Entrevista

Em batalhas de rima, MC Tito usa palavra como crítica social e combate a despolitização entre a juventude do DF

Aos 15 anos, brasiliense se destaca na cena do rap ao vencer pela segunda vez a maior competição de rima do país

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Com dois anos e meio de caminhada intensa, Tito Noleto Galeão une o rigor intelectual das leituras à agilidade verbal das ruas do DF.
Com dois anos e meio de caminhada intensa, Tito Noleto Galeão une o rigor intelectual das leituras à agilidade verbal das ruas do DF. | Crédito: @andre.scoelho

Entre uma rima e outra, carregando a responsabilidade de quem compreende o hip pop como um movimento de resistência e, acima de tudo, um espaço pedagógico de transformação, o MC brasiliense Tito Noleto constrói uma trajetória marcada pela palavra como instrumento de crítica social.

O jovem de apenas 15 anos vem se tornando um dos maiores destaques na cena da cultura “undergrund” da capital federal. Inserido na cultura de batalha desde os 12 anos e referência entre a juventude do Distrito Federal, Tito se consolidou como um dos nomes mais relevantes ao vencer, pela segunda vez, a Batalha das Aldeias, em 2025, a maior competição de batalha do país.

Tito cresceu sob uma forte influência educacional voltada para a criticidade e a política, valores herdados de seus pais. “Eu venho um pouco desse formato, sempre tive uma educação baseada nisso, buscando a criticidade. Tudo isso permeou o meu ambiente para que hoje eu esteja aqui dessa forma”, explica o jovem em entrevista ao Brasil de Fato DF. O MC iniciou sua trajetória nas rimas em 2023, nos intervalos da escola no ensino fundamental.

Se opondo a ideia que coloca o saber das ruas em oposição ao saber acadêmico, Tito inicia o primeiro ano do ensino médio defendendo uma simbiose necessária. Para ele, o hip hop é uma resposta à omissão sistêmica, mas essa resposta jamais deve ser conduzida de forma a afastar o jovem dos bancos escolares. “A nossa forma de locomoção social, de mudança, do velho esperançar, parte também da educação formal”, afirma o MC.

A escola, para Tito, foi o laboratório onde ele perdeu a timidez e descobriu que a palavra tinha peso. “Eu comecei por causa da influência da escola mesmo. O pessoal geralmente gostava de participar das batalhas no intervalo e eu comecei a me desenvolver cada vez mais”, relembra. Hoje, ele vê a educação formal como o pilar que fornece o conteúdo necessário para que o artista não seja apenas um repetidor de frases vazias.

Hip hop nas periferias do DF

Para Tito, a cena do Distrito Federal é um organismo vivo que pulsa muito além do Eixo Monumental, ocupando as praças e terminais das regiões administrativas com uma ferramenta artística, historicamente marginalizada. “O DF tem uma cena muito rica, mas que sofre com um processo excludente. Temos artistas que não recebem apoio financeiro nem midiático, mas que sustentam o movimento na raça”, observa o MC. Ele destaca que a batalha de rua é uma experiência que só o asfalto das periferias proporciona.

Nesse contexto, as batalhas funcionam como o principal equipamento cultural de muitas cidades satélites, suprindo a ausência do Estado. Tito reforça que o hip hop nas periferias não é apenas lazer, é sobrevivência e ocupação de espaços que, historicamente, foram negados a essa população. “A gente trabalha na periferia com o contato de movimentos autônomos, sociais e culturais. O objetivo é instruir, fazer com que o menino, ao ouvir uma batalha, veja que aquele espaço é dele”, reforça.

Referências no underground do DF

O jovem faz questão de destacar o estudo como forma de aprofundar sua base para as rimas. Recentemente, ele mergulhou nos livros Guia Manual do Educador Antirracista, de Bárbara Carine, e em Cultura: um conceito antropológico, de Roque Laraia. “A gente tem que entender a leitura como uma forma de libertação. Nós, artistas, também temos que nos interpretar como influenciadores, educadores e pedagogos”, pontua.

Sua consciência sobre o “guia de casa” é nítida ao reconhecer sua posição racial dentro de um movimento de matriz africana. “Como uma pessoa branca, pertencente de uma cultura essencialmente negra e periférica, eu acho que é importante ter instrução teórica”, afirma Tito. Entre suas leituras, constam ainda o épico Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, e obras de Alfredo Bosi sobre o tempo da poesia.

Com referências em artistas do DF, Tito se forma no diálogo com a cena local.
Com referências em artistas do DF, Tito se forma no diálogo com a cena local. | Crédito: @opoeta____

Ao ser questionado sobre suas referências, Tito foge do brilho fácil do mainstream, tendo como base artistas do underground brasiliense. “Minhas maiores inspirações estão no underground, justamente por continuarem ativamente no movimento e não serem vistas”, explica. Ele faz questão de listar nomes como Jeffe e Babi Mc, de Samambaia, Diogo Loko Mc, do Recanto das Emas, e Tempestade, da Estrutural, como seus verdadeiros mestres.

Emancipação e autoestima nas quebradas

O hip hop, na visão de Tito, é um dos maiores motores de autoestima para o jovem que vive à margem. “Quando você vê alguém como você ocupando um microfone e sendo ouvido, isso gera uma perspectiva de alavanca social que não é só sobre dinheiro, é sobre intelecto”, explica. Para o MC, a emancipação ocorre quando o jovem periférico entende que sua história, sua linguagem e sua vivência têm valor e podem ser transformadas em arte potente.

