O texto abaixo foi extraído de discurso apresentado durante a realização do 2º Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai, em novembro de 2025. O evento reuniu pesquisadores e instituições para promover cooperação, troca de saberes e pensamento crítico, fortalecendo a produção de conhecimento e soluções para desafios sociais, políticos e ambientais.
Temos entendido cada vez mais o desafio de construir uma agenda política consistente, sólida e massiva em torno da inteligência artificial e do que chamamos de soberania digital popular no Brasil.
É importante lembrar que, em nossos países, quem faz parte dos movimentos populares muitas vezes tem como única forma de conexão à internet um celular que funciona apenas com os dados gratuitos do Facebook e dessas corporações. Portanto, lidamos com esse assunto em condições muito desfavoráveis.
A inteligência artificial é uma das disputas centrais dos nossos tempos. Na atual conjuntura, não é possível tratá-la como uma tecnologia mais descolada da disputa geopolítica contemporânea ou reduzi-la ao mundo dos chatbots, em que cada um entra, faz uma pergunta ou dá uma instrução em um prompt e recebe uma resposta que pode ser boa, útil ou uma completa alucinação estatisticamente fundamentada.
O império e a China sabem que o que está em jogo nessa disputa é a capacidade de dirigir o desenvolvimento e o rumo da humanidade. E a verdade que só porque a China é sujeito nessa disputa com os Estados Unidos e tem condições de vencer essa batalha nos permite cogitar, no Sul Global, é que a inteligência artificial pode servir nossos povos.
A experiência chinesa aponta como isso é possível, evidenciando que a IA realmente precisa ser compreendida como parte da nova qualidade das forças produtivas. Ela não só acelera processos produtivos já existentes, mas tem o potencial de transformar qualitativamente as relações sociais, a forma como interagimos entre nós, com nosso trabalho e com os instrumentos e os processos de trabalho que produzem o viver.
Em reunião no Brasil, com companheiras da Marcha Mundial das Mulheres, movimento que faço parte, do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Baobab (Associação Internacional para Cooperação Popular), avançamos em um processo de educação popular e de construção de uma inteligência artificial para a reforma agrária e agroecologia, chamada Iaraa. Isso faz parte de uma estratégia de massificação da agroecologia no Brasil e do início da compreensão entre nossas organizações de que é preciso também massificar a inteligência artificial, colocando as nossas necessidades e o povo no centro do seu desenvolvimento.
Isso só é possível porque compreendemos que a inteligência artificial está em disputa entre duas possibilidades históricas. De um lado, há o potencial progressivo de transformação das capacidades humanas e das relações sociais, como demonstra a experiência chinesa de integrar a IA ao conjunto da sociedade, desde o planejamento e inovação na cadeia produtiva até a organização das cidades, do campo, da agricultura e mesmo do cuidado com pessoas idosas nessa transição demográfica. A China faz tudo isso com regulação, planejamento, código aberto e soberania.
Do outro lado, existe o risco concreto do projeto de inteligência artificial dirigido pelas Big Techs do imperialismo estadunidense em seu estágio decadente e perigoso. Nesse projeto, a IA tem o alcance de armas de destruição em massa, parte do complexo industrial militar, do qual as Big Techs do Vale do Silício são agora sujeitas desse complexo. A IA tem essa característica de uso dual. Vemos o exemplo do genocídio do povo palestino perpetrado por Israel, onde a Google faz parte do programa de IA que direciona ataques de forma automatizada nas casas do povo palestino, provocando assassinatos em massa.
Para nós do Brasil e do Sul Global, a possibilidade de entrar nessa batalha, de construir uma soberania digital passa necessariamente pela compreensão de que não estamos nas melhores condições. Com a aliança entre as Big Techs e o governo Trump, temos enfrentado as pressões contra a legislação nacional de tentativa de regulação e proteção de dados. Sofremos ameaças e tarifas quando tentamos regular plataformas de maneira minimamente autônoma, seja na questão das plataformas digitais do trabalho ou para restringir o uso político de dados pelas plataformas das redes sociais considerando como eles modulam comportamentos e interferem em processos eleitorais do nosso país.
O Brasil está mais estruturalmente dependente de tecnologias estrangeiras e nos falta um projeto nacional estratégico, não só no tema digital. Não investimos em infraestrutura digital própria e contratamos as Big Techs para tudo. Estima-se, de forma subestimada, que no último ano o Estado brasileiro pagou R$ 10 bilhões em licenças de software, soluções de nuvem e aplicação de segurança para corporações estrangeiras como Microsoft, Google e Red Hat. Ao mesmo tempo, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial propõe investir o dobro disso, R$ 23 bilhões, ao longo de quatro anos. É irrisório.
