Minas Gerais foi o estado que mais matou pessoas trans e travestis em 2025, segundo um levantamento produzido pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), divulgado nesta segunda-feira (26). O estado está empatado com o Ceará, com oito mortes registradas no referido ano. Em nível nacional, 80 pessoas trans foram assassinadas em virtude de serem quem são, uma queda de 34% em relação a 2024; 82% dos casos foram episódios extremos de violência.
Desde 2017, ano em que a Antra passou a sistematizar os dados de forma contínua, já foram mapeados 1261 assassinatos de travestis, mulheres transexuais, homens trans, pessoas transmasculinas e não binárias no Brasil. Embora o número tenha reduzido no ano passado, a queda não deve ser celebrada sem o devido senso crítico, segundo a Antra.
Segundo o documento, o cenário permanece adverso com aumento de casos de tentativas de assassinatos (homicídio tentado), e a ausência de políticas públicas efetivas para combater essa violência. Em 2025, foram registrados pelo menos 75 homicídios tentados, aumento de 32% em relação a 2024.
“Em um contexto marcado pelo avanço da agenda antitrans, por omissões deliberadas do Estado, pela ausência de políticas públicas específicas de enfrentamento à transfobia e pela persistência do Brasil como o país que mais mata pessoas trans, sobretudo travestis e mulheres trans, no mundo, qualquer leitura celebratória destes dados seria não apenas equivocada, mas perigosa”, aponta o texto.
Um fator que ainda segue como um desafio, por exemplo, é a manutenção deliberada da não produção de informações e da subnotificação estatística como parte da necropolítica, segundo a Antra. O dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025, afinal, é produzido com rigor metodológico, mas ainda não é uma pesquisa realizada com o apoio do Estado.
Christina e Alice
Com Minas Gerais e o Ceará na dianteira do índice de assassinatos de pessoas trans, o ranking é seguido pela Bahia e Pernambuco, com sete mortes, e pelos estados de Goiás, Maranhão e Pará, com cinco registros. Paraíba, Paraná, Rio Grande do Norte e São Paulo contabilizaram quatro ocorrências.
No ranking por estado, levando em consideração o início da sistematização da Antra, MG ocupa o quarto lugar, com 100 assassinatos desde 2017.
Lamentavelmente, a posição de Minas não é exatamente uma surpresa, e escancara ainda mais a gravidade do quadro de violência transfóbica. Dois casos emblemáticos ocuparam o noticiário estadual e nacional em 2025: os assassinatos de Christina Maciel Oliveira e Alice Martins Alves.
Em outubro de 2025, Christina, de 45 anos, andava pela rua Padre Pedro Pinto, em Venda Nova, na capital mineira, quando foi violentamente atacada pelo ex-namorado, tendo seu fim decretado rapidamente pelas mãos de um homem. O crime, gravado por uma câmera, ocorreu em um lugar movimentado. Ninguém se opôs à violência.
Pouco tempo depois, foi a vez de Alice, de 33 anos. Espancada por funcionários do Rei do Pastel, um bar no bairro Savassi, região Centro-Sul de BH, no dia 23 de outubro, ela permaneceu internada até o dia 9 de novembro, quando veio à óbito.
“Será que uma transexual não tem direito de viver? Não tem direito a viver em paz?”, questionou o pai, Edson Alves Pereira, com os olhos marejados, em um vídeo amplamente compartilhado nas redes sociais.
Alice morreu por transfobia e os suspeitos alegam que a espancaram porque ela deixou de pagar uma conta de R$ 22. Mais uma vez, uma mulher trans foi assassinada. Mais uma vez, pelas mãos de um homem. Desta vez, dois.
Ambos os assassinatos ocorreram com requintes de crueldade, algo que se verifica de forma ainda mais ampla no contexto das diversas outras mortes por transfobia em 2025: 82% dos casos, de acordo com a Antra, foram episódios extremos de violência.
“Precisamos nos perguntar, sempre: por que que eu estou permitindo que o Brasil continue sendo o que mais assassina pessoas trans do mundo? Por que eu não estou revoltada com a morte da Alice, com a morte da Cris e de todas as outras que acontece?”, questiona a presidenta da Antra, Bruna Benevides.
Violência é um marcador
O dossiê da Antra, divulgado nesta segunda-feira, precede o Dia Nacional da Visibilidade Trans, no 29 de janeiro. Ainda que seja importante pautar a visibilização das pessoas trans muito além da violência e da violação dos direitos humanos, esse segue sendo um marcador infeliz para esses corpos no Brasil.
“É muito preocupante que, por um lado, a nossa visibilidade seja parte da violência e, por outro lado, que essa violência não tem a devida atenção por tomadores de decisão, por gestores públicos, no sentido de compreender que é preciso ações específicas para enfrentar essa violência específica”, alerta Benevides.