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Tito acredita que a rima permite que o jovem saia da posição de objeto da política pública para se tornar sujeito da própria história. “A batalha faz o menino ver que ele pode ser protagonista. Isso muda a forma como ele se relaciona com o mundo e com a própria comunidade”, afirma, ressaltando que a construção de identidade é fundamental para romper com os ciclos de invisibilidade.

Juventude politizada

Em 2026, ano de eleições, Tito vê o hip hop como uma trincheira contra a alienação. Frequentemente rotulado como “militante revoltado” nas redes sociais, ele não recua e defende que o termo não deve ser pejorativo. “Militante por si só não é algo negativo. Quando você fala militante, está falando de alguém que luta pelos seus direitos e pelos de outras pessoas”, rebate o MC.

O jovem analisa que o projeto político vigente busca a despolitização da juventude para facilitar a dominação. “O projeto da extrema direita é um projeto de despolitização. Estão tentando colocar sua ideologia, mas todo mundo tem a sua. Não tem como você rimar sem sua ideologia”, afirma Tito, criticando a falsa neutralidade pregada por certos setores da sociedade.

Sobre o papel das batalhas no processo eleitoral, ele é enfático: o movimento deve ser pluripartidário, mas jamais omisso. “A eleição é algo que muda o futuro do nosso país, muda a repressão que você sofre. A gente pensa que a ditadura militar está longe, mas foi há 40 anos atrás. Houve uma tentativa de golpe de Estado há quatro anos atrás”, relembra, conectando o passado à urgência do presente.

Diante de um cenário de desinformação, Tito enxerga nas batalhas uma ferramenta de contra-ataque pedagógico. “Existe uma escassez de fala sobre política que faz com que a acriticidade aconteça no cenário. O hip hop precisa combater isso”, afirma. Para ele, as músicas comerciais muitas vezes servem ao sistema ao evitar temas espinhosos, por isso a importância de manter a rima afiada e politizada nos encontros de rua.

O combate a essa despolitização passa por levar informação de forma acessível e direta. Tito defende que o hip hop deve ser o canal que traduz as decisões do Congresso e as pautas sociais para a linguagem da juventude. “Enquanto eu estiver como agente cultural, vou buscar fazer com que volte essa perspectiva de conscientização”, diz ele, reforçando que a arte despolitizada perde capacidade de gerar impacto real na sociedade.

Redes sociais e os algoritmos

Enquanto artista, a relação com a tecnologia e o algoritmo também é alvo de sua análise crítica. Tito entende que as redes sociais são controladas por figuras que não compactuam com o conteúdo periférico e militante. “A gente vê tantos artistas com suas contas restritas justamente porque não corroboram com a ideologia da plataforma”, denuncia, alertando ainda sobre o impacto das redes na saúde mental.

Apesar das críticas, ele utiliza as ferramentas digitais com estratégia para amplificar sua mensagem. Tito cita um vídeo sobre escolas militarizadas que alcançou 800 mil visualizações em seu perfil. “A rede social exige que você esteja sempre presente, se não, você é excluído. Eu busco estudar os métodos para conseguir visibilidade, porque isso muda o seu ‘eu artista’ e traz oportunidades”, explica.

O sentido da rima

A trajetória de Tito Noleto Galeão é guiada por um propósito que vai além da métrica perfeita. Ele busca o que chama de pluralidade e singularidade, fugindo da repetição vazia que assola parte da cena atual. “O rap tem que estar necessariamente conectado com uma mudança, com uma transição na vida dessas pessoas. Não podemos fazer nossa arte de forma acrítica”, conclui. 

Para o MC, existe uma armadilha perigosa na individualização do sucesso dentro de um movimento que nasceu para ser coletivo. “A gente não pode entender o rap como algo que caminha sozinho. Muitas vezes, pessoas que não entendem o que a cultura simboliza buscam apenas a promoção pessoal”, critica.  

Tito argumenta que o sucesso de um único artista, que se descola de suas raízes e não gera impacto real na base, não pode ser lido como uma vitória da comunidade, mas sim como uma ascensão individual que serve à lógica do sistema que o hip hop deveria combater.

Para ele, o discurso de que “a favela venceu” torna-se vazio quando a estrutura de opressão na ponta permanece inalterada. Noleto defende que a verdadeira vitória deve ser medida pela capacidade de arrastar o coletivo e fomentar a mudança na vida de outros jovens. “Muitas vezes, a cena cai em uma lógica repetitiva e singular, onde o artista esquece que existe um coletivo. O sentido das minhas rimas e da minha arte está conectado com a cultura da qual faço parte, e não apenas com o meu eu sozinho”, explica.

Ele reforça que a emancipação só é real quando é compartilhada, transformando o “vencer” em um verbo conjugado no plural, onde o acesso ao conhecimento e às oportunidades seja democratizado para além dos nomes que estampam as capas de playlists famosas.

Com o olhar fixo no futuro e o pé fincado na história do movimento, Tito Noleto segue como uma das vozes mais potentes entre a juventude do rap no DF. “Enquanto eu estiver como agente cultural, vai ser sempre isso que eu vou buscar: a mudança coletiva”, finaliza. 

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Editado por: Clivia Mesquita

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