O caso da saúde brasileira é exemplar dessa dependência. O sistema público de saúde passou por uma transformação digital em que o acesso aos serviços ocorre via aplicativo desenvolvido pelo governo, gerando uma coleta massiva de dados da população — todos os dados de saúde, de agora e de antes. No entanto, esses dados são armazenados na nuvem da Amazon, serviço pelo qual pagamos caro. Por sua vez, a Amazon utiliza esses dados para treinar seus modelos e desenvolver o seu sistema da IA, que depois são vendidos de volta para o Brasil e para o Sul Global. Resta-nos, mais uma vez, adquirir tecnologias prontas, renunciando à capacidade e ao potencial de desenvolver ciência e tecnologia própria, uma situação já teorizada nos anos 80 pelos teóricos marxistas da dependência. Temos essa renúncia da imaginação de que é possível entrarmos efetivamente nessa disputa.
Além de exportadores de minerais e dados, buscamos compreender como os países do Sul Global estão subordinados e dependentes das Big Techs norte-americanas nas oito camadas da infraestrutura digital: as quatro camadas de infraestrutura física (energia, telecomunicações, hardware/equipamentos e data centres) e as quatro camadas lógicas (softwares, desenvolvimento de sistemas, bases de dados e IA). No Brasil, identificamos o domínio de corporações transnacionais sediadas no Norte Global em todas essas camadas, fruto da privatização das infraestruturas físicas nos anos 90 e da insuficiência de investimento de recursos na pesquisa e no desenvolvimento das camadas lógicas no Brasil.
Portanto, a soberania digital não pode ter o “digital” apenas como adjetivo. Ela deve estar articulada a um projeto de soberania nacional e popular, composta necessariamente pela soberania energética, mineral, tecnológica e alimentar. Não podemos reproduzir territórios de alta tecnologia em contraste com territórios de extração de bens comuns como energia.
A soberania digital é um conceito em disputa. As Big Techs, principalmente Google, Amazon e Microsoft, vendem a “soberania como serviço”, focando apenas na localização dos dados (nuvem soberana), uma armadilha na qual o Brasil já caiu. Esse caminho se viabiliza pela visão da soberania digital da União Europeia, que foca na privacidade individual, ignorando os dados como fator de produção. Na elaboração chinesa, que nos orienta, os dados são um fator de produção crucial para nova qualidade das forças produtivas e como fator de produção, tem uma singularidade: pode ser usado simultaneamente por múltiplos atores e agentes, seu valor aumenta com a escala e possuem capacidade generativa de produzir novas realidades, conhecimentos e possibilidades.
Ao defendermos o controle sobre os dados, estamos defendendo o conjunto da vida, dos territórios, dos modos de produção e a possibilidade de um futuro compartilhado da humanidade.
Conforme a proposta elaborada no âmbito do Conselho Civil dos Brics, identificamos que a soberania digital popular não se reduz a um status jurídico a ser conquistado, mas afirma soberania como um exercício contínuo de poder popular. Assim como na América Latina defendemos a integração regional, a soberania digital exige solidariedade, reciprocidade e complementariedade em processos de integração regional e de cooperação Sul-Sul. São impulsos para nossa soberania, são condições de possibilidade, pois não sairemos dessa situação de subordinação e dependência sozinhos só em um país começando agora. O compartilhamento de redes e infraestruturas processa ser tratado como questão política, não apenas técnica.
Situamos essa agenda nas lutas que já travamos: afirmamos a tecnodiversidade e resistimos à uniformização e homogeneização dos modos de vida. Colocamos que os povos precisam de sujeitos do desenvolvimento tecnológico, e não apenas usuários de pacotes tecnológicos prontos. Afirmamos que o financiamento público para pesquisa e inovação em IA e das tecnologias digitais de forma geral precisa ser orientado pelo desenvolvimento de tecnologia para tecnologias livres e de código aberto, efetivamente controladas pelo Estado e pelo povo. Defendemos também a necessidade da formação massiva por meio de educação popular digital e a elaboração de políticas de transição justa diante da automação pelas organizações da classe trabalhadora.
Por fim, refletimos que essa batalha não será vencida apenas com discursos de especialistas ou bons argumentos. Precisamos levar essa agenda para cada espaço, para cada canto nas ruas, nas periferias e nos campos, integrando-a à agenda política dos movimentos populares e das organizações da esquerda. Só assim teremos condições de mudar a correlação de forças e, com a China como parte do Sul Global, afirmar o socialismo e derrotar definitivamente o império.
*Tica Moreno é socióloga e integrante da Coordenação Nacional da Marcha Mundial das Mulheres (MMM)
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.