“Muita gente que publicou o caso da Alice ou da Cris não se preocupou em fazer uma conversa sobre o caso na sua casa, no bar, no seu círculo de amizades, nos espaços onde circula, na sua escola, na sua universidade, no seu trabalho etc. Então, a gente não consegue que essa cadeia de indignação que acontece ali no momento em que a pessoa se depara com esse caso se transforme em um motivador para ação, infelizmente”, acrescenta.
Comunicação no centro
O debate, portanto, passa, especialmente, pela comunicação e, especificamente, pelo jornalismo. Em sua tese de doutorado defendida em 2021 na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a professora Dayane Barretos faz uma afirmação categórica: se por um lado a presença de pessoas trans no espaço público gera um incômodo, a sua morte não parece causar o mesmo efeito.
Para a pesquisadora, essas violências precisam ser contextualizadas em sua natureza estrutural, ou seja: é preciso haver uma conscientização sobre a identidade de gênero enquanto um fator determinante para que cada um dos casos tenha acontecido, como forma de denúncia.
Barretos observou na sua pesquisa, por exemplo, que frequentemente os jornalistas usam quase que inteiramente os boletins produzidos pela polícia para produzir a notícia, sem que haja, necessariamente, uma busca pela compreensão do caso como um todo.
“Enquanto é só mais um corpo encontrado no rio Arrudas, enquanto é só uma pessoa que foi baleada no meio da rua, ‘mas que tinha envolvimento com tráfico’, ou ‘um corpo que foi de uma travesti encontrada num ponto de prostituição’, a pessoa é culpada pela própria morte”, explica a professora.
“Enquanto a gente fica reproduzindo essas narrativas da polícia, a gente impede essa conscientização social, esse papel do jornalismo de fornecer para a população as informações para que ela entenda que é um problema e a gente consiga socialmente lutar para enfrentar esse problema”, defende.
Lobby antitrans
Do outro lado, a análise da Antra é de que há um crescente lobby antitrans no Brasil e no mundo, que se manifesta em diversas instituições, seja no Legislativo, no Judiciário, ou mesmo em associações que utilizam o fantasma da defesa da família para justificar a transfobia.
Bruna Benevides lembra, por exemplo, do caso da Associação Matria, em São Paulo, que, a partir de um discurso de “defesa das mulheres e crianças”, tem sofisticado uma maneira de combater as pessoas trans.
“A Matria entrou com ações em todas as universidades que implementaram cotas trans no último ano. Elas têm feito diversas chamadas e mobilizações contra toda e qualquer ação que envolva a comunidade trans”, relata.
“O que a gente tem visto é que a extrema direita e esses grupos antitrans estão muito articulados em diversas frentes. Quando se trata das pessoas trans, esses agentes todos estão ali empenhados em impedir que as pessoas trans existam”, lamenta.
Anti-identitarismo
Por outro lado, Benevides reforça a necessidade do campo progressista elaborar respostas bem argumentadas e efetivas contra a violência.
“O campo em que eu estou localizada, enquanto feminista, antirracista, enquanto uma mulher de esquerda, ele deixa muito a desejar porque ele está caindo na falácia do anti-identitarismo. Ele está acreditando e fazendo o coro muitas vezes a uma ideia que é da extrema direita”, alerta.
Para ela, é preciso estar atento para não reproduzir uma lógica que exclui, historicamente, a comunidade trans.
“Pessoas trans estão no centro desses ataques e no mesmo sentido deveria ser a comunidade trans que estaria no centro para ser protegida pelo campo que tem a possibilidade de fazer isso”, reivindica.
É o que também endossa a professora Dayane Barretos. “A que custo, ao longo de tantas décadas, a gente não tem conseguido avançar nos direitos da população trans e a agenda anti-trans tem por outro lado crescido tanto? Porque eles não abrem mão dos discursos mais radicais deles, angariam votos e apoiadores com discursos de extrema direita e a gente fica ali tentando amenizar o nosso discurso”, argumenta.
A mensagem
No Dia Nacional da Visibilidade Trans, portanto, a mensagem de Benevides e da Antra é clara.
“A vida das pessoas trans é importante, como a vida de pessoas idosas, como a vida de mulheres, de pessoas negras, de crianças, de pessoas com deficiência, de imigrantes, etc”, lembra.
“O Brasil tem essa dicotomia total. É o que mais mata pessoas trans, mas também o que mais consome pornografia. Então, é uma loucura viver nesse país sendo uma pessoa trans, é instável. Mas ao mesmo tempo, a mensagem da visibilidade é: pessoas são pessoas, nós somos pessoas que temos total capacidade de contribuir para construir uma sociedade melhor”, destaca.
