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Em Brasília, encontro nacional reúne educadores populares em saúde para traçar estratégias de luta e cuidado

Movimentos populares fazem parte da articulação que busca o diálogo entre o saber popular e o técnico no SUS

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Encontro da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (Aneps)
Educadores populares em saúde de todas as regiões do país participaram do encontro | Crédito: Mateus Quevedo

Em meio a bandeiras de movimentos populares, faixas de lutas históricas e a estampa vibrante das chitas, grãos de feijão formam um retrato no centro da sala. Não é qualquer retrato. É o perfil de Paulo Freire, símbolo maior da educação que liberta. Essa mandala de sementes, montada no coração do encontro do núcleo articulador da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (Aneps), em Brasília, sintetizou o espírito do evento: memória, alimento partilhado e a pedagogia como ferramenta de transformação.

O encontro nacional, realizado nos dias 22 e 23 de janeiro, reuniu educadores e educadoras em saúde na Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) para planejar a resistência e a construção de estratégias para o ano que se inicia.

A abertura enfatizou a cultura e as expressões artísticas como pilares da memória coletiva. O cenário, carregado de simbolismo, remetia diretamente ao legado freireano. A referência ali não é casual, mas um princípio que ecoa na Política Nacional de Educação Popular em Saúde (PNEPS-SUS), que busca romper com hierarquias rígidas e colocar o saber popular em diálogo com o técnico.

Em seguida, a análise de conjuntura trouxe à tona os desafios do momento. Maria Rocineide Ferreira da Silva, coordenadora geral de Educação Popular em Saúde do Ministério da Saúde, apresentou os avanços institucionais da Educação Popular, destacando o Programa de Agentes de Educação Popular em Saúde, a Especialização em Educação Popular e o Articula PNEPS, ação para a rearticulação do Comitê Nacional de Educação Popular em Saúde, o CNPES, um colegiado do Ministério da Saúde do Brasil para participação social e educação popular.

“É um esforço para que a prática do diálogo e os demais princípios da PNES sejam inseridos na estrutura do SUS, e isto é resultado da luta dos movimentos populares”, reforçou da Silva.

Saúde da democracia

Com histórico de lutas em defesa do SUS no Distrito Federal e no Congresso, a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) aprofundou o olhar político durante o encontro. A parlamentar falou da “saúde da democracia” do país, em um momento que a reconstrução institucional é urgente, após a prisão daqueles que tentaram dar um golpe de Estado.

“O desafio é reconstruir e dar continuidade ao cuidado com a própria democracia”, afirmou, defendendo que o caminho em direção à soberania nacional que pressupõe soberania popular. Ela também citou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que “desnaturalizou a fome” ao colocar a garantia de três refeições diárias como meta de um bom governo.

Kokay alertou ainda para a “desterritorialização da vida comunitária”, processo acelerado pelo impacto das big techs e outras forças que isolam as pessoas e silenciam desigualdades, e ressaltou a importância da “política do afeto” como antídoto ao individualismo.

Articulação nacional

Segundo integrantes do núcleo articulador da Aneps, como Osvaldo Peralta Bonetti e Vanderléia Pulga, o encontro teve objetivos claros: aprofundar o papel da articulação, que é de multiplicar e fortalecer as práticas de educação popular na saúde, diante dos desafios nacional e internacional; avaliar sua atuação em processos formativos e espaços institucionais; e, principalmente, definir as estratégias, ações e formas de organização para 2026, incluindo o perfil de suas representações.

Para Theresa Siqueira, uma das participantes da Aneps de Alagoas, o momento é de apresentar “toda a potencialidade e capilaridade da Aneps, tanto nacional quanto nos estados: diversidade de práticas, movimentos, territórios e a memória dessa articulação nacional ao longo dos 23 anos de história”. 

Encontro da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (Aneps)
Encontro da Articulação Nacional de Movimentos e Práticas de Educação Popular e Saúde (Aneps) ocorreu em Brasília | Crédito: Mateus Quevedo

Já Maria de Fátima Guedes Araújo, que veio de Parintins, no Amazonas, avalia que os educadores presentes no encontro possam sair prontas para “sensibilizar as bases, núcleos, células, organizações e movimentos populares a reconhecerem-se agentes de intervenção e somar com as representatividades dos respectivos conselhos”.

A programação do evento dedicou-se a construir coletivamente esse planejamento. O encontro em Brasília se mostra, assim, mais do que uma reunião de planejamento. É um ato de reafirmação: na esteira do legado de Paulo Freire, a Educação Popular em Saúde segue plantando suas sementes – ideias, lutas e cuidado – para florescer em um SUS mais democrático e em um país mais soberano e afetivo.

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Editado por: Clivia Mesquita

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