Ela se define como professora-escritora-mãe, tudo junto e inseparável — porque, para ela, não há fronteiras nítidas entre essas dimensões da vida. Professora por formação, Drika Zimmermann sempre levou a arte, a cultura e a literatura para dentro de sua prática, atuando majoritariamente como educadora social em projetos ligados à Assistência Social e à saúde mental.
Em 2021, tornou-se mãe por meio da adoção. A chegada da maternidade revelou um impasse concreto: conciliar uma jornada de 40 horas semanais, em outra cidade, com o maternar que sonhava tornou-se inviável. Em diálogo com a esposa, decidiu deixar o trabalho formal para se dedicar integralmente aos cuidados da filha, uma menina com múltiplas deficiências, que exige atenção constante e cuidados muito específicos.
Foi a partir dessa virada — quase um experimento existencial, diria a neurociência afetiva ao falar de plasticidade e reorganização de sentidos — que ela afirma ter “virado a chave” e destravado sonhos que estavam silenciosos, cuidadosamente guardados. É nesse ponto que a escrita passa a ocupar um lugar central em sua vida. O desejo de escrever sempre esteve presente: desde a infância, foi incentivada à leitura e manteve esse hábito como quem preserva um fio vital. Sonhava, um dia, contar as próprias histórias.
Em casa, ao lado da filha, a escrita começou a ganhar forma. A principal incentivadora foi a esposa, Jana, a primeira a acreditar em sua voz literária. Vieram as oficinas, os cursos, os exercícios de linguagem encaixados nos interstícios da rotina. Não há idealizações: ser mãe de uma criança atípica é conviver com o imprevisível, o que impossibilita a disciplina quase industrial que muitos manuais de escrita prescrevem. Ela escreve quando é possível — às vezes, com a filha dormindo no colo.
É também da experiência da maternidade que nasce o impulso de transformar afeto e amor em palavras. Talvez por isso sua escrita carregue tanto de si mesma: há sentimento em estado bruto, pulsação emocional e uma ética do cuidado atravessando cada texto. Literatura que não se separa da vida — e que, justamente por isso, encontra nela sua força.

Lançando seu terceiro livro, Escritos do Meu Quintal, ela conversou com a redação do Brasil de Fato RS.
Brasil de Fato RS: Em que momento da sua vida a escrita deixou de ser um impulso e passou a ser prática?
Drika Zimmermann: Por incrível que pareça, acredito que só depois do lançamento do meu primeiro livro, Os Barulhos Dela, é que entendi que não podia parar de escrever. Os Barulhos Dela é um livro de memórias de infância da minha avó, que faleceu quando eu tinha oito anos. Eu queria muito transformar as minhas memórias em algo que perdurasse, minha família, mãe e irmã se envolveram em todo o planejamento, minha mãe contava histórias, minha irmã reuniu fotos, foi um projeto feito com muito sentimento.
Eu tinha na cabeça que escreveria esse livro pra elas, mas cada vez que compartilhava via pessoas se interessando pelas histórias e se tornou algo muito maior do que eu imaginava. Depois que lancei o livro, recebi muito carinho e retornos positivos, então comecei a pegar escritos soltou e fui transformando em projetos e senti que isso já fazia parte da minha vida, não era mais um sonho só meu, mas uma coisa coletiva que ia se transformando e acho que não consigo mais viver sem ter a escrita na minha vida.
Você escreve mais para se organizar por dentro ou para bagunçar o mundo lá fora?
Dá pra dizer que são as duas coisas?! Normalmente tudo começa com uma bagunça dentro de mim. As minhas zines sobre anticapacitismo, por exemplo, surgiram da raiva de passar por inúmeras situações capacitistas com minha filha, juntei a alma de professora com a minha escrita e criei a série As aventuras da Bole (Bole é um dos apelidos da minha filha). Nessas zines (são quatro volumes até o momento) conto de uma forma didática situações capacitistas que passamos e como não ser uma pessoa capacitista.
O meu segundo livro, o Pare de regar plantas mortas, surgiu a partir de sessões de arteterapia. É um livro agridoce, nele escrevi poemas de traumas, abusos, assédios, machismo, LGBTfobia. Sinto que peguei todos os meus traumas e transformei em poesias, não é um livro fácil de ler, mas muitas mulheres que leram se sentiram representadas, sinto que foi um projeto importante nesse sentido.
O que o seu terceiro livro faz de diferente do que os anteriores — e o que ele se recusa a fazer?
Esse projeto nasceu em uma oficina de escrita, fiz um miniconto em prosa poética falando sobre a luta da minha mãe para ter uma casa própria. Depois da oficina fiquei dias olhando para aquele texto pensando que tinha mais coisa ali, deixei ele quietinho, até que transformei ele em um texto maior. Esse texto, intitulado Guajuviras, foi publicado na revista Brasa do Laboratório-Escola de Arte Popular (LAB), edição seis, mas eu ainda sentia que tinha mais coisas pra mostrar, e então nasceu a ideia do livro-postal, 10 cartões postais que trazem uma imagem e um escrito sobre um pedaço do bairro Guajuviras.
