CRIME DA VALE

Exposição resgata memórias e questiona futuro do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG)

“Aqui tinha seus defeitos, mas era muito bom. Nunca mais vamos conseguir ter aquela vida de volta”, lamenta moradora

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Exposição acontece entre os dias 23 e 26 de janeiro | Crédito: Agência Brasil

Aos 17 anos, Sofia Maria Barbosa de Paula carrega lembranças nítidas da comunidade Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), que já não existe mais. Antes do rompimento da barragem da Vale, em janeiro de 2019, a rotina na comunidade era marcada pela convivência próxima entre vizinhos, pela sensação de pertencimento e pela tranquilidade de uma vida simples. “Aqui tinha seus defeitos, mas era muito bom. Você saía na rua e todo mundo conhecia todo mundo. Nunca mais vamos conseguir ter aquela vida de volta”, lamenta a jovem.

Sofia é uma das moradoras envolvidas na organização da segunda edição da exposição “Florescer em meio à lama – memórias que brotam”, que acontece entre os dias 23 e 25 de janeiro de 2026. A mostra será realizada novamente na Sorveteria da Silvia, na pracinha central do Córrego do Feijão, e é fruto de uma construção coletiva entre mulheres da comunidade e o Instituto Cordilheira.

Apaixonada por fotografia, Sofia ajudou a mãe, Carmen Sandra Barbosa de Paula, a Sandrinha, a selecionar imagens que retratam a história e o cotidiano do vilarejo antes da tragédia. O processo começou durante os preparativos da novena de Natal e se estendeu por semanas, com moradores entrando e saindo da casa da família para revisitar álbuns, escolher registros e compartilhar memórias.

Entre risadas e reconhecimento de rostos familiares, também surgiram momentos de dor. “Tanta gente que já foi embora”, comentavam, ao se deparar com fotos de moradores que venderam suas casas para a mineradora e deixaram a região. Para Sandrinha, preservar essas imagens é um ato de resistência. “A ideia da exposição é não deixar que o Córrego seja apagado. Tirando essas fotos, não tem muita coisa mais do Córrego de antigamente”, afirma.

Ela também questiona o rumo imposto à comunidade após o crime. “Eu não falo que o Córrego do Feijão está sendo restaurado. Eu falo que está sendo transformado. O que é que o Córrego está virando? Será que eu quero morar num lugar que é só para ser visitado?”, provoca.

Mais do que uma mostra fotográfica, a exposição se propõe a honrar os que se foram e celebrar quem segue resistindo no território. Testemunhos, lembranças e imagens se entrelaçam para contar uma história viva, que desafia o esquecimento e a descaracterização do local atingido pela lama.

A abertura oficial acontece nesta sexta-feira (23). Ao longo dos dias, a programação inclui uma pintura coletiva de painéis, conduzida pela artista plástica Anna Göbel. Também estarão presentes advogados do Observatório das Ações Penais sobre a Tragédia em Brumadinho, que irão dialogar com a população sobre o andamento do processo criminal contra os responsáveis. Em fevereiro de 2026, o caso entra em uma fase decisiva, com o início das audiências de instrução.

Além da exposição, o calendário divulgado pelo Instituto Cordilheira e pelas comunidades do Córrego do Feijão e da Jangada inclui caminhada, mobilizações e a entrega de uma denúncia às autoridades em Belo Horizonte, reforçando que a luta por memória, justiça e reparação segue em curso.


Serviço

24/01, sábado – Caminhada da Jangada até o Córrego do Feijão, cerca de 10km

16h – Concentração na Avenida Hum, 15, Jangada – Casa Branca

18h – Chegada na Igreja Nossa Senhora das Dores – Córrego do Feijão

25/01, domingo – Exposição aberta à visitação (com intervalo para a missa na Igreja Nossa Senhora das Dores, às 12h)

26/01, segunda – Entrega de denúncia sobre a mina da Jangada para autoridades em Belo Horizonte

Editado por: Elis Almeida

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