Afirmação completou 10 anos de existência em 2025, enquanto o Guilherme Soares chega aos três anos em 2026.
Além deles, o Levante mantém outras ações vinculadas à Rede Podemos Mais, como o “Sime, Eu Posso”, voltado à alfabetização, reforços escolares em territórios periféricos de Porto Alegre, iniciativas de escrita criativa e um preparatório para o Instituto Federal em Pelotas.
A expectativa da organização é abrir um novo cursinho na zona leste de Porto Alegre em 2026, diante da demanda crescente. “Pelo menos hoje o Lucas, da coordenação do Leventa, me mandou mensagem sobre 40 interessados e eu só disse: ‘tá bom, vamos fazer’”, relata Golombiewski.
Quem são os estudantes
O público atendido é majoritariamente composto por pessoas em situação de vulnerabilidade social, conforme a própria descrição dos projetos no Cepop. São jovens e adultos de baixa renda, estudantes da escola pública, pessoas negras e, em muitos casos, mulheres mais velhas retomando os estudos.
Golombiewski cita o caso de dona Almeri, que concluiu o Ensino Médio pela Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, ingressou no Afirmação em 2025 e dedicou o ano à preparação para cursar Saúde Coletiva na Ufrgs. “É marcante. Esse perfil aparece muito: pessoas mais velhas, majoritariamente mulheres, retomando os estudos.”

Aos 75 anos, Dona Almeri concluiu o EJA no Julinho, e, em 2025, ingressou no cursinho comunitário Afirmação, onde dedicou o ano à preparação para o Enem e o vestibular da Ufrgs. Segundo ela, a experiência foi transformadora, apesar dos desafios iniciais, e reforçou a importância desses espaços para quem sonha com o ensino superior.
“A experiência que eu tive com o cursinho foi maravilhosa. Confesso que, no início, foi um pouquinho desafiador”, relata. Dona Almeri conta que se surpreendeu ao descobrir que o próprio Julinho abrigava um cursinho comunitário e destaca o papel fundamental dessas iniciativas. “Esses cursinhos são fundamentais pra quem quer ingressar na universidade. São professores capacitados, interessados, que realmente se propõem a te colocar na universidade”, afirma.
Após realizar o Enem e o vestibular, ela aguarda a vaga para cursar Letras ou Gestão de Saúde Pública e celebra a troca intergeracional vivida no Afirmação. “No início pensei que eu não iria conseguir, mas fui muito bem aceita. Os jovens precisam dessa experiência com os idosos, e nós também temos muito a aprender. Foi uma troca maravilhosa”, diz.
Ao final, dona Almeri defende que os cursinhos populares sejam mais divulgados e que os professores sejam valorizados: “Eles dão aula de segunda a sábado, são incansáveis. Esses cursinhos são uma porta aberta para a universidade”.

Evasão e condições de vida
As turmas variam: o Afirmação inicia os anos com cerca de 60 estudantes e encerra com cerca de 20, devido à evasão; no Guilherme Soares, a média é de 10 alunos ao longo do ano, com menor oscilação.
A evasão, segundo Golombiewski, é marcada pelas condições de trabalho e estudo dos educandos. No Afirmação, as aulas ocorrem à noite; no Guilherme Soares, aos sábados — horários pensados para atender quem trabalha durante o dia.
“Muitas pessoas fazem três turnos e, em algum momento, não conseguem conciliar e precisam descansar. Esse é um dos grandes motivos da evasão”, explica. Ela lembra ainda que parte dos estudantes trabalha em escala 6×1, o que inviabiliza as aulas mesmo aos sábados. “Mesmo querendo muito participar, algumas pessoas simplesmente não conseguem.”
Equipes e financiamento
As equipes reúnem educadores voluntários, militantes e ex-estudantes. No Afirmação, muitos colaboradores chegam após conhecer o projeto. No Guilherme Soares, o grupo é menor e composto majoritariamente por militantes e estudantes da Ufrgs.
Antes do Cepop, a manutenção vinha de apoios voluntários, campanhas e parcerias. Com o edital, os cursinhos passaram a ter orçamento para educadores, materiais e apoio a educandos. “Se pra gente já foi revolucionário, imagina para outros espaços”, afirma Golombiewski .
A centralidade da educação popular
Para a militante do Levante, a defesa dos cursos se sustenta numa disputa maior pela garantia do direito à educação. “Quando a gente fala sobre a importância dos cursinhos populares em relação ao acesso ao ensino superior, é principalmente sobre essa defesa de que o acesso à educação é um direito, deveria ser um direito de toda a população brasileira. Mas, como ainda não é, que ferramentas conseguimos construir para que minimamente isso seja possível”, afirma.
Ela reforça que esses espaços só existem porque articulam, na prática, política e pedagogia.“Que a gente continue no dia a dia incentivando esses espaços, ainda mais esses espaços que buscam efetivar na prática uma educação popular, que tenham contribuições políticas, pedagógicas, para serem efetivadas e elaboradas.”
Cursinhos populares no RS selecionados na Rede Nacional de Cursinhos Populares (CPOP)
(Edital nº 01/2025 – resultado final de habilitação)
KiLomba Pré-Vestibular/Enem Popular – RS
Cursinho Popular Afirmação – RS
Programa de Auxílio ao Ingresso nos Ensinos Técnico e Superior – PAIETS – RS
CPG – Cursinho Popular de Guaíba – RS
Pré-Universitário Popular Alternativa – RS
Coletivo pela Educação Popular TransENEM – RS
Emancipa Centro POA – RS
Pampeano – RS
LEME: Oficinas Preparatórias para o Enem – RS
Cursinho Popular Guilherme Soares – RS
Resgate Pré-Vestibular Popular – RS
Vamos! Pré-Vestibular Popular – RS
Pré-Vestibular Esperançar! – RS
Pré-Vestibular Popular Minervino de Oliveira – RS
Eu chego lá – RS
Cursinho Popular de Pré-Vestibular OCUPA – RS
Cursinho Popular de Uruguaiana – RS
Rede Pré-Enem Fronteira Sul – RS
Pré-Vestibular Indígena Augusto Opé da Silva – RS