Esse bairro foi uma ocupação e minha mãe foi uma das ocupantes, eu queria trazer minha memórias de infância nesse território, mostrando que ele tem muita coisa boa, tem muita poesia nele, e o quanto ele foi e é importante para tantas famílias que tinham o sonho da casa própria. Mas nem por isso quero que romantizem que é um território só de coisas boas. Infelizmente, é um bairro periférico atravessado por diversas violências e retirada de direitos, com tráfico e com diversos problemas com a gestão pública.
Fale um pouco sobre essa relação com sua história e seu território que esse livro traz.
O sonho da minha mãe era ter uma casa própria, na época morávamos na casa da minha avó, eu, a mãe e minha irmã. A mãe trabalhava em um hospital de Porto Alegre como técnica de enfermagem. Ela viu a movimentação da então chamada “invasão” pela televisão, comentou com um dos médicos de plantão que gostaria muito de estar lá, nisso ele a liberou do trabalho, ela foi, sozinha e conseguiu ocupar um dos apartamentos, a data da ocupação foi 17 de abril de 1987, eu tinha acabado de fazer dois anos de idade. Logo em seguida, quando cessaram os ataques para retirar os ocupantes, a mãe nos levou. Foi muito difícil, não tinha água e luz, não havia mercados e nem serviços de saúde, eu fiquei doente e a mãe quase desistiu, a ajuda da minha avó foi fundamental para que pudéssemos continuar.
São 38 anos vivendo nesse território, vi muita coisa acontecer e se transformar. É muito especial ver hoje minha filha crescendo onde eu cresci, procuro sempre levá-la nos lugares que são importantes pra mim. Hoje eu moro com minha família no apartamento que minha mãe ocupou, eu tenho um carinho muito grande por ele, atualmente sou a pessoa “mais antiga” que mora aqui no prédio, que por ironia se chama Itamaraty. Vi muita gente indo e vindo.
A mãe segue morando aqui pertinho, mas agora em uma casa. Minha filha estuda em uma das escolas públicas e frequentamos o posto de saúde aqui do território, é impossível não ter uma grande nostalgia. Muitas coisas que trago no livro-postal não existem mais, como o Mercado Popular, que começou em uma kombi; o orelhão que ficava na esquina do posto de saúde e que tantas vezes ligamos pra mãe que estava de plantão no hospital; e as caminhadas que fazia pelo bairro com a minha mãe e hoje faço com minha esposa e filha. Eu tenho muito orgulho da vida que levamos aqui e, se não fosse pela coragem da minha mãe, nada disso seria possível.
Que tipo de conversa você espera que esse livro provoque — e qual você teme?
Olhar para um bairro periférico, que foi uma ocupação e que pulsa tanta luta é olhar pra um pedacinho da história do nosso país e de tanta gente que não tem casa. Sempre que vejo a notícia de uma ocupação ocorrendo, tenho esperança que cada vez mais pessoas possam ter um teto sobre suas cabeças que seja digno. Conversei com muitas pessoas que embora não tenham participado da ocupação do bairro Guajuviras, se lembram de todo o movimento e felizmente falam sobre isso com muito respeito, mas sei que tem muita gente que acha que esse livro pode estar romantizando esse tipo de movimento.
Também muitas que sequer consideram esse projeto como um livro, infelizmente dentro do mundo literário existe muito ego e normas do que é certo e errado. Há também muita crítica, de homens em maioria, que acham que a literatura tem muitas experiências pessoas e que isso não é realmente literatura, invalidando a escrita de não-ficção vinda de mulheres, como se valesse menos do que a ficção.
O que você considera inegociável no seu trabalho como escritora?
Minha escrita tem muito de mim, nada do que escrevi até agora é alheio a minha história de vida, sou uma mulher LGBTQIAPN+, mãe de uma criança deficiente e professora, pra mim é inegociável não deixar isso muito claro.
Tenho planos de escrever um romance de ficção, mas sinto que ainda tenho muitas outras coisas para escrever. Já ganhei muito não de editoras, o mundo literário é competitivo, por isso tenho feito minhas publicações através de financiamento coletivo ou de forma independente.
Se este livro fosse uma ponte, para onde ela levaria?
Gostaria muito de mostrar que há poesia e amor em coisas simples, sinto que às vezes as pessoas só levam em consideração coisas mirabolantes, grandes inovações, mas há muita beleza no simples. Há poesia no dia a dia, nas coisas que nos tocam com afeto, que nos fazem lembrar de forma nostálgica com carinho. O mundo pode estar no seu quintal, se olharmos com carinho, vai ver muita beleza e afeto nas coisas simples, mas que realmente fazem sentido.
A escrita abre portas e mostra caminhos
A escrita já possibilitou à autora muitas coisas, com destaque para as oficinas que foi convidada a fazer em escolas e projetos: oficinas de escrita, de criação de fanzines, de colagens, de tudo isso junto. Para Drika Zimmermann, poder falar sobre seu trabalho de escrita nesses ambientes é muito especial.
Ela também encontrou em clubes de leitura uma comunidade acolhedora, principalmente formada por mulheres, foram elas que me acolheram como mãe e como escritora. “Não é fácil participar de muitas coisas presencialmente porque não temos rede de apoio, então muitas vezes tenho que ir com a minha filha. Participei da Feira do Livro de Canoas nas duas últimas edições e minha filha estava junto comigo.”
Ela conta que está desenvolvendo um novo projeto, que se chama E não nasceu de mim? Cartas para Nicole, uma produção especial para dialogar sobre adoção e sobre a maternidade atípica.
