O texto abaixo foi extraído de discurso apresentado durante a realização do 2º Fórum Acadêmico do Sul Global, realizado em Xangai, em novembro de 2025. O evento reuniu pesquisadores e instituições para promover cooperação, troca de saberes e pensamento crítico, fortalecendo a produção de conhecimento e soluções para desafios sociais, políticos e ambientais.
A história do Brasil tem três marcas fundacionais muito importantes: o genocídio dos nossos povos originários, a escravidão e a concentração das terras.
Comecemos pelo genocídio dos povos originários brasileiros, ou seja, do continente brasileiro e dos diversos povos que o habitavam. Em 1500, com a chegada da colonização, da invasão e da ocupação portuguesa, estimava-se uma população de povos originários em torno de 5 milhões de pessoas, sendo que 3 milhões viviam na região amazônica, 1 milhão no litoral brasileiro e outro milhão no continente, organizados em mais de 150 povos. A tragédia deste processo colonial foi a matança sumária e o genocídio desses povos. Em 1822, com o fim da colônia portuguesa e a nossa independência, restavam apenas 600 mil indivíduos.
A outra profunda marca do nosso povo é a escravidão dos povos africanos. Entre 1501 e 1867, estima-se que entre 23 a 24 milhões de pessoas foram capturadas e escravizadas na África. Desses, 11 a 12 milhões morreram antes de chegarem a ser embarcados nos navios. 12,5 milhões de escravizados africanos entraram nas 36 mil viagens transatlânticas para a América, mas apenas 10,7 milhões chegaram com vida ao continente americano. Destes, apenas 9 milhões sobreviveram aos três primeiros anos de escravidão, sendo que 4,9 milhões se localizavam em terras brasileiras. Boa parte desses escravizados no Brasil vieram da região da África Central/Ocidental, em especial de Angola.
A história da concentração de terra vem desde sempre. Antes mesmo dos portugueses chegarem, o Tratado de Tordesilhas (1494) já dividia o mundo entre Espanha e Portugal, as duas maiores potências mercantilistas da época. A colonização portuguesa começa a ganhar estrutura e formato um pouco mais adiante, por volta de 1534, a partir do regime fundiário de capitanias hereditárias, que tinha na centralidade a doação de terras da coroa portuguesa a donatários e sesmeiros. Cada colono português recebia em torno de 13 mil hectares de terra para implantar a “plantation” ou a empresa colonial de exploração dos recursos naturais e da força de trabalho nacional ou transatlântica com o trabalho africano escravizado.
O trabalho escravizado se encerrou em 1888 com a abolição. A lei que termina a escravidão era composta apenas por dois artigos: determinava o fim da escravidão e revogava qualquer lei em contrário. Isso significava que os negros alforriados e libertos não teriam acesso ao trabalho ou à terra, pois o processo de abolição não foi associado à realização da reforma agrária. Esses negros libertos não tiveram a oportunidade de acessar aos meios de produções fundamentais como a terra, por isso boa parte dessa força de trabalho migrou para as regiões e cidades portuárias, compondo uma massa de trabalhadores que, dispondo apenas de sua força de trabalho, atuavam como estivadores nos portos brasileiros.
Com o fim da escravidão, que era o fundamento do modo de produção escravista colonial, o regime político caiu, sendo a Monarquia substituída pela República. Portanto, ao ser abolida a escravidão (1888) a Monarquia será destuída a partir de um golpe político militar, iniciando a República (1889).
Contudo, formou-se uma República tutelada e dirigida pelos grandes fazendeiros e senhores de terras, trazendo marcas profundas para nossa sociedade brasileira. Ao ingressarmos no trabalho juridicamente livre, tínhamos um conjunto de negros libertos e camponeses sem acesso a terra e a oportunidade de trabalhar. O destino destas populações estava nas mãos dos senhores das terras, que permitiriam ou não que estas famílias acessam algum palmo de terra, desde que se submetessem a determinadas condições. Surge um trabalho livre subalternizado, o que marcou nosso desenvolvimento econômico, pois esses trabalhadores vivendo e trabalhando de forma constransgida no interior das grandes fazendas não participavam do embrionário mercado interno. Para agravar, na Primeira República, as terras públicas passaram a ser geridas pelos governadores das províncias, representantes institucionais dos latifundiários, permitindo a expansão da grande fazenda sobre terras públicas.
Nesse contexto de profunda concentração de terras, eclodiram no interior do país, na virada do século 19 para o 20, diversas lutas e mobilizações camponesas. Destaco a Guerra de Canudos (1893-1897), no sertão da Bahia.
Esse povoado veio a abrigar pelo menos 30 mil pessoas. Embora pareça pequeno, para a época ele se tornou a segunda maior cidade da Bahia, atrás apenas da capital da província, Salvador. Trata-se da organização social chamada Canudos, que se efetivou em uma fazenda abandonada em pleno sertão brasileiro, que levava este nome (Canudos), onde se organizou o Arraial do Belo Monte. Orientadas pelo religioso Antônio Conselheiro, essa experiência popular de organização foi combatida violentamente pelo exército brasileiro em cinco expedições militares. Para derrotarem o povo de Canudos, o exército brasileiro recorreu ao uso de canhão, destruindo por completo o Arraial. Foi a primeira vez que o Exército utilizou o canhão contra o seu próprio povo.
Posteriormente, a “república dos senhores das terras” foi substituída por um golpe político e instituiu-se uma segunda fase da República brasileira, iniciando-se uma fase de industrialização e urbanização nas décadas de 1930 à 1960. Tal ciclo urbano industrial foi iniciado com um regime político autoritário, sobre uma ditadura política civil, chamado do Estado Novo.
No entanto, essa industrialização só foi possível devido a um pacto agrário entre a burguesia brasileira e os donos das terras, que implicava na não realização da reforma agrária nas áreas consolidadas (como café e cana) e na não destinação dos direitos trabalhistas e sindicalização ao campo. Perde-se aqui uma nova oportunidade de promover a reforma agrária para promover o desenvolvimento nacional. Em vez disto, a industrialização brasileira terá como seu pivor a oligarquia rural, única força social capaz de conduzi-la, amparada pela tecnocracia do aparelho do Estado. Por isso, uma industrialização, ainda que acelerada, foi tacanha, dependente e retardatária.
O ápice desta industrialização se dará na década de 1950, com a consolidação do setor de bens de capital no Brasil. A internacionalização da nossa economia foi acompanhada da aliança da burguesia com o imperialismo norte-americano, sendo a burguesia interna sócia menor deste processo de desenvolvimento. A construção de Brasília no centro do pais foi o ícone do país moderno e desenvolvido. Mas s essa modernização não resolveu os problemas dos camponeses.
Nas décadas de 1950 e 1960, vimos a eclosão do movimento camponês, que passou a ser sujeito político portador de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo tendo como centralidade a realização da reforma agrária. Naqueles 25 anos, muitas foram as lutas localizadas e radicais dos camponeses sem terra e algumas organizações de classe foram organizadas, como a Ultab (união dos lavradores e trabalhadores agrícolas do Brasil), o Master e as Ligas Camponesas.
Destacaremos as Ligas Camponesas, por ser uma organização que atuou no Brasil inteiro, mas com muita força na região Nordeste. Esta organização promoverá grande movimentação e luta pela reforma agrária.
Contudo, todas essas lutas, sejam isoladas, radicalizadas, sejam organizações políticas, foram interrompidas pelo golpe militar de 1964.
O Brasil estava diante de um encruzilhada em seu desenvolvimento em meados da década de 1960: se o desenvolvimento brasileiro caminharia para a conformação de um capitalismo autônomo nacional ou para um capitalismo dependente e associado ao imperialismo. Os militares brasileiros e a burguresia interna optaram pela via da consolidação de um capitalismo monopolista de Estado dependente, conduzido a ferro e fogo, sob um truculenta ditadura empresarial militar.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) surgiu num período posterior, em que a urbanização e o capitalismo monopolista já estavam implantados.
O MST se constituiu como produto da contradição gerada pelo desenvolvimento do capitalismo no campo brasileiro. A ditadura militar promoveu uma forçada modernização conservadora da agricultura, ao invés de realizar a reforma agrária. Eles criaram as condições para modernizar as grandes fazendas, inviabilizando a reforma agrária.
O resultado desse processo de modernização conservadora das grandes fazendas foi o êxodo rural. No entanto, parte dos camponeses que decidiram ficar na sua região de origem, vivendo de arrendamento, passaram a se organizar e ocupar terras improdutivas no final da década de 70, período marcado ainda pela presença da ditatura militar. Este camponeses contaram com a ajuda das igrejas católica e luterana.
Uma das marcas do MST foi utilizar a ocupação das grandes fazendas de terras pelos conjuntos de camponeses, como instrumento politico e de pressão sobre o Estado Brasileiro. Assim surgiu o MST, que se estruturou a partir de três vetores de constituição.
O primeiro vetor foi a luta direta dos trabalhadores, manifestada nas ocupações de terras promovidas por esses grupos de camponeses.
O segundo vetor, que também compôs o movimento, foi o ressurgimento do movimento sindical no campo, que questionava o sindicato dos trabalhadores atralados aos fazendeiros e aos interventores do governo militar.
O terceiro vetor foi o trabalho pastoral realizado pelas igrejas católica e luterana, que apoiaram o processo inicial de organização destas famílias de camponeses sem terra.
Os três vetores compuseram a fundação e a organização do MST.
Toda a luta pela terra é marcada por grande violência, pois os latifundiários, proprietários das terras, organizam forças paramilitares para reprimir os trabalhadores camponeses sem terra. Foi por meio da luta dos sem-terra e do estudo das lutas que os antecederam, inclusive a experiência das Ligas Camponesas, Canudos e outros movimentos ao longo da história, que o MST desenvolveu um método organizativo. Esse método tem como princípios políticos a direção coletiva, a divisão de tarefas, a disciplina, o centralismo democrático, o estudo e a formação político-ideológica, o planejamento e, sobretudo, a luta de massas e a vinculação com à base.
À medida que as famílias conquistam a terra, a partir das ocupações, organizam-se não apenas os assentamentos, a vida, a cultura, mas também a economia, a produção agrícola e, através dessas produções, organizaram-se as cooperativas e associações.
Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio e uma vida inteira de luta.
Pátria livre, venceremos.
*Adalberto Martins é doutor em Geografia e diirgente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
